A Terceira Guerra Mundial

Postado em 20/11/2015 15:39:25

Bagdá surgiu de uma aldeia de mais de 4.000 anos. Mas, foi no século VIII, há 1.200 anos, que o califa Al-Mansur mandou construir uma nova capital que expressasse a importância de seu grande império e a força do Islamismo, pouco mais de um século após sua criação pelo profeta Maomé. Seu nome deveria ser Madinat Al-Salém, a Cidade da Paz, e o plano original era que sua pujança impulsionasse a expansão muçulmana na Índia e na Ásia.

De fato, pouco tempo depois de sua fundação, no inicio do século IX d.C., Bagdá já era a maior cidade do mundo, com cerca de 2 milhões de habitantes. E, para enriquecer o Islã com o conhecimento de outros povos, os Califas transformaram Bagdá num extraordinário centro de produção e acumulação cultural, uma verdadeira luz do Oriente, que serviu de palco para muitas das histó-rias contadas por Sherazade durante “As Mil e Uma Noites”.

Pois, desde que o Iraque foi invadido pelos Estados Unidos, em 1991, não se passa uma semana sem que atentados com carros/homens-bomba não façam dezenas de mortos e centenas de feridos em Bagdá. E, segundo a ONU, se considerarmos não só Bagdá, mas o Iraque, a atual situação de guerra contra o Estado Islâmico causou 1.332 mortes, só em julho passado, dos quais 844 eram civis.

O que já significou uma redução em relação ao mês de junho quando morreram 1.466 iraquianos. Mais de dez vezes o numero de mortos que na sexta-feira 13, em Paris.

Entretanto, não me lembro de ter visto nenhum movimento “Je suis Iraque” (como aconteceu depois do ataque ao Charlie Hebdo) ou “Pray for Bagdá” como vem acontecendo nos últimos dias em relação à Paris.

Certamente a diferença entre um acontecimento que se torna alvo de profunda comoção social e outro que, apesar de similar, só provoca completa indiferença, não se deve ao fato de que Paris também é uma cidade milenar e, como Bagdá, já foi considerada a “Cidade Luz” e capital cultural do Ocidente. Ou seja, qualquer semelhança, nesse caso, não é mesmo mera coincidência. Trata-se, isso sim, de que aquela “Igualdade” proposta pela Revolução Francesa (junto com a liberdade e a fraternidade) só vale para os “mais iguais” a nós. Os “menos iguais” que se explodam então. Literalmente até…

Porém, o maior problema nem é esse. O que parece escapar do pensamento estratégico das nações mais poderosas do planeta é que a tão propalada globalização não pode ser vista apenas pela ótica das vantagens de um mercado planetariamente integrado em que o domínio econômico dos países pobres pelos ricos ficou ainda mais fácil. A essa altura dos acontecimentos, já devia estar claro pra todo mundo que de nada adianta restringir a miséria e a guerra a certas regiões da África, do Oriente Médio, da Ásia ou da América. Enquanto houver guerras em qualquer parte do mundo, o mundo inteiro sofrerá as consequências e os horrores da guerra.

Afinal, os refugiados da guerra da Síria estão invadindo a Europa, como os refugiados ambientais do Haiti invadem o Brasil, como os refugiados da opressão econômica do México invadem os EUA, como os refugiados da fome da África invadem todo e qualquer país pra onde consigam fugir. Efeitos de um mundo globalizado que não cabe mais em si.

Está na hora dos países ricos da América, Europa e Ásia compreenderem que não vai dar mais pra continuar vivendo em seus condomínios fechados, usufruindo de toda riqueza que conseguiram saquear durante os últimos 500 anos de globalização econômica. Cujos resultados não foram globalizados. Vai ser necessário, daqui pra frente, globalizar também a riqueza, o bem-estar, a responsabilidade ambiental. Ou seja, diante da “crise civilizatória que está ai instalada, como bem ressalta a Marina, precisamos de uma verdadeira condição de igualdade entre as nações, como precisamos de verdadeira liberdade de autodeterminação dos povos, como precisamos mais que nunca de verdadeira e profunda fraternidade entre os homens e não apenas entre os mais iguais.

Afinal, diante do caos que está instalado onde quer que se olhe, a conclusão é óbvia. Diferente das duas primeiras grandes guerras mundiais em que dois lados do mundo estavam em confronto entre si, agora a guerra é dispersa em muitos fronts, entre muitos inimigos que sequer se conhecem. É uma guerra de dentro pra fora. Não há mais lugar seguro e imune à guerra, à fome, à desigualdade, à injustiça social. E, não por acaso, foi exatamente isso que declarou hoje, uma das poucas vozes lúcidas da atualidade, diante de tanta insanidade coletiva, o Papa Francisco:

“Uma guerra pode ser justificada – entre aspas – com muitas, muitas razões. Mas quando todo o mundo, como é hoje, está em guerra, todo o mundo: é uma guerra mundial – em pedaços: aqui, ali, lá, em todos os lugares… – não há nenhuma justificativa. E Deus chora. Jesus chora”.

E, lembrando a proximidade do Natal, talvez a maior festa da cristandade em todo o mundo, mostrou a gravidade do que estamos vivendo: “Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz”, concluiu.

* Marcos Vinicius Neves é historiador

editorial

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