A ferro e a fogo e voando faísca – Jornal A Gazeta

A ferro e a fogo e voando faísca

Corria o ano da graça de mil novecentos e zarabatanas voadoras. Naquele tempo, o observador das estrelas havia chamado para si ideia com algum sentido. Ele ficava sentado a um banco de praça, sozinho, a ouvir, dos transeuntes, pedaços de conversa que eram devidamente anotados. Mais tarde, ao seu bel prazer, daria o rumo que bem entendesse ao que denominou retalhos de vida. Agora, no entanto, os argumentos não estão à toa, mas muito bem alinhavados uns aos outros.
Em um certo local de gente muito saudável e bonita, lá no recanto brasileiro onde fez os seus estudos de altíssimo nível, o anotador compulsivo engendrou amizade com uma quantidade razoável de pessoas, todas muito comunicativas que lhe contavam fatos das suas vidas, em mesas de bares e restaurantes, como se ele fosse algum confessor, quando, na realidade, é apenas um humano limitado e confiável até certo ponto. (Boa parte dos frequentadores de academias, além de saudáveis, são bem tratáveis e festivos.)
No entardecer de um sábado, pois, comemorando os dias mais felizes das suas vidas pecaminosas até certo ponto, diálogos corriam soltos. A mais bela dentre todas do cambuí havia mandado o marido catar coquinhos, um pulha, e, agora, a cada dois finais de semana, o filho único, de dez anos, passava os dias com ele – e a mãe dele – de onde, invariavelmente, trazia notícias estupefacientes, como a maioria delas que davam conta dos adjetivos abomináveis usados pela sogra contra a ex nora, aquela prostituta depravada que estava estragando a criação do netinho.
Ah, velha boquirrota!
– A sua mãe, meu netinho lindo, que infelizmente é também a sua ex-mulher, filho panaca, metida com aquele povo da universidade, se tornou liberal demais. Trepa geral e, à noite, fuma maconha lá na colina onde está localizado o observatório espacial. Sei de fonte segura. Aquela rameira!
O anotador das galáxias nunca posou de flor que se cheire, nem foi de andar em línguas de matildes. Não admira que ele próprio já se engalfinhara com a bela em encontros fortuitos regados a suores mornos e gemidos agudos em meio aos graves. Todos ali eram de formação intelectual de altíssimo nível. Liberais, modernos e sacanas ao mesmo tempo, por assim dizer. A ela, todas as razões do mundo eram dadas porque o patricinho,como rotulara o marido anterior, já a agredira, fisicamente, às bofetadas, em público, inúmeras vezes. Daí o término do romance baratinho.
Pior é que a separação ocorreu exatamente em vista dos queixumes e azedumes da velha matrona asmática com pelos saindo pelo nariz avantajado e mais enojada que catarro em parede sem reboco. Segundo os vizinhos também tornados arredios, ela matara aperreado o marido em pleno desempenho da função de delegado lá pelos quintos de barão geraldo.
No pub da rua josé paulino, alguns rapazes conversavam sobre assuntos diversos. As moças, ao contrário, tratavam apenas o tema em voga já durante uns três sábados. Todas elas davam sugestões cada uma mais construtiva que a outra. Ao par disto, o anotador ia fazendo o seu papel cheio de intervenções as mais sacanas possíveis.
Uma observação extremamente plausível, da Sílvia Mara, doutoranda psicóloga, dava conta de que as sogras são intrometidas demais na sua grande maioria. (Ela nunca imaginou que um dia essas maquinações diabólicas viriam a cair em bom papel e vernáculo nem tanto, aqui.)
Filha arredia distanciada da família legítima de um velho barão do café, frequentou o colégio culto à ciência até ver completado o primário, isto, em meados do século anterior. Só. A matrona azeda se sentia excluída e passou a fazer intromissões como que exigindo o seu lugar nesse novo arranjo de família. A pouca instrução não lhe permitia perceber que os seus palpites seriam logo rejeitados sem mais delongas.
Usando de uma estratégia meio esdrúxula, a nora tentava manipular situações com a intenção de ficar bem aos olhos do marido. Ela não jogava com a ideia segundo a qual o patricinho ainda dependia da velha em termos financeiros, como jamais deixaria de depender por questões obviamente circunstanciais e cheias de vagabundagem. (Uma viagem anual à Europa e um monza zero bala não poderiam ser deixados de lado.)
A nora, independente em todos os sentidos, além de adepta da pulada da cerca, não conseguia ver – talvez por que não quisesse – que a relação com a bruxa precisaria ser construída com bastante jogo de cintura. Muito pelo contrário, já de início, ela não deu nenhuma chance à convivência e já foi dizendo que a coisa era igual a submarino: nascera para afundar.
Em verdade, a afinidade oportunista entre mãe e filho logo se configurou como uma ameaça ao casamento modernoso desde as tripas de ambos. Nenhum dos contendores percebeu, por conseguinte, que esse tipo de relação é deveras diferente das demais.
Muito interessantes, apesar do elevado teor etílico da psicóloga, foi uma observação anotada em papel de boteco:
– Se você não gosta de alguma atitude da sua sogra, qualquer que seja, inclusive em se tratando da educação do netinho, procure falar com ela de forma respeitosa e amiga. Sei que não é fácil.
Em síntese, a nora poderia até fazer reclamações da sogra para o marido, mas seria preciso costurar a coisa de forma a que ela nunca soubesse. Convém observar que, se a velha souber, pode ter certeza que o pau vai quebrar, principalmente, quando ela não tem modos e nem papas na língua, e já vai chamando a nora de vadia no pé da lata.
Coisa deveras interessante é ver um psicólogo bêbado querendo mediar uma conversa de bêbados. Ele se sente uma espécie de nossa senhora da ajuda, padroeira dos chifrados. Cita logo o Jung e o Freud, sem pestanejar. É risível, notadamente, para quem se encarregou apenas de anotar as loucas divagações sócio psicológicas entre um gole e outro.
– Filha, presta atenção aqui, ó. (Com o dedo indicador apontado e já bambo.) Embora nenhuma mãe goste de sentir que a nora manda no filho, também a falta de atitude da nora costuma ser vista de forma muito negativa pelas sogras. Elas desejam ver os seus rebentos como parceiros das suas esposas. Isso é o que engrandece o papel delas enquanto mães zelosas na criação dos seus machinhos latino-americanos que estabefeiam mulheres louras, magras e lindas. Você me entende, sim.
A mãe do observador compulsivo estava a uma distância enorme. Por isto mesmo ele conseguiu ponderar que tudo o que estava sendo comentado expunha muito algumas pessoas, notadamente a mais velha e, por assim dizer, não menos merecedora das agulhadas gerais. Ele, em casa, ouvira a avó matriarca dizer que uma sogra não gosta de ver os problemas da família do filho sendo expostos, nem mesmo para elas mesmas. É preciso cautela na relação. Da mesma forma que a sogra fofoqueira não pode ser confidente de ninguém, também você não deve escancarar a sua vida de casal expondo situações privadas e pessoais.
E já vinte e tantos anos são passados. A colina do observatório espacial continua lá, esfumaçada. A rapaziada de hoje faz o mesmo que a de ontem fazia. Das sogras mal vistas, certamente, a superior maioria delas já passou desta para uma outra muito melhor, ou bem pior. Muitas ascenderam ao andar de cima, ou fizeram morada no porão a assombrar os incautos, inclusive, Deus e o mundo.

Assuntos desta notícia