A questão do Acre no The New York Times (Parte 2) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 2)

Poucos sabem que as disputas diplomáticas, políticas e econômicas envolvendo os governos do Brasil e da Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foram objetos de várias notas no mais importante diário americano, o “The New York Times”. Como os textos são muito antigos e foram publicados originalmente em inglês, resolvemos selecionar e traduzir alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre. Para facilitar o entendimento de alguns fatos narrados, comentários explicativos estão adicionados entre colchetes.

UMA REPÚBLICA DE VIDA CURTA***
Acre, a terra da borracha, não é mais um país independente. Em oito meses dois presidentes foram forçados a fugir e os sonhos de liberdade do Acre acabaram
Especial para o
The New York Times

WASHINGTON, 29 de novembro de 1900 – Para ilustrar como os americanos conhecem pouco sobre fatos que ocorrem no grande continente ao sul dos Estados Unidos, levando em consideração o conhecimento quase completo que temos dos temas relacionados com a Europa e mesmo a Ásia e a África, basta citar a curiosa história da República do Acre.
Esta república foi declarada independente, uma revolta armada foi iniciada e durante mais de oito meses houve uma rebelião organizada contra o governo da Bolívia. A República do Acre foi aniquilada há três meses e durante todo esse tempo não mais do que sussurros desses eventos chegaram aos Estados Unidos.
O anúncio da existência da República do Acre e as notícias sobre a sua extinção chegaram quase simultaneamente. No entanto, ela foi declarada em dezembro de 1899 e só foi esmagada em agosto de 1900.
[Na verdade a República do Acre foi declarada – com apoio financeiro e logístico do governo do Amazonas – em julho de 1899 e derrotada pelos bolivianos em dezembro de 1900. Ela foi inicialmente presidida por Luiz Galvez por dois períodos. O primeiro entre 14 de julho de 1899 e 1 de janeiro de 1900, quando foi deposto por um ‘golpe de estado’ que resultou na substituição pelo seringalista cearense Antônio de Sousa Braga. Depois de um mês o poder foi devolvido a Galvez, que presidiu o Acre entre 30 de janeiro e 15 de março de 1900, quando foi novamente deposto. Dessa vez por tropas federais brasileiras enviadas ao Acre para por fim à rebelião. Essa atitude do governo brasileiro derivou do fato de o mesmo ter assinado o tratado internacional de Ayacucho, de 1867, que considerava o Acre como território boliviano].
[Logo depois o governo boliviano organizou uma missão militar para ocupar o Acre, mas suas tropas foram impedidas de cumprir seu objetivo por seringueiros brasileiros na cidade de Porto Acre. Essa rebelião também contava com o apoio do governador do Amazonas, que enviou uma nova expedição ao Acre (A Expedição dos Poetas) sob o comando do jornalista Orlando Correa Lopes, que proclamou a Segunda República do Acre em novembro de 1900. O carioca Rodrigo de Carvalho assumiu o cargo de presidente, mas a rebelião foi derrotada pelos bolivianos um mês depois, na véspera do natal de 1900].
De vez em quando artigos isolados em alguns jornais mencionavam rumores de que a população do Acre havia declarado uma república. Mas a primeira confirmação positiva desta notícia foi efetivada em uma nota do jornal Denver Post publicada pelo New York Times no sábado passado, informando que a República do Acre tinha enviado um ministro para os Estados Unidos.
Se esse representante ministerial chegou de boa fé, ele está condenado ao desapontamento, pois a República da Bolívia conquistou o país que ele representa e aniquilou o seu governo de curta duração.
Esta declaração foi feita hoje à noite pelo ministro boliviano nos Estados Unidos, Senhor Don Fernando e Guachalla, que retornou para Washington e está temporariamente hospedado no The Gordon [Um hotel que existiu na cidade de Washington entre 1855 e 1959], preparando-se para estabelecer uma missão diplomática daquele país.
A falta de informações sobre a curta história da República do Acre deve-se principalmente à sua localização remota de áreas colonizadas na América do Sul. De fato, ainda existem grandes extensões desse grande continente que nunca foram ocupadas e são pouco conhecidas, e se diz que grande parte nunca foi explorada.
A região onde se localiza o Acre não foi ocupada há muito tempo e até bem recentemente nunca tinha sido explorada. Os exploradores da área descobriram que ela era muito rica em borracha [seringueiras], e isso resultou em sua rápida ocupação. Ela está longe de regiões populadas da Bolívia e do Brasil, mas especialmente da Bolívia.
A região conhecida como Acre fica na fronteira da Bolívia com o Brasil, mas está legalmente em território boliviano. Ela foi colonizada por brasileiros interessados na exploração da borracha. O ministro boliviano, no entanto, declarou positivamente esta noite que não houve disputa de fronteira entre os dois países relacionado com a propriedade do Acre.
De acordo com a descrição da rebelião pelo representante boliviano, os habitantes do Acre ficaram inquietos e agitados com o sistema de tributação boliviano. As reclamações foram feitas exclusivamente pelas classes dominantes [seringalistas], que consideraram as pesadas taxas cobradas pelo fisco boliviano muito onerosas para a crescente atividade da indústria da borracha [na verdade, atividade de extração de borracha].
Alegou-se que os interesses empresariais dos empresários brasileiros estabelecidos no Acre estavam sofrendo por causa das taxas. Aparentemente, todos os esforços para induzir o governo boliviano a mudar o seu sistema de tributação ou a modificá-lo para atender aos interesses [dos seringalistas] do Acre falharam e, finalmente, em dezembro do ano passado, os homens de negócios do Acre se reuniram em convenção e decidiram expulsar a autoridade local boliviana [Artigo continua…].

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