Bateu saudade – Jornal A Gazeta

Bateu saudade

Depois que meus pais se separaram minha rotina sempre se resumiu a companhia do meu pai. Recentemente viajamos juntos e ele decidiu curtir as praias do Nordeste com a outra parte da família. Ótimo. Afinal, todo mundo precisa aproveitar as oportunidades oferecidas pela vida.

Hoje completa dois meses e dez dias que a casa está vazia e silenciosa. Não ouço o barulho da televisão no volume máximo há semanas. A cadeira de balanço parada me traz uma sensação de vazio. Até os cachorros estão sentindo falta daquela presença que tem horário pra acordar, caminhar, comer, dormir. Tudo, absolutamente tudo era minuciosamente calculado.

A saudade já se fazia presente, mas hoje ela veio forte, muito forte. As lágrimas escorreram ao ver os jornais que ainda não foram lidos. Suas bolachas preferidas devem continuar no pote até seu retorno. E meu coração pede pra que ele volte logo. Volte com a energia que suga diariamente minhas forças, mas que ao final do dia faz do lar o meu refúgio.

A rotina de cuidados com um idoso é cansativa e exige paciência, muita paciência. O esforço deixa o corpo e a mente exausta. Tem dia que tudo que queremos é chegar em casa e dormir uma noite inteira. É verdade. Às vezes a gente perde a cabeça e quer desistir de tudo.

Mas, apesar de todo o trabalho, cuidar de quem sempre cuidou da gente é gratificante. Todos os dias são de aprendizado e lição de vida. Se há alguns meses eu estava exausta hoje eu só quero me sentir cansada de novo, reclamar que não tenho tempo pra nada e ouvir as reclamações do meu “velho” também.

Por outro lado, apesar da saudade começar a apertar, meu coração se alegra ao ver o quanto ele está feliz. Transbordando alegria. Impossível não se emocionar ao receber uma foto dele gargalhando. Ah, como é bom te ver sorrindo.

Ontem durante uma ligação de vídeo papai disparou com o humor de sempre: “Ninguém tá sentindo falta de mim aí, né?”. Estamos papai, aliás, eu estou. Volta logo pra fazer dos meus dias aquela correria que faz eu me sentir viva.

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