Fragmentos florestais não tão prístinos na APA do Igarapé São Francisco – Jornal A Gazeta

Fragmentos florestais não tão prístinos na APA do Igarapé São Francisco

 Nos últimos três anos temos realizado, com o apoio de acadêmicos do curso de engenharia florestal da Ufac, diversos inventários florestais e florísticos em fragmentos florestais existentes na Área de Proteção Ambiental (APA) do Igarapé São Francisco. Esta APA foi criada em 2005 pelo governo do estado com o objetivo de proteger e recuperar as regiões do entorno do igarapé São Francisco e seus afluentes, que constituem a principal rede de drenagem da cidade de Rio Branco.

 A maior parte das cerca de 30 mil hectares que compõem a APA localiza-se a Noroeste de Rio Branco, entre as rodovias Transacreana e BR-364, a poucos quilômetros das cidades de Rio Branco e Bujari. Aa proximidade com estes centros urbanos tornam os remanescentes florestais da APA muito vulneráveis às atividades ilegais de exploração de seus recursos naturais, especialmente a extração de madeira, e ao desmatamento paulatino para implantação de áreas agrícolas e para a expansão urbana das cidades citadas.

 A realização de estudos dos remanescentes florestais da APA do Igarapé São Francisco é importante porque, além de demonstrarem a diversidade dessas áreas e destacarem a importância que algumas espécies exercem sobre a estrutura da floresta, eles facilitam o planejamento e a condução de estratégias adequadas para a conservação da biodiversidade, implantação de práticas ecológicas eficientes e de ações mitigadoras de danos ambientais.

 Até o presente cerca de 18 mil hectares da cobertura vegetal original da APA já foram desmatados. Os remanescentes florestais, que ocupam aproximadamente 12 mil hectares, formam um mosaico de florestas primárias e secundárias (capoeiras) em diferentes estádios de regeneração. A tipologia florestal predominante na APA é classificada como ‘Floresta Aberta com Palmeiras no Subosque’, embora extensas áreas florestais, especialmente as que sofreram intervenção humana, estão se regenerando com o bambu (taboca) tomando o lugar das palmeiras.

 Para um dos inventários florestais que realizamos na APA, decidimos selecionar um fragmento de floresta primária (em teoria uma floresta não alterada pelo homem) sem bambu em seu subosque. Depois de algumas idas e vindas pelas precárias estradas que cortam a APA, nos decidimos por um fragmento florestal localizado no final da estrada conhecida como ‘Barro Vermelho’. Uma das razões para a escolha do local foi a garantia, por parte do dono da área, de que aquela floresta nunca havia sido ‘mexida’, pois fazia parte da reserva legal de sua propriedade. Para nos certificar, antes de iniciar o trabalho de campo fizemos uma rápida avaliação gostamos do que vimos: ausência de bambu, floresta bem estruturada (estratos arbustivo, intermediário e dossel distintos), e algumas árvores de grande porte. 

  Para o inventário florestal, foi preciso demarcar no interior da floresta 20 parcelas medindo 25 m de comprimento por 20 m de largura, que foram distribuídas ao longo de dois transectos (linhas retas dentro da floresta) com 500 m de comprimento cada, de forma que a área amostral atingisse um hectare. Em todas as parcelas foram marcadas, identificadas e medidas todas as árvores com diâmetro a altura do peito (DAP) igual ou superior a 10 cm. Foram estimadas ainda a altura comercial (do solo até a primeira bifurcação do tronco) e a altura total.

 O trabalho em campo durou cerca de uma semana, com idas e vindas diárias pelo ramal ‘Barro Vermelho’, que não merece esse título em seus últimos 5 km. Imagino o apuro que passam os moradores daquela região quando o período das chuvas se acentua entre janeiro e março. Vejam que essa é uma das regiões de exploração agrícola e florestal mais antigas do entorno de Rio Branco. Todos os anos máquinas do governo ‘reabrem o ramal’. Se contabilizarmos o quanto de recurso financeiro já foi investido na reabertura daquela estrada é bem possível que o montante gasto seja mais que suficiente a sua pavimentação.

 Dilemas e revoltas com a falta de sensibilidade dos nossos administradores à parte, o resultado do inventário da ‘floresta primária’ revelou a presença de 384 indivíduos arbóreos classificados em 101 espécies, 79 gêneros e 34 famílias botânicas. Essa baixa quantidade de árvores/hectare foi a primeira surpresa. Acontece que nas florestas primárias acreanas onde o bambu é ausente, esses números geralmente ultrapassam as 500 árvores/hectare. A segunda grande surpresa do estudo foi o fato da espécie breu vermelho (Tetragastris altissima) ter apresentado a maior densidade absoluta (65 indivíduos/hectare), o maior índice de valor de importância (IVI=36,68) e a maior área basal (AB=4,29 m²/ha) dentre todas as espécies encontradas no fragmento florestal. Em muitos casos, espécies de grande porte geralmente apresentam maior área basal em florestas primárias, bem como são, sob o ponto de vista fitossociológico, as mais importantes.

 A estrutura vertical da floresta mostrou que a maioria dos indivíduos arbóreos (71%) era de médio porte, com altura inferior a 19,42 m. Os estratos inferior e superior incluíram 13 e 15% dos demais indivíduos. Dos 65 indivíduos de breu vermelho avaliados, 55 (84,6%) ocupavam o estrato médio, 10 (15,3%) o estrato inferior, e nenhum foi encontrado no estrato superior. A estrutura diamétrica de todas as árvores avaliadas, com 9 classes distintas, mostrou que 49,7% dos indivíduos estão na primeira classe (15 cm), 28,1% na segunda (25 cm), 12,7% na terceira (35 cm), e 9,3% nas demais classes. A estrutura diamétrica encontrada sugeriu a existência de um balanço entre o recrutamento e a mortalidade das plantas encontradas no fragmento.

    O breu vermelho ou breu maxixe é uma árvore de pequeno a grande porte usada para fins alimentícios, madeireiros e como alimento para a fauna silvestre. Em um estudo realizado no Pará, pesquisadores do Museu Goeldi concluíram que esta espécie apresenta características de espécie tolerante à sombra, mas se adapta facilmente, em sua fase inicial de desenvolvimento,  em ambientes perturbados como os de clareiras se beneficiando da maior luminosidade para poder competir e se estabelecer.

    Com base nos resultados do inventário e do estudo de comportamento do breu vermelho, foi relativamente fácil inferir que a floresta da APA que pensávamos ser primária foi, na verdade, explorada para a extração madeireira alguns anos atrás. Esta exploração contribui para a baixa densidade arbórea e baixa área basal encontrada. Uma lição que devemos aprender: estudar áreas florestais nas cercanias de centros urbanos requer cuidados redobrados, especialmente porque poucos proprietários irão admitir que o estoque madeireiro de suas reservas legais já foi explorado de forma ilegal.

 A floresta sempre esconde seus segredos e superficialmente o fragmento florestal que estudamos parecia ser primário, mas, como bem observou Kent Redford, um famoso pesquisador americano, do alto e de longe, extensas áreas florestais na Amazônia parecem saudáveis. Só parecem. Sua exploração seletiva, com a retirada de espécies que alimentam a fauna, as tornam vazias. E é isso que, a priori, devem ser considerados todos os fragmentos florestais do entorno de Rio Branco. No nosso caso, nem mesmo a exploração do breu para fins madeireiros parece ser possível: a maioria dos indivíduos é de pequeno a médio porte. Vão ser preciso alguns anos para que atinjam o diâmetro de corte ideal para a exploração.

*Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do Inpa/Acre e Parque Zoobotânico da UFAC.


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