A questão do Acre no The New York Times (Parte 5) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 5)

As disputas diplomáticas, políticas e econômicas envolvendo os governos do Brasil e da Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foram objetos de várias notícias no mais importante diário americano, o “The New York Times”. Como os textos são muito antigos e foram publicados originalmente em inglês, resolvemos selecionar e traduzir alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre. Para facilitar o entendimento de alguns fatos narrados, comentários explicativos estão adicionados entre colchetes.

CAPITAL ALEMÃO PARA O BOLIVIAN SYNDICATE

Apoio brasileiro é agora buscado pelos investidores americanos na companhia florestal de exploração de borracha

BERLIM, 4 de Junho de 1902 – F. W. Whitridge, empresário americano baseado em Nova Iorque, partiu hoje daqui para a Inglaterra depois de ter feitos acertos com o Deutscher Bank e outras casas financeiras de Berlin visando a aquisição por estas instituições financeiras de ações no Bolivian Syndicate de Nova Iorque.
[Frederick Willingford Withridge era o empresário à frente de um grupo de investidores anglo-americanos agregados em torno da empresa Bolivian Syndicate e tinha assinado em 11 de junho de 1901 em Londres o protocolo pelo qual o governo boliviano – por intermédio de Felix Avelino Aramayo, seu representante diplomático na Inglaterra – tinha passado a administração do Acre à referida empresa pelo prazo de 30 anos. Vale ressaltar que um primo de Theodore Roosevelt integrava o grupo de investidores americanos do Bolivian Syndicate. Por ocasião da assinatura da concessão do Acre ao Bolivian Syndicate Roosevelt era vice-presidente dos Estados Unidos, mas cerca de três meses depois, em 14 de setembro de 1901, ele assumiu a presidência depois do assassinato de William McKinley].
A razão para a obtenção de capital alemão para o Bolivian Syndicate não parece ter sido porque dinheiro de fora era necessário, mas porque August Belmont & Co., Vermilye & Co., Brown Brothers & Co., Frederick P. Olcott, Presidente da Central Trust Companhia e outros que integram o sindicato desejavam ampliar a base internacional da empresa e assim obter apoio diplomático adicional nas negociações agora pendentes com o Brasil, visto que será através do território brasileiro que o sindicato deverá encontrar uma saída que conecte o empreendimento com o mundo. É provável que o Bolivian Syndicate também obtenha algum capital belga.
[Fica claro que os investidores americanos e europeus não se furtariam de apelar ao apoio político e mesmo militar dos governos aos quais estavam subordinados “para proteger” seu investimento. O envolvimento de investidores de vários países europeus também visava tornar complicada uma eventual reação diplomática e militar do governo brasileiro à consolidação do Bolivian Syndicate].
O Bolivian Syndicate foi autorizado a administrar fiscalmente, policiar e governar 80 mil milhas quadradas [cerca de 207 mil km²] de florestas ricas em borracha na Bolívia, e essa produção terá que ser transportada pelos rios que cortam o território brasileiro. O Bolivian Syndicate também pagará uma “obrigação de exportação” para alguns estados brasileiros, principalmente o Estado do Amazonas.
A apreensão do governo brasileiro decorrente do fato de que os americanos estão obtendo direitos fiscais e de controle policial sobre um território tão vasto na Bolívia, parte do qual é reivindicado pelo Brasil, criou uma dificuldade que faz com que a participação e a propriedade internacional do Bolivian Syndicate sejam desejáveis. Os interesses americanos, no entanto, predominarão.
[A descoberta da concessão do Acre ao Bolivian Syndicate causou grande preocupação e consternação no governo brasileiro e nos colonizadores majoritariamente brasileiros do território acreano porque o Bolivian Syndicate era claramente uma companhia colonial criada nos moldes de outras similares existentes na África e Ásia. Era basicamente uma “chartered company” formada por um grupo de sócios e investidores com o propósito de realizar o comércio de um dado produto extraído de um território sobre o qual a empresa tinha amplos direitos de exploração e colonização, com plenitude do governo civil e direitos soberanos, incluindo os de manter o poder de polícia e criar forças armadas para a defesa dos rios ou a conservação da ordem interna do território administrado].
Enquanto o Sr. Whitridge lidou com os interesses financeiros do Bolivian Syndicate, Sir William Martin Conway, o explorador, que negociou a concessão do sindicato junto ao governo da Bolívia, esteve em Berlim e explicou ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha os objetivos da empresa. Espera-se que agora o Ministro do Exterior defenda junto ao governo alemão os interesses do Bolivian Syndicate no qual capital americano e alemão estão envolvidos.
[Sir William Martin Conway foi um renomado cartógrafo e montanhista inglês que havia escalado algumas das mais altas montanhas do planeta, tendo sido o primeiro a escalar, em 1898, o monte Illimani, nas cercanias de La Paz. Como ela era uma espécie de herói local, havia sido escolhido pelos empresários que integravam o Bolivian Syndicate para “negociar” junto ao governo boliviano os termos do acordo de concessão do Acre].
O Brasil obteve da Argentina o direito de navegar em certos rios que atravessam os limites dos dois países e tem afirmado há muito tempo que a Venezuela deveria conceder direitos similares em relação ao rio Orinoco. Por conseguinte, pensa-se que o Brasil cederá ao pedido de abertura de rios bolivianos e brasileiros à navegação internacional. O Sr. Whitridge vai sair de Liverpool no dia 7 de junho para Nova York no navio vapor “Campania” da empresa Cunard Line.
[Como se vê, no início de junho de 1902, cerca de um ano após ganharem a concessão do Acre, os responsáveis pelo Bolivian Syndicate ainda estavam correndo para viabilizar a “sua colonização” do Acre… Demoraram muito. Dois meses depois dessa reportagem do The New York Times, em 6 de agosto, Plácido de Castro e seus comandados iniciaram a revolta armada que expulsou de uma vez por todas os bolivianos e garantiu a incorporação do Acre ao Brasil].

Dados do artigo original: “German capital for Bolivian Syndicate”, publicado pelo jornal The New York Times em 05 de junho de 1902.

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