Cláudio Porfiro – Página: 10 – Jornal A Gazeta
  • Relíquias do tempo do voar mais alto

    Entre as fendas da rocha preta, no alto de um penhasco, o juazeiro velho e solitário enfiou as garras como a jaguatirica enfia as raízes em carne maciça. O pouso se faz já de olhos fechados desde há mais de um século. Cá de cima...

  • No tempo em que o Amor morreu

    Quando a última folha outonal do galho se desprendeu, um vaso grego ou chinês do armário desabou. Na lápide marmórea, a estátua monótona de um anjo torto tombou de lado. Do teto de gesso antigo, um alabastro se soltou e no chão virou mil pedaços....

  • A imponderável caça ao bicho-homem perfeito

    Dias se sucediam longamente, tal e qual as imbaúbas à beira do barranco escorregadio, de inverno a verão, em vista da existência perpétua de uma fonte de densa água cristalina que, a seguir, já era um arroio e, depois, um igarapé. A vegetação comprimia-se numa...

  • Os terríveis enigmas da casa ao lado

    Claudio Motta * Naquele dia invernoso, ainda  manhãzinha, o menino do dedo azul esfregava os olhos na soleira da porta da casa humilde da rua das castanholas. Espreguiçava-se. Estava ainda sonolento aos onze de idade e com responsabilidades como aquela. Dormira cedo e, agora, às cinco,...

  • Aos filhos das mães que sonham acordadas

    Num daqueles dias mornos de  outono, o homem exausto  levou a mão à testa e de lá verteu suor em bicas. O campo vasto de capim gordura serviria, mais tarde, para a confecção de colchões de dormir para aquela gente sem vintém e sem cobre....

  • Em tua memória, oh meu santo poetinha!

    Ao nosso querido versejador do além. Como bem recomendado  por todos os santos e orixás, também tem ele chegado lá, aqui ou acolá, sempre e à mercê dos melhores presságios, passando por mil estágios, a cada instante, mesmo sem tanta pressa, mas esforçando-se à beça, ainda com alguma...

  • Relíquias dos anos da invenção da roda

    Naqueles dias, caminhávamos  à toa, em delírio esfuziante,  absortos e em observação plena direcionada à roda da vida a girar levemente, vagarosamente, indolentemente, mas ininterrupta e precisa e cruel e contínua, embora não o percebêssemos. Tínhamos todo o tempo do mundo e a vida sorria...

  • Um dia bom para nascer uma vez mais

    Naquele inverno, uma vez mais,  juntaram todos os cacos de  todas as horas diuturnas e partiram céleres rumo ao já conhecido rincão das letras pululantes e das ciências que fazem jorrar ouro e bom futuro em cascata. Uma oportunidade a mais nunca será demais, principalmente,...

  • A solidão do inverno de cada um

    Ele estava afixado à parede do  solar há pelo menos sessenta  anos. Amarelecera. Cansara de ficar dependurado ali naquele canto, por tanto tempo. Os bigodes caíam-lhe para dentro da boca. Algum bolor chegava a parecer catarro escorrido do nariz aquilino. Os olhos já não eram...

  • Alguma vaidade; orgulho comedido

    Escorreguei o corpo suado doído e dormi por sobre as raízes  da vaidade. É árvore frondosa e bela, travesseiro muito duro, posto que exige de todos e de cada um sempre e muitos dispêndios materiais, além daqueles que se relacionam à alma. Passaram-se horas a...