A questão do Acre no The New York Times (Parte 3) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 3)

Poucos sabem que as disputas diplomáticas, políticas e econômicas envolvendo o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foram objetos de várias reportagens no mais importante diário americano, o “The New York Times”. Como os textos são muito antigos e publicados originalmente em inglês, resolvemos selecionar e traduzir alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre. Para facilitar o entendimento de alguns fatos narrados, comentários explicativos estão adicionados entre colchetes.

UMA REPÚBLICA DE VIDA CURTA***

Acre, a terra da borracha, não é mais um país independente. Em oito meses dois presidentes foram forçados a fugir e os sonhos de liberdade do Acre acabaram

Especial para o
The New York Times

WASHINGTON, 29 de novembro de 1900 – Eles proclamaram uma república independente. O líder do movimento é um espanhol chamado Gálvez, que foi eleito o primeiro presidente do Acre [Na verdade Gálvez assumiu o poder no Acre sem que houvesse qualquer tipo de eleição].
Essa rebelião [ocorrida no Acre] diferiu muito das revoluções ordinárias da América do Sul. Tais revoluções geralmente são do interesse de algum político que deseja se tornar presidente, derrubando administrações existentes. Essa rebelião [no Acre] objetivou a separação de uma parte da república boliviana e uma tentativa de criar um novo governo.
Gálvez e seu governo, aparentemente não conseguiram organizar um exército de porte considerável. E eles tiveram uma boa oportunidade para fazer isso porque o Acre localiza-se longe da sede do governo boliviano, e os caminhos que as tropas desse país tem que percorrer são tão difíceis que levariam meses para se enviar um exército com tamanho suficiente para derrotar a rebelião.
Ou eles [Gálvez e seu grupo de apoiadores] não fizeram nada, ou então os trabalhadores mestiços [seringueiros e indígenas empregados pelos seringalistas] não simpatizaram com a rebelião e os empresários que a lideravam não tinham condições de formar um exército. Seja por qual motivo, a verdade é que a capacidade de combate da República do Acre era pequena.
Depois de atuar como presidente do Acre por três ou quatro meses, Gálvez desistiu do ofício e voltou para o seu país [Na verdade Gálvez governou o Acre entre 14/7/1899 e 01/01/1900 quando foi deposto por seringalistas que colocaram em seu lugar o Sr. Antônio de Sousa Braga]. Ele morreu desde então em Madri [Gálvez morreu em Madrid, mas apenas em 1935, muitos anos após os acontecimentos no Acre]. Rodriguez Aries foi seu sucessor, e Aries estava ao lado de Gálvez, o líder que encabeçou a revolução. Ele [Rodriguez Aries] era brasileiro. [É óbvio que nesse ponto a reportagem do The New York Times cometeu um erro grave. ‘Rodriguez Aries’ corresponde aos dois últimos nomes de Gálvez -‘Luis Gálvez Rodríguez de Arias’ – e o brasileiro que o substituiu era Antônio de Sousa Braga. Depois de um mês afastado, Gálvez foi chamado para assumir novamente a função de presidente do Acre em 30/01/1900, ficando no cargo até o dia 15/03/1900, quando foi deposto de forma definitiva por tropas brasileiras].
O Brasil enviou tropas para a fronteira assim que tomou conhecimento da rebelião, mas não com a intenção de ajudar os rebeldes. O objetivo do Brasil era simplesmente proteger seus próprios interesses e o Acre estava em sua fronteira [Considerando que o Brasil era signatário do tratado de Ayacucho, que reconhecia o Acre como parte da Bolívia]. As tropas brasileiras permaneceram ali por algum tempo, e houve vários confrontos entre os soldados brasileiros e a população do Acre, mas sem batalhas de qualquer consequência.
O exército boliviano chegou ao Acre no verão [de 1900] e iniciou os trabalhos de restaurar a ordem. Esta foi uma questão facilmente resolvida tendo em vista não ter ocorrido oposição armada em razão da limitada capacidade de combate dos acreanos. Mas como o território acreano era muito extenso, levou algum tempo até que as tropas bolivianas conseguissem pacificar todo o Acre.
Aries [na verdade Gálvez] fugiu para o Brasil, e os outros líderes da revolta fugiram depois de oferecer uma resistência ineficaz aos bolivianos [Gálvez não fugiu, ele se rendeu às tropas brasileiras na sede do seringal Caquetá, próximo da atual cidade de Rio Branco, e foi exilado em Recife e posteriormente deportado para a Espanha. Alguns anos depois ele voltou ao Brasil, mas foi preso pelo Governo do Amazonas e enviado para o Forte de São Joaquim do Rio Branco, em Roraima, de onde fugiu algum tempo depois. Ele morreu na Espanha em 1935, com 71 anos de idade]. Em 18 de agosto [1900], a rebelião foi finalmente esmagada. Os soldados bolivianos ainda permanecem no Acre a fim de impedir novas tentativas de rebelião.
O senhor Guachalla [Representante da Bolívia nos EUA] diz não conhecer Henry Y. Phillips, que disse ser ministro do Acre nos Estados Unidos. “Ele não figurava entre os líderes da revolução”, disse ele, “e nunca ouvi seu nome antes. Estou inclinado a pensar que ele pode ser um aventureiro”. O secretário assistente, Cridler, diz que o Departamento de Estado não conhece nada da República do Acre, nem do Sr. Phillips e assegura que ele não será reconhecido de nenhuma maneira.
Pode ser que os rebeldes do Acre, apesar de seu governo ter sido derrubado, estejam tentando dar uma demonstração de força esperando com isso ser reconhecidos como beligerantes por algum outro país, e isso explica a missão do Sr. Phillips. O ministro boliviano, no entanto, está convencido de que a rebelião foi completamente esmagada.
Se os rebeldes desejassem reconhecimento para sua causa, parece que o Brasil seria o parceiro mais adequado a ser cooptado, mas o ministro [boliviano] afirma que o Brasil não só não os reconhece, mas, em todos os aspectos, atuou de maneira mais amigável para com a Bolívia.

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