A fênix renascida do caos mais íntimo

Postado em 12/08/2017 19:59:14 CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO*

Para a Geany Silva.

Viera de uma terra distante. Indagara ao vento sobre que tipo de pessoas poderiam fazer parte do seu novo mundo em início de construção. Os edifícios eram tão belos e tão altos que lhe batia uma espécie de vertigem, ou sonolência, ou uma doida vontade de nada ou quase nada fazer. Todos agora lhe eram estranhos. Talvez as caras novas não lhe sorriam com algum afeto. Novidades crescentes. Aquela dimensão novinha e recém-nascida aos seus pés inspirava-a. Havia uma vontade enorme de sondá-la, esmiuçá-la, esquadrinha-la total, como é comum aos que ainda estão a experimentar e a palmilhar as primeiras voltas ao redor do sol. Uma menina no esplendor dos sonhos de todos os formatos.

Dela se acercou, então, um desses bem-humorados analistas da era moderna, fazendo uso ponderado da caneta e das possibilidades de cada um. Meio malabarista, meio troteador e um tanto prudente, ele passou a dar pistas, por escrito e em bom português, muito obviamente, no mais das vezes bastante claras e jamais escorregadias.

Um dia, o aqui denominado protetor solar ousou escrever que, com algum respeito, sentia grande carinho por ela.

Comportamento de quem está sempre de posse de um bom chicote de pontas de metal pronto a dilacerar as costas de quem quer que seja, a mocinha foi incisiva, abrupta mesmo, e passou a fazer divagações meio ácidas relativas aos projetos de futuro e à vida que mal começara.

Daí em diante, uma personalidade forte e afiada foi sendo revelada pela moçoila que afirmava, seguramente, gostar de pessoas frias e de difícil apego, daquelas do tipo que se vai ganhando, aos poucos, dominando territórios, conquistando a confiança. Segundo ela, gente assim acaba se tornando as melhores que você haverá de conhecer. Coisa mais bela.

– Desconfio dessa gente que ama desde o princípio. Pessoas que espirram eu te amo não chamam a minha atenção, não fazem o meu olho brilhar.

Buscando as raízes de uma conduta encantadora, pela densidade, para qualquer analista do comportamento humano, o protetor solar fez comentário sutil:

– Talvez eu esteja vendo ou sentindo algum desencanto nas suas palavras. É provável que o seu mundo lhe tenha ensinado a ser assim, meio grave, meio aguda, meio leve, meio arredia.

Ao que ela, esboçando um estilo fino e cortante, respondeu:

– Aí. Você tem a sua opinião e eu tenho a minha ironia.

– Está fora de cogitação fazer algo para mudar a sua forma de encarar a vida e os fatos. O estilo é como roupa de dormir e tem o seu cheiro peculiar, agrade ou não. Apenas fico encantado com o que escreve. Vejo na sua pessoa um devir brilhante enquanto uma futura estudiosa do ramo das humanidades. Percebo que as pistas seguidas por você nasceram de livros ou de pessoas que lhe foram dando sugestões. Talvez os pais.

– Segundo o meu ponto de vista, qualquer um pode aconselhar o outro na escolha de um caminho na vida. Porém, é você quem decidirá se deve ou não ir atrás da pista recomendada. Até porque és a única pessoa que te conhece melhor ao se mirar no espelho, que sabe decorado todos os teus sonhos e desejos. Agora, nunca esqueça que o lápis sempre estará entre os seus dedos, para que você possa ter o devido direito de escrever ou corrigir os seus erros. Assim como as opiniões alheias sempre lhe serão recorrentes, entre uma palavra e outra, é conveniente lembrar que, dependendo do ponto de vista, quem avista o ponto final é você.

Essas ponderações altamente equilibradas e muito bem escritas passaram a deixar o analista bestificado, com as pupilas arregaladas, quase fazendo careta de tanta satisfação. Que coisa bonita de se vê são divagações como estas. Tão cheias de tato. Tão lúcidas. Tão primorosas.

Então, o protetor solar interveio:

– Quais pessoas foram tão interessantes na sua vida ao ponto de lhe deixarem tão equilibradamente analítica em termos de perseverança?

– Ora, pois. Ultimamente, tenho conhecido tanta gente que eu percebi que não conheço quase ninguém, que ninguém me conhece, que ninguém se conhece, ninguém quer se conhecer. E talvez isto não tenha ocorrido apenas ultimamente.
É verdade. Todos ou quase todos estão meio sem rumo. Como diria o poeta, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.

– Com a alma configurada em formatação tão intensa, como a sua, acredito que pessoas inteligentes se acerquem do seu mundo. Penso em sugerir pretendentes que gostariam de compartilhar os seus encantos e desencantos.

– Sem pretendentes e sem desencantos. Porém, tenho percebido que o ruim de ficar tanto tempo solteira é que você vê muita coisa que não devia. Talvez todas as moças da minha idade devessem ver, não sei. E, assim, eu passo a acreditar cada vez menos nos relacionamentos, na lealdade, na confiança. Dá até vontade de ficar sem namorado, ou o que quer que seja, para sempre, para não ter que passar por tudo aquilo que você já conhece de trás para frente. É deveras complicado ter alguém que faz falta todo dia, ter alguém que também traz decepção de sobra. Vejo diariamente os caras comprometidos perdendo a linha por aí. Colocando a namorada no bolso, sem o mínimo respeito ou consideração, pegando amiga, prima, mãe e depois se declarando inocente nas redes sociais. Sinto náuseas. Definitivamente, não é isso o que eu quero para mim. Não estou generalizando. Estou me referindo ao que mais vejo por esta vida afora. Tenho lamentado profundamente a morte gradativa da minha esperança no amor e nas coisas bonitas.

– Escreva-me sobre exemplos práticos seus, fatos do dia a dia.

– Esses dias, uma amiga ficou pela milésima vez com um garoto que namora. Eles têm algo tipo um rolo, mas o cara é galinha profissional. Só que, nas redes sociais, ele é encantadoramente apaixonado, uma figura clássica.

E ela prosseguiu:
– Mais tarde, eu estava ficando com um garoto qualquer e ele recebeu uma mensagem de alguém que dizia lhe ter muito amor e que “mesmo você não acreditando, espero o dia em que ficaremos juntos para valer.” Ele leu, bloqueou a tela, guardou o celular e me beijou sem esboçar reação alguma. Deu em mim um alívio enorme em estar ali por estar. E eu não consigo parar de pensar na história por trás daquela mensagem. Em como aquela menina estaria se sentindo naquele momento, no quanto ela devia ter relutado para escrever aquilo para, enfim, se render num átimo de esperança, em mais uma tentativa de fazer dar certo aquilo que já nasceu torto.

Os fatos aqui narrados ocorreram nos anos posteriores à guerra fria. A menina e moça nascera nos arredores de Southampton e transferira-se para Birmingham, com a finalidade de adquirir mais conhecimentos para a vida futura. Ela estava, naquele dia mesmo, concluindo um curso de pós-graduação em psicanálise. Logo mais, ao redor da última hora, em cerimônia na Academia, receberia a clara demonstração do quanto os seus estudos foram importantes para muitos humanos desencantados com o mundo ao redor. Ela estava felicíssima.

Daquela noite em diante, pois, pássaros azuis passaram a povoar os seus sonhos e divagações relativas ao futuro. O passaporte para a felicidade passou a ter carimbo novo e legítimo. Voaram para muito além da última galáxia os pensamentos tristes e a bela voltou a achar muita graça da vida, como agora mesmo está sorrindo de todos os monstros por ela criados em um passado não tão remoto, mas há alguns meses ou anos ainda com cheiro de novos.

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO, Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou na página https://www.facebook.com/claudiomotta.com.br>

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