A questão do Acre no The New York Times – Jornal A Gazeta

A questão do Acre no The New York Times

Poucos sabem que as disputas diplomáticas, políticas e econômicas envolvendo os governos do Brasil e da Bolívia e investidores Americanos e Europeus relativas ao controle do Acre foram objetos de várias notas no mais importante diário americano, o “The New York Times”. Como os textos são muito antigos e foram publicados originalmente em inglês, resolvemos selecionar e traduzir alguns que reputamos importantes para os interessados na história do Acre.

ACRE E SUA BORRACHA*
Causa do Estabelecimento da Nova República
Os interesses conflitantes do Brasil e da Bolívia – milhões envolvidos – população inferior a 10.000

Henry W. Phillips, que diz que é o primeiro ministro nos Estados Unidos da nova República Sul-Americana do Acre, e está a caminho de Washington para buscar o reconhecimento oficial da nova república. O Sr. Phillips desembarcou em San Francisco há vários dias e esteve em Denver ontem. Em uma entrevista, ele disse que a República do Acre foi proclamada há cerca de doze meses, e a capital estabelecida em Arieopolis. [A afirmação de que a capital do Acre foi estabelecida em Arieopolis indica que o Sr. Phillips era muito mal informado. Nunca se ouviu falar de tal cidade no Acre. Infelizmente parece não ser mais possível resgatar na história a real ligação desse suposto representante do Acre nos Estados Unidos e o governo interino de Galvez].
Enrique Wolf, o cônsul boliviano em Nova York, quando questionado sobre a existência da nova república, disse: “É uma questão sobre a qual não posso falar. É uma questão diplomática, e eu sou apenas um agente comercial”.
O Sr. E. E. Wadbrook, ligada à empresa Crude Rubber Company, com escritórios na Broad Street, forneceu informações interessantes sobre o Acre e as condições que levaram à sua declaração de independência. Segundo ele, o Acre é uma região rica em borracha e a companhia que ele representa tem grandes interesses econômicos por lá. O Sr. Wadbrook visitou o Acre há aproximadamente um ano [Possivelmente em 1899]. Ele informou que a entrevista com o Sr. Phillips, publicada ontem no The New York Times, foi enviada aos agentes da Crude Rubber Company no Pará, no Brasil, com instruções para encaminhar informações completas sobre os desenvolvimentos recentes e as condições existentes no Acre.
“Nós sabemos há mais de um ano”, disse o Sr. Wadbrook, “que havia uma situação política bastante incerta no Acre, mas como ela não interferiu nos embarques de borracha, que era nosso único interesse, não ficamos preocupados com os assuntos governamentais”. “Para entender o que levou os habitantes do Acre a proclamar uma República é preciso conhecer como ele foi ocupado, situação que ocorreu nos últimos anos e a produção de borracha é sua única indústria de importância”.
Durante a última década, as árvores de borracha [seringueiras] existentes ao longo do [rio] Amazonas entre o Pará e Manaus, distantes 1.000 milhas entre si, foram muito bem exploradas, mas apenas aquelas próximas ao rio foram. Ainda há muita borracha para ser explorada ao longo do baixo Amazonas se os nativos [seringueiros] decidissem explorar áreas mais distantes da margem do rio. Mas isso possivelmente não acontecerá, pois eles preferem explorar sempre ao longo do rio.
“Muitos trabalhadores resolveram explorar borracha ao longo do rio Purus, um afluente do Amazonas, e seguiram o Purus até chegar ao rio Acre, ou Aquiry, como é chamado por alguns. O rio Acre desemboca no rio Purus na província brasileira do Amazonas, mas há apenas um pequeno trecho do rio no território brasileiro. O curso do rio Acre é quase todo na região norte da Bolívia e a região que ele banha é conhecida como Acre”.
“O país [Acre] é rico em borracha. Nos últimos anos foi amplamente desenvolvido com capital brasileiro e quase todos os homens de posição ou influência são brasileiros. Os trabalhadores são de duas classes. Os ‘caboclos’, uma mistura de negros e indígenas nativos, e os ‘cearenses’. Os cearenses são nativos da Província do Ceará no Brasil, e frequentemente se veem obrigados a abandonar sua própria província por causa da seca, e na atualidade a indústria da borracha é a mais lucrativa atividade econômica na qual podem se envolver”.

“Qual é a população total do país Acre?” [Pergunta o reporter do The New York Times…]
“Mais de um ano atrás, quando eu estava lá, foi estimada em 6.000 a 10.000. O país nunca foi explorado até que os caçadores de borracha chegaram lá. Está a cerca de 2.000 milhas da foz da Amazônia [na verdade cerca de 1.600 milhas ou cerca de 2.500 km], que é a sua saída para o mar.
A fronteira entre o Brasil e a Bolívia nunca foi bem definida e, consequentemente, quando os brasileiros se estabeleceram e desenvolveram o país do Acre, o Brasil começou a tratar o país como parte de seu território. Durante algum tempo, um homem – não consigo lembrar o nome – se estabeleceu como ditador no Acre, mas quando, em uma ocasião, foi a Manaus, foi preso. Nunca aprendi o que finalmente foi feito com ele. Cerca de um ano atrás, havia relatos de lutas no país do Acre e da intenção das pessoas de formar uma república. Naquela época também havia relatos de que o Brasil iria enviar vários barcos de guerra ao Acre. Se ele fez ou não, não sei.”

“Que tipo de lugar é Arieopolis, a capital da nova república?”
O Sr. Wadbrook sorriu. “Nunca ouvi falar do lugar”, disse ele. O único lugar que conheci, que poderia ser chamado de cidade, era Porto Bello”. [Esse nome de povoado também não me parece correto. Apesar de pesquisas, não foi possível identificar o povoado acreano que no final do século XIX se chamava Porto Belo].
“O principal interesse do Brasil no país”, continuou o Sr. Wadbrook, “é o imposto arrecadado com a borracha produzida no Acre e enviada para o Pará. No final do ano passado [1899], os embarques de borracha foram entre 3.000 e 4.000 toneladas. Esta borracha vale de 98 centavos a US $ 1 por libra [1 libra=0,453 kg], sendo da melhor qualidade. Isso equivale a cerca de US$ 2.000 por tonelada. Quatro mil toneladas a US $ 2.000 equivalem a US$ 8.000.000 como o valor do produto anual do país Acre. Sobre esse valor, o Brasil vem coletando impostos de exportação no Pará que varia de 21 a 23%. A receita com a exportação de borracha do Acre rendeu ao Brasil cerca de US$ 1.150.000 por ano.
“Claro. Não sei o que aconteceu, mas suponho que a Bolívia, despertando para o valor do país do Acre, o reivindicou como seu. O Brasil pode ter pensado que ela não tinha direito a tal reivindicação, e por isso poder ter apoiado a criação da nova República. Como quase todos os habitantes do país são brasileiros, seria melhor para o Brasil, caso não pudesse incorporar o Acre, ver o mesmo se converter em uma república”.

Para saber mais: “Acre and its rubber. Cause of the establishment of the new Republic”. Notícia publicada no jornal The New York times em 25 de novembro de 1900.

*Evandro Ferreira é engenheiro agrônomo e pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC;
**Alceu Ranzi é paleontologista e professor aposentado da Universidade Federal do Acre.

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