A autoestima de Dorival Caymmi – Jornal A Gazeta

A autoestima de Dorival Caymmi

“Eu vou pra Maracangalha, eu vou”, anuncia, radiante, o nosso grande Dorival.

“Eu vou de uniforme branco, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou”, continua. Vestido com tal elegância e leveza, a bordo da festiva canção, além do generoso sorriso, não é difícil supor que esteja se dirigindo a um lugar muito estimado.

E se é tão bom, será também boa ideia chamar alguém especial para ir junto. Então ele avisa: “Eu vou convidar Anália, eu vou”. Codinome encomendado para rimar com Maracangalha, Anália é o nome da mulher, namorada, amante ou companheira. Enfim, aquela com quem ele quer compartilhar o prazer dessa jornada.

Nesse ponto, onde se insere o refrão, letra e melodia experimentam uma inflexão, indicando, ainda com alegria, mas uma alegria diferente da anterior, que ele está ciente da possibilidade de que, por um motivo qualquer, Anália não queira ou não possa ir. Nesse caso, já sabe o que fará: “Se Anália não quiser ir, eu vou só (…) Eu vou só, eu vou só, sem Anália, mas eu vou”.

Simples e espontânea, irrompe essa flor filosófica na canção, o que a diferencia da grande maré de apologia à dependência emocional que inunda a música popular. Expedidos os devidos alvarás para a deliciosa insanidade dos recém-apaixonados – que ninguém é de ferro, aqui não há “eu só vou se você for”, “só tem graça se você estiver junto”, ou “eu não existo sem você” – mil perdões, Vinícius!

Como personagem da própria obra, Caymmi existe sim e, ao contrário de muitos, provavelmente da maioria, sabe disso. Sabe que está presente e vivo. Sabe que é um boa-praça, sente-se bem consigo e com a vida que tem. Confia na sua capacidade de desfrute e se entende merecedor de ir à agradável Maracangalha. Então, a companhia da amada é obviamente bem-vinda e até desejada, mas não é condicionante para o seu saboroso passeio.

Seja como for, feliz da vida, ele vai a Maracangalha! Que, a propósito, é uma localidade da Bahia próxima de Salvador.

 

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