A questão do Acre no The New York Times (Parte 9) – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times (Parte 9)

As disputas entre o Brasil, a Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foram objetos de várias notícias no diário americano “The New York Times”. Como os textos são muito antigos e foram publicados originalmente em inglês, selecionamos e traduzimos alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre. Para facilitar o entendimento de alguns fatos narrados, comentários explicativos estão adicionados entre colchetes.

SUBVENÇÃO PELO
ARRENDAMENTO DO ACRE

* Presidente Pando, da Bolívia, enviou ao Congresso mensagem sobre a matéria.

La Paz, Bolívia, 12 de agosto de 1902 – O Congresso esteve aberto aqui no domingo. A mensagem do presidente Pando dizia que o Brasil se opunha à proposta de arrendamento do território acreano ao “Sindicato do Acre” argumentando que isso seria perigoso e resultaria em perdas. A mensagem presidencial disse, no entanto, que essas afirmações não foram comprovadas. A Bolívia procedeu corretamente. O “Sindicato” depositou os U$ 25 mil e terá um ano para formar a companhia que irá explorar o Acre.

[Quando esta notícia foi publicada no The New York Times, já fazia seis dias que Plácido de Castro e 33 de seus comandados tinham dado início à Revolução Acreana, atacando de surpresa a guarnição boliviana na cidade de Xapuri. É interessante notar que, aparentemente, o governo central boliviano em La Paz provavelmente ainda não estava ciente das ações de Plácido de Castro. Obviamente que as notícias naquela época andavam a passo de jabuti. O mesmo se pode dizer da lenta reação dos bolivianos, que somente em meados de setembro, ou seja, um mês e meio depois da perda de Xapuri, conseguiram retomar a cidade com um batalhão composto por 180 homens liderados pelo Coronel Rosendo Rojas].
[A opção do governo boliviano de arrendar o Acre a um grupo estrangeiro era a mais prática e econômica forma que o país vizinho idealizou para garantir a posse do território acreano (uti possidetis de facto). Conforme exposto em artigos anteriores dessa série, o uso da força militar por parte dos bolivianos para ocupar o Acre havia fracasso desde a tentativa inicial do país vizinho de instalar um posto fiscal em Puerto Alonso (hoje Porto Acre) em 1898 e impor um imposto de 30% sobre toda a borracha exportada do Acre].
[Os brasileiros residentes no Acre se rebelaram e logo depois tomaram o controle do alto Acre. No ano seguinte (1899), com o auxílio do governo do Amazonas, resolveram criar a República Independente do Acre na esperança de que o governo brasileiro intervisse em seu favor e, de alguma forma incorporasse o Acre ao Brasil. Mas a resposta do Brasil foi de apoio incondicional à Bolívia, que por força do Tratado de Ayacucho era a proprietária de fato e de direito do Acre].
[A continuidade dos atritos entre os colonizadores brasileiros – seringueiros e seringalistas – e militares e funcionários do governo boliviano que haviam se instalado ao longo do rio acre, levou a novas rebeliões que os bolivianos conseguiram controlar apenas no final do ano de 1900, com um custo financeiro muito elevado, pois foi preciso deslocar e manter numerosa tropa na região].
[Incapaz de controlar o Acre pela força, o governo boliviano optou em arrendar o território acreano para investidores americanos e europeus. Esse arrendamento permitia aos arrendatários atuar dentro do território acreano com força militar para impor sua autoridade e sufocar quaisquer revoltas que pudessem ser organizadas pelos brasileiros. Mas o que causou grande descontentamento entre os brasileiro era o direito que os arrendatários teriam de arrecadar impostos da borracha exportada do Acre].

O “Sindicato”, que está em busca de explorar o território do Acre utilizando a concessão que ganhou da Bolívia, é composto por capitalistas americanos e britânicos. O Brasil foi contra a concessão e a Bolívia então apelou ao governo dos Estados Unidos. Um despacho diplomático feito em 29 de julho passado informou que os esforços diplomáticos dos Estados Unidos para promover um acordo não teve sucesso, e classificou a situação como grave.

[A criação do Sindicato do Acre, que posteriormente viria a ser conhecido como Bolivian Syndicate, foi fomentada pelo governo boliviano, que ofereceu aos interessados a possibilidade de arrendar e administrar o Acre por um período inicial de 30 anos. A companhia foi idealizada em Londres em meados de 1901 e o capital autorizado para o seu funcionamento era de cinco milhões de libras, a ser vendido para investidores americanos e europeus].
[O investidor americano F. W. Whitridge, com a ajuda de um famoso explorador inglês, Sir. William Martin Conway – que havia sido o primeiro homem a escalar o Monte Illimani nas cercanias de La Paz em 1898, e que tinha bons contatos no governo boliviano – ganhou a concessão para explorar o Acre, tendo depositado, como dito na reportagem, U$ 25 mil em garantia por tal direito].
[Com o documento de arrendamento em mãos, o Sr. Whitridge peregrinou pelos Estados Unidos e a Europa em busca do capital necessário para fazer o Bolivian Syndicate virar realidade. Passado um ano, sem o dinheiro necessário para iniciar a empreitada, enfrentando feroz oposição dos colonizadores brasileiros, do governo do estado do Amazonas e, posteriormente, do governo do Brasil, a derrocada do empreendimento era apenas uma questão de tempo].

Dados do artigo original: “Acre Syndicate Grant”, publicado pelo jornal The New York Times em 13 de agosto de 1902.

*Evandro Ferreira é pesquisador do INPAe do Parque Zoobotânico da UFAC

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