Plantar açaí é um bom negócio para todos, incluindo as florestas acreanas – Jornal A Gazeta

Plantar açaí é um bom negócio para todos, incluindo as florestas acreanas

Nos últimos anos o consumo do açaí aumentou de forma vertiginosa não apenas na região Norte, mas no Brasil e em vários países da Europa e nos Estados Unidos. Na atualidade a produção brasileira de açaí atende de forma precária a demanda do mercado interno e externo.

Acreanos que consomem açaí com regularidade observaram que neste final de ano, período da entressafra na produção de frutos no Acre, o preço aumentou muito e em alguns casos, o produto sumiu dos supermercados locais. Neste período os produtores locais de açaí que conseguem colher um ou outro cacho de frutos maduros preferem privilegiar compradores de outras regiões, que pagam, literalmente, o preço que os vendedores estabelecem. A expectativa é que a oferta volte ao normal daqui a 2-3 meses e o preço retorne ao patamar de R$ 4/litro ou R$ 10/kg do produto congelado.

Essa alta demanda por frutos de açaí tem servido como incentivo para alguns investidores locais iniciarem plantios em pequena, média e larga escala. No atual contexto de aumento do consumo, o retorno de investimentos feitos em plantios de açaí é quase certo tendo em vista que o potencial de produção brasileiro é quase totalmente dependente do extrativismo de plantas nativas ocorrentes em áreas de florestas primárias.

A produção extrativista de açaí no Brasil é mais expressiva no Pará em razão da alta densidade dos açaizais nativos e da espécie de açaí que ocorre naturalmente naquele estado, conhecida popularmente como açaí-de-touceira e cientificamente como Euterpe precatoria. O açaí-de-touceira, como o nome indica, pode ser manejado por muitos anos visto que quando a planta principal envelhece e diminui naturalmente a produção de frutos, ou quando morre ou é vítima de dano mecânico e precisa ser descartada, um perfilho da touceira pode ser conduzido para ocupar o seu lugar.

No Acre, o açaí nativo, conhecido popularmente como açaí solteiro e cien-tificamente como Euterpe precatoria, não pode ser manejado da mesma forma que o açaí nativo do Pará porque, como seu nome sugere, cada planta possui apenas um tronco para produzir frutos. Por isso a produção extrativista acreana é pequena se comparada com a paraense.

O açaí nativo do Acre ocorre em maior ou menor densidade dependendo do tipo de floresta. Florestas de baixio ou próximo de cursos de água geralmente apresentam maior densidade de açaí do que as florestas das áreas de terra firme. Florestas com bambu (taboca), muito comuns na região leste do Acre, apresentam menor densidade de açaí. O resultado dessa menor densidade de açaí é que os custos de produção para a colheita de frutos em nossas florestas são maiores, pois o esforço e o investimento financeiro em mão-de-obra para a coleta dos frutos é bem maior. E mesmo nos locais onde o açaí solteiro é muito adensado, nem todos os pés podem ser explorados porque alguns deles são muito altos, podendo atingir mais de 20 m, são tortos ou os troncos estão danificados, tornando a subida uma atividade de alto risco para os coletores. E tem mais. Depois de colhidos, os frutos de açaí precisam ser processados em até 24 horas. Isso indica que extensas áreas florestais distantes dos centros urbanos que abrigam as indústrias de processamento  ainda não podem ser contabilizadas como áreas potencialmente exploráveis.

Apesar de todas essas desvantagens, a demanda crescente do mercado tem absorvido toda a produção acreana. Sem plantios expressivos, a pressão para aumentar a produção extrativista de açaí no Acre tem sido muito grande e caso se concretize poderá afetar negativamente as populações naturais da espécie caso a exploração passe a ser feita de forma predatória.

Um estudo realizado no leste do Acre por Elektra Rocha e Virgílio Viana em 2004 estimou em cerca de 450 kg de frutos/hectare o potencial de produção de açaí em florestas de baixio e de 173 kg de frutos/hectare em florestas de terra firme. Estes autores sugeriram que a intensificação do extrativismo depende da adoção de algumas práticas de manejo, como controle de cipós, desbaste do dossél e semeadura em clareiras. Eles também alertaram para a importância de se limitar a quantidade de frutos removidos da florestas tendo em vista a necessidade de conservação no longo prazo das populações naturais da espécie. Pelos cálculos que fizeram, eles recomendam que a colheita de frutos nas áreas mais produtivas, as florestas de baixio, seja feita em apenas metade das plantas produtivas. Isso é necessário para garantir que parte dos frutos não retirados da florestas possa germinar, crescer e atingir o estágio adulto. Vejam que estou falando de parte dos frutos porque nem todos se transformarão em plantas adultas. Muitos servirão de alimento para a fauna silvestre, outros serão vítimas de danos físicos causados pela queda de outras árvores, muitos não germinarão, enfim, é a parte que a natureza ‘cobra’ para garantir que os açaizais possam continuar a existir e serem produtivos.

Aos proprietários de áreas rurais interessados em cultivar o açaí nativo do Acre mas que não tem tempo ou recursos financeiros para tal, uma saída de baixo custo é fazer a semeadura da espécie no inte-rior da floresta, especialmente em áreas de clareiras. O objetivo dessa ação é contribuir para o adensamento das populações naturais da espécie, aumentando a produção nestas áreas. Essa ideia pode até soar como algo irracional. Imaginem, semear açaí floresta a dentro sem nenhuma técnica mais sofisticada para garantir a sobrevivência das plântulas que germinarão! Mas me digam, tem algo mais irracional do que descartar, jogar no lixo, toneladas de sementes de açaí, como fazem diariamente no Acre as empresas que processam os frutos? Tá certo que parte das sementes é reutilizada para a confecção de biojóias e produção de adubo orgânico. Mas a quantidade é insignificante frente ao que é jogado no lixo.

Até fizemos um estudo para saber se as sementes oriundas dos processadores de frutos estabelecidos aqui em Rio Branco ainda servem para a produção de mudas. E sabem o que descobrimos? Que o choque térmico (aquecimento dos frutos) e o despolpamento mecânico dos frutos de açaí (batidos em máquinas) resultam em sementes com vigor mais elevado do que aquelas não submetidas a choque térmico e despolpadas manualmente ou sem despolpamento. Por isso acreditamos na possibilidade de usar essas sementes  para adensar o açaí em áreas de clareiras via semeadura direta. Recomendamos apenas tratar as mesmas com fungicida para diminuir as perdas em razão da ação de fungos. É certo que essas sementes originarão mudas vigorosas, mais até do que as que as plantas nativas da floresta produzem naturalmente a partir de seus frutos.

* Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Ufac.


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