Asas partidas – Jornal A Gazeta

Asas partidas

Corria o ano de 1935. O Brasil  vivia um período confuso sob o forte governo de Getúlio Vargas. O “Crack” de 1929 fez o mundo ocidental conhecer uma das piores recessões econômicas de sua história. No Acre o desencanto pela longa crise da borracha – derrubada pelas plantações racionais da Malásia já havia 16 anos – tinha levado ao despovoamento dos seringais e ao esvaziamento do Território, já que a população via cada vez mais distante o sonho de voltar aos tempos de prosperidade.

Nem o fato dos acreanos estarem, pela primeira vez, votando para eleger dois deputados federais que pudessem representar os interesses acreanos na capital do país era motivo suficiente para mudar os ânimos e melhorar as perspectivas da sociedade. Talvez tenha sido por isso que o novo Interventor recém-nomeado por Getúlio Vargas para comandar o Território Federal do Acre decidiu programar aquela festa especial, apesar de meio louca, no grande dia 1º de Maio, dia do trabalhador brasileiro.

O paulista Manoel Martiniano Prado, novo Interventor Federal do Acre, era homem de ideias avançadas e representava a possibilidade de novas soluções para os antigos problemas locais. De qualquer forma, só restava aos acreanos aceitar que isso pudesse ser verdade uma vez que contra a vontade do presidente da República, a quem cabia a escolha do governante do Acre, nada podia essa esquecida sociedade sem autonomia política. Por isso quando Martiniano proclamou que o Acre deveria entrar para a modernidade nas asas dos aviões, todo mundo acreditou, ou pelo menos pareceu acreditar.

É verdade que, na época, o isolamento acreano era total. Só o lento transporte pelos rios e o telégrafo serviam de contato entre o Acre e o resto do mundo. Segundo o novo Interventor Federal esse era o principal motivo do atraso e da decadência econômica acreana. Era preciso, portanto, trazer a aviação para o Acre, essa seria sua redenção.

Assim foi que, na manhã do dia 1° de maio, em frente ao Palácio Rio Branco – enorme e cinza, já que ainda estava inacabado e só funcionava como gabinete e residência do Interventor porque era o jeito – se reuniram todas as famílias de Rio Branco, desde as mais humildes até as mais poderosas, atendendo à convocação feita por Martiniano. Depois do inflamado discurso do ousado Interventor que clamava em nome dos trabalhadores acreanos: “Dêem asas ao Acre”, seguiram todos em caminhada em direção ao Aprendizado Agrícola para construir o “Nosso Primeiro Campo de Aviação”, como passaria a ser chamado carinhosamente.

Enquanto os homens carregavam as ferramentas, as mulheres e as crianças levavam cestos com comidas e bebidas gostosas. A presença da Banda de Música da FPTA (Força Policial do Território do Acre) fazia com que o clima fosse de festa. E foi com esse espírito que cada família recebeu de presente pequenos lotes de terra de 20 metros para desmatar, destocar, aterrar e aplainar. Tudo à força de chibancas e enxadecos.

Apesar do trabalho pesado que a população recebera como presente do Interventor naquele feriado do trabalhador até que o dia havia sido diferente e divertido. Porém, é claro que não foi só com esse dia de trabalho que o “Nosso Primeiro Campo de Aviação” ficou pronto. Por isso e engenhoso Interventor estabeleceu que as famílias ficassem responsáveis pela conclusão de seus lotes e o resultado do trabalho de cada um seria divulgado semanalmente pelo jornal oficial “O ACRE”.

Um verdadeiro presente de grego, já que as famílias mais esforçadas que terminavam seus lotes logo recebiam outros lotes ainda não iniciados. Aqueles que desistiam da dura tarefa de transformar numa pista de pouso um enorme campo de chão, duro no verão e melado no inverno, tinham seus nomes publicados no jornal por sua falta de civismo e nenhum compromisso com o futuro do Acre.

Mas, tudo bem, a Força Policial assumiria os lotes abandonados pelo bem de todos. Apesar disso, o tempo passou e nada do campo de aviação ficar pronto.

Mas o antológico Martiniano Prado não era de entregar os pontos tão facilmente e entabulou conversas com o Syndicato Condor, empresa de aviação alemã que tentava expandir a influência da Alemanha nazista por terras latino-americanas e logo anunciou: em breve o Acre receberá o primeiro avião de sua história que irá pousar, não no campo inacabado, mas no Rio Acre.

Passaram todos a aguardar ansiosamente a chegada do anunciado avião aquático. Devia ser estranho esse bicho. Ou seria apenas mais uma bravata de Martiniano?

Mas a promessa foi realmente cumprida. Sob festas, aplausos e muito espanto, no início da tarde do dia 5 de maio de 1936 aquatizou nas águas do Rio Acre, ali no estirão do Bagé, o lendário hidroavião Taquary (hoje nome do bairro que fica ao longo desse estirão) pilotado pelo alemão Frederico Hoepken.

O entusiasmo popular pela chegada dos aviões ao Acre foi alimentado pela notícia, divulgada pelo jornal “O Acre”, de que o próprio Getúlio Vargas havia afirmado que “o Acre não está esquecido” e anunciava a próxima instalação de linhas aéreas regulares para o Acre. Porém, Martiniano – agora conhecido popularmente como “O Bandeirante do Ar” – não teve tempo para fazer mais nada, já que o golpe de 37 que estabeleceu o Estado Novo e tornou Getúlio Vargas ditador fez com que Martiniano abandonasse o cargo e fosse substituído por outro Interventor, estranho ao Acre, como sempre.

* Marcos Vinicius Neves  é historiador

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