A importância da pesquisa científica no planejamento do combate às causas da violência em Rio Branco – Jornal A Gazeta

A importância da pesquisa científica no planejamento do combate às causas da violência em Rio Branco

A violência em nossa cidade atingiu níveis alarmantes nestes últimos anos e há muito que é reconhecida como um problema de sáude pública em razão das sequelas físicas e emocionais que produz. No contexto atual a violência é um fenômeno que adquiriu uma complexidade difícil de ser compreendida, pois soluções simplórias ou milagrosas não são suficientes para resolver suas causas. Esta complexidade decorre do fato de a violência ser, nos dias de hoje, resultado da congregação de uma teia de problemas sociais, econômicos, morais, psicológicos, de relações humanas, instituicionais, religiosos, políticos e outros.

Embora a população clame por uma solução e muitos políticos, especialmente aqueles que não estão ocupando cargos na administração pública, deixem transparecer que, caso eleitos, poderão resolver o problema, a verdade é que não existe uma solução tão óbvia. Diminuição da maioridade penal? Emprego para os desocupados? Ampliação dos programas de assistência social? Construção de mais presídios? Ampliação do combate ao tráfico de drogas? As opções de ações para combater e minimizar a violência são muitas e a maioria delas tem grandes possibilidades de causar impacto positivo. Entretanto, o que temos visto é que as ações são efetivadas, o tempo passa e a violência só aumenta. O que estamos fazendo ou deixando de fazer que não conseguimos ser efetivos em nossas tentativas de minorar esse problema que permeia todos os poros da sociedade?

Acreditamos que o uso da informação como base para a tomada de decisões voltadas para o combate à violência é uma saída a ser tentada. Não estamos falando de monitorar telefones e a comunicação dos chefes de gangues e criminosos contumazes. Mas de conhecer a fundo a realidade socioeconômica dos habitantes de nossa cidade para sermos mais efetivos na aplicação de medidas de combate à violência. Um bom exemplo do que me refiro foi o estudo realizado por pesquisadores da Ufac e da Fundação Oswaldo Cruz para avaliar a violência que atinge moradores com idade superior a 18 anos no município de Rio Branco, publicado no final de 2012 na Revista Baiana de Enfermagem.

O estudo avaliou a situação de 1511 habitantes e revelou que cerca de 1/3 deles já foi vítima de violência em algum momento de sua vida. É importante esclarecer que a diversidade da violência abordada no estudo incluiu os diversos tipos de agressão e lesões ocorridos em quaisquer fases da vida dos participantes do estudo. Como cada tipo de violência tem uma dinâmica própria e envolve diferentes fatores de risco, os autores abordaram os fatores associados à vitimização por violência na vida e não à vitimização exclusiva a um tipo específico de violência.

O resultado da pesquis mostrou que problema é maior entre as mulheres, que em sua maioria (51,4%) relatou ter sido vítima de algum tipo de violência. Outros grupos afetados incluíram os adultos jovens (34,4%) ou maduros (29,4%), pessoas com status conjugal ‘com companheiro’ (54,2%), autodesignados pardos (81,9%), trabalhadores (60,9%), com rendimento mensal inferior a dois salários mínimos (70,4%), com no máximo 10 anos de frequência na escola (56,5%). Dos habitantes da zona urbana, 74,3% relataram ter sido vítima de violência enquanto que na zona rural este percentual foi de apenas 25,7%.

Dos habitantes vítimas de violência, cerca de 25% já tinha sofrido acidentes de trabalho, 20,6% eram fumantes contumazes e 36,3% eram consumidores de bebida alcoólica. Cerca de 38,5% tinham autopercepção insatisfatória da saúde, cerca de 25% relataram ter diagnósico médico de depressão e 20% afirmaram possuir limitações ou dificuldades no desempenho de atividades da vida diária.

A avaliação estatística dos dados colhidos durante o estudo revelou que as variáveis mais adequadas para o melhor modelo de explicação da vitimização por violência em Rio Branco foram: ter sofrido acidente de trabalho, ter trabalho remunerado, ter o hábito de ingerir bebidas alcoólicas, ter autopercepção insatisfatória da saúde e se considerar deprimido. Esta última variável foi a que apresentou maior associação com a vitimização por violência.

Para os autores, a morbidade gerada pela violência produz incapacidades transitórias ou permanentes, depressão e mudanças de conduta, podendo levar ao tabagismo, transtornos alimentares, consumo de álcool e drogas, hepatites, câncer de pulmão, além de outros prejuízos, os quais ampliam a carência de cuidados de saúde e o impacto social do problema. A violência produz também repercussões sociais interse-toriais, como o absenteísmo no trabalho e no estudo, custos judiciais e desestruturação familiar.

Os resultados obtidos no estudo conduzido em Rio Branco pelos pesquisadores da Ufac e da Fundação Oswaldo Cruz corroboram as estimativas observadas para outras localidades brasileiras e revelam um quadro crítico de violência como problema multi-dimensionai cuja solução depende da adoção de estratégias de enfrentamento que integrem políticas públicas intersetoriais. Os autores ilustram o seu resultado mostrando que no mundo, as lesões por causas extemas, incluindo a violência, representam 16% das incapacidades, são responsáveis por mais de 5 milhões de mortes por ano e compreendem a maior parte das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Afirmam ainda que esse tipo de violência possui fortes vínculos com a vulnerabilidade social, a qual obstrui o acesso às políticas sociais fundamentais e que na América Latina a vio-lência cresce em função da cobertura deficiente das políticas sociais e um sistema judicial-penitenciário desestruturado. A maior prova disso é que no ranking de 67 países que integram o mapa mundial de violência, o Brasil ocupou, entre 1993 e 2002, a 4a posição nas taxas de homicídio.

A conclusão do estudo é que diante dos potenciais custos individuais e sociais da violência para a população de Rio Branco, bem como do aproveitamento dos investimentos públicos e sociais, especialmente aplicados nas fases que antecedem a vida adulta do indivíduo (a exemplo de programas de atenção à saúde matemo-infantil, investimentos educacionais e programas sociais de auxílio financeiro), é importante que sejam priorizados os trabalhos de prevenção, detecção precoce e enfrentamento das situações de violência paralelamente aos trabalhos voltados para a atenção à saúde, inserindo políticas públicas intersetoriais que, de maneira inovadora, exerçam impacto sobre o problema.

Leitura sugerida: “Violência autorreferida em Rio Branco, Acre: inquérito populacional”, de autoria de Rozilaine Redi Lago (Ufac), Terezinha de Freitas Ferreira (Ufac), Rosalina Jorge Koifman (Fundação Oswaldo Cruz) e Pascoal Torres Muniz (Ufac), publicado na edição 26 (2012), nº 3, p. 620-630 da Revista Baiana de Enfermagem.

*Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do Inpa e do Parque Zoobotânico da Ufac.

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