A questão do Acre no The New York Times (Parte 4) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 4)

Poucos sabem que as disputas diplomáticas, políticas e econômicas envolvendo os governos doBrasil e da Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foramobjetos de várias notas no mais importante diário americano, o “The New York Times”. Como ostextos são muito antigos e foram publicados originalmente em inglês, resolvemos selecionar etraduzir alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre. Para facilitar oentendimento de alguns fatos narrados, comentários explicativos estão adicionados entre colchetes.

ACRE BUSCA RECONHECIMENTO

Nova República da América do Sul Envia Ministro

Especial para o The New York Times

Denver, Colorado, 23 de novembro de 1900 – Henry W. Phillips, o primeiro ministro enviado aos Estados Unidos pela nova república sul-americana do Acre registrou-se hoje em hotel aqui vindo de “Arieópolis”, afirmou o Sr. Phillips. “É a cidade capital da República do Acre, a “República da Floresta”, como eu gosto de chamar, como uma forma de variação visto que outros nos chamam de “República da Borracha”.
[Esse personagem – Henry W. Phillips – é completamente desconhecido nos livros e outros documentos relacionados com a história do Acre. Da mesma forma, a palavra “Arieópolis” que ele usou para designar a cidade capital do Acre – possivelmente Porto Acre –, também está ausente dos documentos históricos.
Por estas razões o Sr. Phillips pode ter passado a impressão de que era um impostor.Alguém que estava de alguma forma querendo tirar vantagem de uma situação conflitante em curso no Acre.Entretanto, essa acusação parece não se sustentar se considerarmos a data que ele chegou aos Estados Unidos (meados de novembro de 1900) e a data da declaração da “Segunda República” independente do Acre (início de novembro de 1900).
Diante dessa coincidência, pode-se especular que provavelmente o Sr. Phillips tenha sidomesmo enviado aos Estados Unidos para buscar o reconhecimento diplomático para o Estado Independente do Acre que tinham acabado de ser decretado.
O desconhecimento do Sr. Phillips sobre o verdadeiro nome da capital do Acre possivelmente indica que ele nunca veio ao Acre. É possível mesmo que ele era um cidadão americano (comerciante talvez) que na época se encontrava em Manaus realizando negócios e foi ‘arregimentado’ pelos barões da borracha amazonenses – com o apoio do Governador do Amazonas – para ir aos Estados Unidos buscar o reconhecimento diplomático para a república acreana.
Embora aparentemente contraditório, fazia sentido o apoio do governo amazonense a uma “nova” RepúblicaIndependente do Acre após a derrocada do primeiro estado independente liderado por Gálvez. É que o governo brasileiro, em obediência ao tratado de Ayacucho, reconhecia o Acre como território boliviano e isso representava uma perda considerável de impostos arrecadados pelo Amazonas sobre a borracha produzida no Acre. Por isso não restava ao governo do Amazonas outra opção que não buscar, de alguma forma, a secessão do Acre da Bolívia e, posteriormente, sua incorporação ao Brasil – preferencialmente ao território amazonensecomo forma de recuperar a arrecadação de impostos perdida caso o Acre continuasse sob domínio boliviano.
No que se refere às declarações do Sr. Phillips para a reportagem do The New York Times, pode-se destacar que ele, ao afirmar que o Acre era a “República da Floresta” possivelmente inspirou, cerca de 100 depois, o atual Senador Jorge Viana a adotar como logomarca durante o seu mandato de governador do Acre a frase “Governo da Floresta”].

“Eu ouso dizer que esta nacionalidade não é tão amplamente conhecida sendo tão nova, e minha missão é assegurar o seu reconhecimento por parte dos Estados Unidos. Eu acredito que esta é a primeira vez que Arieópolis tenha sido escrita em qualquer registro de hotel nos Estados Unidos, considerando que eu não parei em São Francisco depois de minha chegada da América do Sul porque estou apressado para chegar em Washington antes da abertura dos trabalhos do Congresso”.
“Eu sou um representante credenciado de uma República em funcionamento que está, acreditamos, estabelecida para sempre e maneira firme como as outras Repúblicas na América do Sul. Talvez até mais firmemente do que algumas outras, considerando que a mesma é, como de fato é, uma República Angla Saxônica, e por isso, uma “República Yankee”.

[Como naquele tempo o tempo as notícias “corriam” muito lentamente, é possível que ao chegar em Washington para apresentar suas credenciais ao governo americano, o Sr. Phillips e as autoridades diplomáticas americanas a quem possivelmente ele se reportou não tinham noção de que o país que ele representava não iria durar mais que um mês.
Quando a reportagem do The New York Times foi publicada – 24 de novembro de 1900 -, a segunda república independente do Acre tinha sido declarada há menos de um mês (início de novembro) por um grupo de amazonenses baseados em Manaus.Esse grupoarregimentou naquela cidade e enviou ao Acre pessoas sem experiência militar com o objetivo de expulsar os bolivianos e instalar a nova república. A aventura, conhecida como ‘Expedição dos Poetas’,eralideradapelo jornalista Orlando Correa Lopes e contava com o apoio financeiro do governador amazonense Silvério Neri. Os aventureiros foram facilmente derrotados pelas tropas bolivianas no final de dezembro de 1900.
Para finalizar, é importante observar que o Sr. Phillips indicou ao The New York Times que a República do Acre era uma República Yankee. Possivelmente ele disse isso para tentar arregimentar com um falso argumento, o apoio de congressistas americanos ao reconhecimento diplomático do novo país. Entretanto, a semente que ele plantou com essa falsa afirmação, possivelmente serviu de inspiração para a segunda etapa dos conflitos que ocorreram no Acre: a criação do Bolivian Syndicate em 1901, objeto dos próximos artigos desta série].

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