BORDÕES DA ILUSÃO – Jornal A Gazeta

BORDÕES DA ILUSÃO

“Me faz feliz!”. Brada ofrequente bordão da cultura popular romântica. Na canção. Na ficção. No imaginário. Nas relações humanas.

Como se fosse possível. Como se fosse verdadeiro.Como se o outro, tão humano quanto eu, tivesse poderes mágicos de me prover emocionalmente e de me pacificar a alma. Como se meu bem-estar dependesse dele, e não de mim.

Como se “eu preciso de você” fosse uma genuína e desapegada declaração de apreço e não um atestado de interesse utilitário.Como se “eu te amo” não fosse tantas vezes pronunciado, ainda que inconscientemente,com o fim de aprisionar o outro. E como se a chantagem não fosse filha do medo e, portanto, o exato contrário do amor.

Como se o outro, em contrapartida à minha expectativa de satisfação garantida, não recebesse, ato contínuo, o direito de criar a sua, em relação a mim. Como se eu não fosse hipócrita, ao sustentá-la. Como se esse pacto não fizesse de nós escravos da ilusão e fadados à mendicânciaafetiva.

Mas, sobretudo, como se fosse necessariamente ruim estar só. Como se não houvesse um ricouniverso dentro de cada um, a ser descoberto, desfrutado – e, sim, também compartilhado. Comose experimentar a própria companhia fosse desagradável. E como se esse desconforto não fosse a verdadeira tragédia.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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