Baile de favela

Postado em 13/07/2016 04:20:48 Gilberto Braga

Numa época de educação para poucos, Noel Rosa ensinava que “batuque é um privilégio” e “ninguém aprende samba no colégio”. Respeito o mestre, mas, se queremos educação para todos, acredito na criatividade e na música como ferramenta de ensino. Qualquer música, independente de gosto e formação musical. Até um funk. Por que não?

A professora de sociologia Gabriela, da Escola Estadual Maria Gai, de Curitiba, pediu a seus alunos um trabalho sobre Karl Marx. Eles apresentaram uma música com versos sobre mais-valia, ideologia, burguesia – tudo a ver com as teorias do pensador alemão, um dos mais influentes na sociologia, filosofia, história, política, economia.

A turma usou o que ouve e canta para trazer Marx à realidade da juventude brasileira. Fizeram uma paródia do funk “Baile de Favela”, de Mc João. O trabalho ficou pertinente. A professora Gabriela filmou a turma cantando: “Os burgueses não moram na favela/ Estão nas empresas explorando a galera/ E os proletários, o salário é uma miséria/ Essa é a mais-valia, vamos acabar com ela”. E o refrão é a tradução popular mais perfeita do autor do Manifesto Comunista jamais conseguida por qualquer intelectual ou academia: “Karl Marx é baile de favela!”.

Gabriela postou o vídeo nas redes sociais. Rápido, mais de 150 mil visualizações. Viralizou, mas também virou alvo de blogs e sites intolerantes que defendem o movimento “Escola Sem Partido”. Rápido, também, a Escola Maria Gai, de certo com anuência da Secretaria de Educação do Paraná, anunciou a demissão da professora, acusando-a de doutrinação comunista dos seus jovens alunos.

Ora, em casa, na festa, no intervalo das aulas, o estudante de ensino médio pode cantar um funk de letra carregada de putaria – escolhi a palavra mais certa, como diria Gonzaguinha –, mas não pode usar a mesma música para facilitar o seu aprendizado.

A demissão da professora Gabriela não é um caso isolado. A intolerância que divide o Brasil é causa e efeito desta mesma ignorância capaz de satanizar Karl Marx, discriminar o funk e promover o movimento “Escola sem partido”, que se permite ter o ator pornô Alexandre Frota como porta-voz, inclusive em audiência com o ministro da Educação do presidente interino Michel Temer.

editorial

Sem mais condições

 

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