À toa, ruminando pela vida que foge – Jornal A Gazeta

À toa, ruminando pela vida que foge

É mais um dia como tantos outros. A vida regurgita de mesa em mesa, de bar em bar. Logo mais, será noite aberta, até porque aqui ela não fecha. O choro dramático de uma cuíca quase diz a que horas estamos. Os primeiros acordes agudos de um bandolim, de forma clássica, dão o tom da afinação e, mais uma vez, marcam os compassos de um samba de breque muito em voga neste tempo da vida e por estas paragens afrodisíacas marcadas pela boa música, gente bonita e folguedos gerais, inclusive os mais exaltados e os mais voluptuosos. Melhor de tudo é que a rua não dorme, nem a rua vizinha cochila, mas o beco suspira enfeitiçado de tanto amor.

Ula-lá!

Recostado a uma mesa na calçada larga do lavradio, o poeta toma anotações mentais, absorto em pensamentos vazios, vagos, vadios, nos quais se inserem imagens de cabrochas que vão e vêm pelo passeio público. Algumas louras ajudam a enfeitar o burburinho meio ritmado. Ele espera um amigo que trará um violão cuja memória está retida em Cartola por anos a fio, desde menino. No possante, o bom parceiro trará ainda divas apanhadas em safra deslumbrante, em termos de feições, e preparadas, já, para os sacolejos da noite que é apenas e ainda uma criança. É sexta, afinal.

Enquanto espera, a cabeça do versejador agora voa para bem distante, ao ver passar um moço em andrajos, conhecido seu há muito. Alguns vícios perversos o colocaram em estado de mendicância e na delinquência, lamentavelmente, uma vez que até jogara um futebol vistoso, segundo palavras bem colocadas por um analista qualquer.

Agora, os pensamentos já não são vagos, mas muito objetivos. Pensa no fato de a esposa casta haver abandonado o moço com traços de quem um dia foi bem cuidado. O infeliz está meio zureta e de falar deixou até. A antiga companheira não tolerara os novos hábitos do parceiro por quem um dia se encantou.

Não. O poeta jamais haveria de enveredar por becos escusos desta vida. Nunca foi de trabalho, é fato. Sempre gostou de boa conversa e amigos mais abastados sempre prontos a lhe fazer favores em nome das amizades ligadas pela música de boa qualidade. Faz versos. Compõe letras, arranjos e melodias. Nos últimos dez anos, por cinco ou seis vezes, ganhou o Carnaval do grupo de elite.

Fizera-se bem-sucedido no trato com as rimas simétricas e assimétricas. Especializara-se também em sambas canção e sambalanço, dentre outros. Em síntese, findou por arranjar vida folgazã à mercê das artes. Venceu a partir dos acordes de um cavaquinho tocado com muito gosto, cadência e competência. Ademais, a vida houvera por bem dar a ele, de mão beijada, um bocado de juízo e uma coleção de amigos de algum valor. Bom agora é que o degas frequenta até academia de ginástica. E então!

Melhor é pensar que ninguém interpreta melhor que a Marisa:

Tarde, já de manhã cedinho
Quando a névoa toma conta da cidade
Quem pega no violão
Sou eu, sou eu
Pra cantar a novidade…
Quantas lágrimas de orvalho na roseira
Todo mundo tem um canto de tristeza […]

Bendizei, pois, a sorte megera antiga que, no ocaso das premonições do mal, de repente, não mais que apressadamente e quase instantaneamente, se fez boazinha e tudo se estabeleceu numa ordem impressionante. Também, pudera. De observador da natureza, o poeta passara a exercer o ofício dos que têm por foco o auxílio aos demais. Tornara-se aquele empregado que representa o Estado quando o objetivo é ajudar a quem quer que seja. Pela manhã, agora, segue ele rumo ao palácio das artes, onde ministra aulas de uma disciplina que alguém ousou denominar cavaquinho clássico. Tudo melhorou ainda mais e a olhos vistos. Ora, pois-pois.

Eis, enfim, que chega o amigo montado em um carro conversível japonês de última geração. Com ele, estão duas mulatas e uma loura cujas presenças servirão, também, para enfeitar o ambiente. Em seguida, elas farão o papel de back vocal. Depois. Bem, depois é depois. O apartamento amplo está localizado na orla e tudo pode acontecer.

Não são necessárias apresentações. Todos se conhecem há alguns anos e sempre exerceram ocupações similares. Fazem parte do grupo que se auto denomina trabalhadores do samba. Há um palco de tamanho médio. Três percussionistas fazem a sua parte. A iluminação da casa é à base de neon. Nuvens de gelo seco invadem o ambiente. Cervejas alemães e caipirinhas dão cadência aos rodopios de uma diva de saias brancas que se apresenta ao lado de um tal mestre sala dos mares. Média madrugada, então. O ambiente regurgita de alegria. O samba de raiz fala mais alto. A Lapa assim o determina. Dois tocam, duas cantam e a loura balança as ancas e um afoxé muito bem ritmado. Ela é encantadora. As duas marrons clarinhas são exuberantes.
Alta madrugada. Parou o samba. Desce uma cerveja, duas, dez. Mais camarões fritos e a conversa rola solta. O soldo pago é dividido entre as mulheres e os meninos da percussão. Elas vivem disso, ao passo que o poeta ganha royalties e o bacana já exerceu cargo no corpo diplomático em um país latino-americano qualquer.

A trupe busca um novo bar ou restaurante. Os percussionistas se foram. Fala-se, agora, da vida leve que os dois troteadores levam. Dos seus amores nunca vicejados. Elas falam dos seus homens deixados para trás na poeira do tempo. Também comentam sobre amantes, farsantes e companhias frugais.

A diva loura respira fundo. Um comentário explode no ar:
– O mundo gostaria de saber sobre os motivos que levam este poeta escorregadio a ainda não se haver casado, apesar da quinquagésima volta ao redor do sol e não obstante o patrimônio já conseguido.

Alguns poucos ainda estavam por ali à espera da melhor hora, aquela em que a última loura suada passa a ser a penúltima e assim por diante. Fato é que não saíram do restaurante antigo e de bom gosto, e o resto da madrugada, agora, corria solto. Amanheceu. Entretiveram-se, por horas a fio, em diálogo aberto com o construtor de rimas. Dele ouviram muitas sandices como as que aqui serão apostas.

Num daqueles dias quaisquer dos anos anteriores, ele apregoara em versos volúveis que não casaria consigo mesmo, de forma alguma, jamais. Agora, já em devaneio em vista dos teores etílicos nivelados por cima, as conclusões a que ele chega são ainda mais drásticas e estão à beira do absurdo.

– Eu não tenho a mais magra certeza se caberia no coração de alguém. Sinto estar numa fase em que exorbito até da própria alma. Em certas manhãs de sexta, dou uma volta na praia, bem longe da musa, encho-me de chope e ideias e, depois, volto para o meu corpo em estado primitivo e magro. Mesmo assim, eu sei que vou te amar, minha loura linda, numa alusão ao Vinícius.

Ela sorri.

Pois bem. Está uma pessoa por muito tempo exercendo o vício do ócio e todos dirão que, mais cedo ou mais tarde, ela não terá pena nem de si própria. Nas palavras do senhor Zweig, nada torna as pessoas mais desumanizadas e insubordinadas do que uma longa e constante ociosidade financiada por dinheiro gordo.
Em verdade, hoje, poucos veem motivos para empreender o negócio do casamento.

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO, Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero.

 

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