Asas partidas (2) – Jornal A Gazeta

Asas partidas (2)

Há algum tempo publiquei aqui  na coluna um texto sobre as aventuras e desventuras do Interventor Martiniano Prado e a vinda do primeiro avião (o antológico Taquari) ao Acre. Como no próximo domingo o bairro Aeroporto Velho está em festa, por conta de seus 51 anos de existência, aqui vai a segunda parte daquele texto que dá conta do que aconteceu depois.

1937 – Durante muito tempo o Acre continuaria recebendo aqueles estranhos aviões aquáticos. Mas, logo o novo governador Epaminondas Martins, substituto do folclórico Martiniano Prado, inaugurou, com direito a banquete e orquestra, o “nosso Primeiro Campo de Aviação”, agora denominado “Santos Dumont”, onde passaram a pousar os aviões da Panair, da Cruzeiro e do Correio Aéreo Nacional (CAN). Era o início da história da aviação no Acre. Em pouco tempo João Donato Filho se tornaria o primeiro piloto acreano e a criação do Aero Club demonstraria que os aviões haviam chegado para ficar nos céus da Amazônia Ocidental.

1946/50 – O Major Guiomard dos Santos promoveu uma verdadeira revolução através da modernização do Acre. Além das inúmeras lanchas, caminhões, tratores, máquinas industriais e agrícolas que fez chegar ao Território, Guiomard ainda comprou diversos aviões para o governo. Por isso, coube à Guarda Territorial, sob o comando de Fontenele de Castro, construir aeroportos em todas as principais cidades acreanas. Mas, a menina dos olhos do casal Guiomard-Lydia era mesmo a Estação de Passageiros de Rio Branco, capital do Território Federal.
O Aeroporto Salgado Filho foi inaugurado em 1950 com todos os avanços que Guiomard estava conseguindo realizar em seu governo. Cada ambiente da Estação de Passageiros recebeu um diferente ladrinho hi-dráulico entre os mais bonitos que eram feitos na Cerâmica Oficial. O acesso era pelo rio, já que o governador ia do Palácio Rio Branco ao Aeroporto em modernas lanchas novinhas do governo. O que era sempre mais confortável que a poeirenta/lamacenta estrada do Centro da cidade até a Fazenda Sobral.
Os aviões da frota do Governo traziam de tudo, desde matrizes bovinas e caprinas, suínos, galináceos de raça, tudo que pudesse melhorar a produção acreana. Quando partiam, os aviões levavam a borracha tratada pelo novo e revolucionário Processo Arantes, que pretendia trazer de volta os tempos áureos da exportação da seringa. O Baile das Flores que teve lugar no elegante salão da Estação de Passageiros Salgado Filho, e aparece no filme-documentário que Guiomard mandou fazer, mostrava que todos os sonhos pareciam possíveis naqueles dias.

1974/78 – Durante vinte anos, o Aeroporto Salgado Filho foi o porto de entrada e de saída de milhares de acreanos. Ligação com o mundo, ponto de encontro da sociedade, dizem que também das aventuras da mocidade nos fins de semana. Mas, os aviões cada vez maiores já não cabiam na apertada pista. Por isso, no Governo Wanderley Dantas foi construído o Aeroporto Presidente Médici, que em 1974 recebeu o primeiro Boeing da Vasp.
Era a aposentadoria da Estação de Passageiros Salgado Filho, que gradativamente foi sendo abandonada, passando a ser conhecida como Aeroporto Velho. Até que o governador Geraldo Mesquita, em 1978, doou o prédio para o INPA (Instituto Na-cional de Pesquisas Amazônica) para fomentar a pesquisa científica no local. Foi aí que começaram a ser plantadas em volta do imponente prédio mudas de cupuaçu, cacau, fruta-pão, bacuri, mangas, e outras maravilhas da natureza que até hoje enchem a boca dos meninos das redondezas, com cores, sabores e doces.

1996 – Parece que foi ontem, mas já faz dezenove anos desde a inauguração do Centro Cultural Lydia Hammes Guiomard dos Santos no prédio do velho Aeroporto recém-reformado com todo o capricho pelo prefeito Jorge Viana. Finalmente o Setor de Patrimônio Histórico do Município de Rio Branco passaria a ter um lugar para trabalhar.
Não dá nem pra descrever a animação que tomou conta de nós. Graças a um projeto da Fundação Garibaldi Brasil, financiado pelo Ministério da Cultura, conseguimos aparelhar e montar um razoável centro de pesquisas acerca da história acreana. Com isso passou a funcionar no Centro Cultural Lydia Hammes uma boa biblioteca com centenas de livros de história, Amazônia, mu-seologia, arquivologia, além de ficção, quadrinhos e livros didáticos pra moçada em geral; um mini-auditório com o equipamento de tv e vídeo: um equipamento de informática que nos libertou do nosso velho XT com monitor de fósforo verde; a maior exposição que já fizemos em terras acreanas sobre a história da aviação e do Aeroporto Salgado Filho, dispostas em painéis especialmente desenhados para acompanhar a arquitetura do velho e imponente prédio; o núcleo inicial do arquivo histórico do município com documentos salvos da destruição no Arquivo Geral da Prefeitura; e, principalmente, o nosso xodó, apaixonados pelas histórias do velho Acre que somos, uma leitora/copiadora de microfilmes.
Isso nos possibilitou adquirir uma cópia da coleção de jornais acreanos microfilmados da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que é formada por jornais de todos os municípios acreanos no período entre 1904 e 1986. Quantas pesquisas e histórias foram possíveis a partir de então…

2001 – A torre queimou! Agora o Aeroporto Velho se acabou de vez!
Foi assim que recebi a notícia de que o Centro Cultural Lydia Hammes, abandonado pela prefeitura de Mauri Sérgio, havia sido invadido por vândalos que além de quebrar quase tudo, ainda tocaram fogo na torre do Aeroporto Velho.

De lá pra cá – Algum tempo depois a prefeitura conseguiu fazer uma reforma que recuperou parte do que havia sido destruído. Mas, infelizmente, a própria reforma se encarregou de arrancar quase todos os ladrilhos hidráulicos do velho Aeroporto. Que eram lindos, diga-se de passagem. Por outro lado, a comunidade do bairro Aeroporto Velho e arredores começou a se apropriar cada vez mais do Centro Cultural Lydia Hammes, o que deu origem ao famoso forró que acontece ali toda semana e movimenta senhores e senhoras da melhor idade de toda a baixada.
Quem sabe, no futuro, não seja necessário escrever aqui outro artigo contando sobre as histórias maravilhosas do bairro Aeroporto Velho, além daquelas que contam do prédio em si. De qualquer modo, nesse domingo, estão de parabéns todos os moradores do Aeroporto Velho que cuidam do bairro como de sua própria casa!

* Marcos Vinicius Neves é historiador

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