A minha adorável Penélope full gas – Jornal A Gazeta

A minha adorável Penélope full gas

Afável, amorosa e bela, metidinha a cinderela, carregava na lapela o nome pomposo Florbela. Sem objetivos muito claros à vista, partira à cata de uma dessas panaceias espirituais buscadas pelos filhos das elites emergentes, lá onde o cão perdeu as botas e amolou os chifres, no longínquo Laos, já na fronteira com a Tailândia.
O dinheiro puxado a rodo e a desocupação compulsiva lhe marcavam a alma fugaz. Nascera em Netanya, Israel e, apesar das origens e orientações judaicas, ansiava por conhecimentos acerca do Zen Budismo. Coisa de rico que não tem o que fazer. Eis o motivo de haver se tornado tão suave e afetuosa e meiga e mais linda por fora que por dentro.
Um dia, numa peregrinação à Meca, o destino oportunizou ao anotador das pérolas e peripécias mais íntimas encontrar-se com aquela diva ao mesmo tempo dócil e irrequieta, a partir de agora apelidada Penélope Full Gas, por quem se apaixonou perdidamente, ou quase.
O tempo lhe escorregou por entre os dedos feito gema de ovo. A vida, entretanto, em promoção de ponta de estoque, vendeu, a preço de ocasião, uns bons tropeços e ótimos deslizes. E foi daí que a ex quase tudo passou a ver a vida com olhos de lobisomem insone e extremamente ácido.
O perscrutador dos segredos mais íntimos, então, passou a guardar, como pérolas negras raríssimas, as suas anotações registradas na correspondência eletrônica eivadas de sabedoria, graça e uma dose moderadíssima de acidez estomacal. A bílis, pois, tornara-se um pouquinho dada aos vitupérios mais leves possíveis, ou mais ou menos. Arre!
Numa dessas ocasiões da vidinha frugal dos ricos inteligentes que escrevem coisas boas, porque têm tempo para tal, como Platão, o grego, ela deixou cair na rede comentários acerca da filhinha sacaníssima da sua secretária, a senhora que faz de um tudo ou toda vez:
– Oh, meu caríssimo amigo e amante virtual Yula. Mil perdões por tratar com você sobre coisas tão domésticas. Desculpe-me, mas devo ser bastante corrosiva ao lhe afirmar que aquela coisinha – filha da governanta – quer ser tratada como princesa, mas parece uma arara, toda pintada. Ela passa o dia inteiro fumando maconha, mirando o céu azul de Tel Aviv e pensando em segredos de refrigerador e em sexo insosso e a três por quatro com um andarilho tarado americano por quem se apaixonou, um tal de Tracy Williams. Onde já se viu isso? É o fim dos tempos.
Ele leu, corou e descorou. E a musa não se fez de rogada e continuou com o seu martelo tonitruante feito um Thor, o deus do barulho e da malversação da vida alheia na pós-modernidade:
– Meu Deus! O que está acontecendo? Como dizia o poeta e profeta Maluco Beleza, para o mundo que eu quero descer. A humanidade está podre e pirou de vez. O planeta deveria ser revitalizado ou reestruturado, agora, sem o humano, que tanto sacaneia as nossas relações com o divino. Como ela – a sacaníssima filha da Ianny, a governanta – nos países que sofrem sob o peso do capital, uma gama enorme de meninas com quinze, dezesseis, dezessete anos estão todas destruídas, com os apetrechos físicos embelezadores todos arreados. Parece até que vieram de uma guerra onde o estupro seria a regra. É o cúmulo. Mesmo morando em Israel, de hábitos ocidentais à toda prova, ela nunca frequentou uma academia de ginástica. Com mil demônios!
Ao que o anotador das verdades mais bizarras escreveu alguma coisa sobre a libertinagem entre os jovens ricos europeus, que não é tão diferente da praticada nos guetos do terceiro mundo, como nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo.
Nos e-mails seguintes, ela prosseguiu, agora, como se estalasse uma muxinga no lombo de todas as mulheres exploradas destes tempos:
– Veja só. Mal completou dezessete outonos esfumaçados e já está um traste. A cara ficou repuxada no rumo das orelhas. Os dentes amareleceram. Os olhos já não têm aquele brilho infanto-juvenil. Os peitos parecem massa de pizza mal dormida. As pernas secaram. A bunda não dá mais um pastel. Tenho cantado a pedra e falado que mulher linda e burra só serve pra ser usada e depois abandonada. Taí.
Ao que ela emendou como se estivesse aos gritos:
– Estuda guria!
Estourou, então, a Guerra da Síria e as viagens através do mundo árabe ficaram ainda mais perigosas, posto que a região infestara-se de terroristas dos mais variados matizes ideológicos.
Cerca de quinze meses se passaram e a nossa musa ácida do oriente médio, enfim, saiu do limbo e resolveu participar, em Beirute, de um congresso sobre a preservação do meio ambiente a partir da experiência dos macacos gigantes de Zâmbia.
Por um golpe de sorte pura, o perscrutador brasileiro ganhou passagens da embaixada austríaca e para lá seguiu. O encontro foi idílico. A participação de ambos no evento ocorreu muito mais nas alcovas em meio a sussurros e gemidos. Pouco estiveram no anfiteatro da Universidade do Líbano, a mais velha e menos arcaica do mundo.
Durante o café da manhã, no Bristol, ela comentou em viva voz:
– Eu não tenho nenhuma rixa contra quem quer que seja. Sou pacifista de formação. Muito me serviram os ensinamentos budistas no Laos. Mas devo perceber, aqui e agora, que, com o desaparecimento da governanta, as responsabilidades para com a florzinha murcha recairão sobre mim. Pior é que a mocinha pintada como uma arara não me dá ouvidos e ainda parte para os xingamentos muito próprios desta época. Preste muita atenção, meu caro. Eu sou mulher, sim, e você sabe muito bem disso. Porém, nunca vi uma raça pra brigar tanto entre si
e sempre por besteira. Tai, nós temos que aprender com os homens, ó.
O amor estava no ar e tudo impregnava ao redor. Os comentários corrosivos eram feitos esporadicamente, assim do tipo, um de manhã e nenhum à tarde, e sempre sobre a sua futura protegida dos peitos pequenos e moles:
– Consegui, enfim, falar com a florzinha dia desses. Eu a vi em um shopping usando umas roupas de grife e toda provocativa. Fiz uma aproximação meio furtiva e, quando cheguei perto, falei que ela devia deixar de ser burra, porque pobre que ostenta, ostenta pouco e passa fome no dia seguinte, porque o mundo é um moinho que consome, antes, os mais vaidosos que usam dinheiro que não é seu.
As observações não deixavam de ser pertinentes, agora referindo-se muito mais ao andarilho maconheiro, mas na crista da onda:
– Trata-se da famosa mina otária. O cara não trabalha e não estuda. É um desocupado que vive às custas de uma mãe residente no Canadá. É preferível um feio estudioso e trabalhador, a um bombado lindo, burro e preguiçoso. Trata-se de uma garota muito idiota, porque ela tem vergonha da mãe que é governanta, mas não tem vergonha do namorado, que é vagabundo e maconheiro.
Havemos de crer que os caminhos percorridos pela Humanidade nos têm levado a distâncias antes inimagináveis, principalmente agora, numa época em que as redes sociais exercem muito convenientemente os papéis de alcoviteiras e destruidoras das vaidades mais humanas possíveis.
Em verdade, perdemos a vergonha e naufragamos em mar revolto.

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