As doces oferendas de Tia Custódia

Postado em 10/11/2016 23:08:53 Onides Bonaccorsi Queiroz

Agora me dei conta que seu nome significa “cuidado”. Tia Custódia era mesmo uma luminosa proteção! Receptiva, lépida, festiva, brincalhona.

Morava no sul do Maranhão, como boa parte da minha família paterna, e era extremamente ligada à irmã, vovó Onides; por sua vez, terna, introspectiva e melancólica. Amavam-se, eram complementares e ainda se chamavam pelos apelidos de infância: Tóda levava alegria a Nide, Nide oferecia profundidade a Tóda.
Às vezes, capitaneadas pela Cristina e em companhia de outras primas que moravam lá na cidade, Riachão, íamos em comitiva à casa da tia Custódia. Que sempre pronta nos recebia com abraços, sorrisos e gargalhadas, como se fôssemos a visita mais esperada do mundo!

Acomodava todas nas cadeiras “de macarrão”, típicas do mobiliário do Norte e Nordeste brasileiros, e, cheia como a generosidade de seu coração, trazia uma bacia de laranjas colhidas em seu quintal de areia varrido.

Sentava num “tamborete” – divertido o jeito como ali denominam um banquinho com assento de couro –, com “o vaso” de alumínio no colo, pegava um facão ultra-afiado e iniciava sua oferenda para nós.

As laranjas eram muito doces, suculentas e cheias de cor. De modo que a gente as chupava afoitas, molhando de sumo o chão da varanda da sua casa limpíssima e essencial.

Com filhos e netos vivendo em cidades distantes, ali morava com o marido, tio Luiz Moura, personagem que aos meus olhos parecia muito grande, também estrondoso, e carregava umas sobrancelhas grossas, assustadoras, mas era gentil e logo me desarmava o medo.

Tia Custódia nem se importava que a gente lambrecava tudo, só ria e dizia “come mais!”, “não comeu nada, menina!” e, acompanhando a nossa voracidade sem se alterar, descascava as frutas com rapidez e destreza soberanas, encantadoras.

Tão aprazível quanto o sabor das laranjas era a sua evidente satisfação em agradar a criançada. Como era bom sentir que ela gostava da gente! Em seu jeito natural de ser, com gestos tão singelos, dava grandes lições de pedagogia, saúde e humanidade.

Saíamos de lá plenas de carinho, vitamina C e fiapos nos dentes, planejando a hora de voltar. E a tia nos levava até a porta e ficava acenando.
Ah, o interior me faz rir e chorar… Nessa dimensão ainda existe um povo simples e amável, que sabe ser feliz e promover a felicidade, conectado com o que é indispensável na vida.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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