Cláudio Porfiro – Página: 20 – Jornal A Gazeta
  • A opulência dos espíritos

    As almas ali habitantes eram de uma riqueza nunca dantes vista. A pobreza de coração lá não tinha guarida. Ali não havia espíritos mesquinhos, porque todos estavam prontos a se ajudarem, a se complementarem. Na hora necessária, no momento do infausto, nos golpes aplicados pela...

  • Premeditando a solidão, como no samba

    Ele estava afixado à parede do velho solar há pelo menos sessenta anos. Amarelecera. Cansara de ficar dependurado ali naquele canto por tanto tempo. Os bigodes caíam-lhe para dentro da boca. Algum bolor chegava a parecer catarro escorrido do grande nariz aquilino. Os olhos já...

  • Por do sol em Dublin

     Quando Pavla-Gwineth rememorou os acontecimentos da sua vida, aquelas noites de um tempo anterior na sala televisiva, foram algumas das lembranças mais claras. Ela reviu a luz ardente no rosto de casca de ovo do irmão Liam e chegou até a provar o sabor humano...

  • De amores e de bolachas

     Se não fosse volúvel como sou, seria um santo bem à moda das carolas mais fundamentalistas do século anterior ao meu. Tiro daí, então, advertência cruel segundo a qual uma das grandes perfeições do universo está exatamente na instabilidade do humano. A inconstância marca o...

  • A irresistível saga da moça que roubou o homem de alguém

     Viver a modernidade em alto estilo é algo bastante dispendioso, oneroso e até certo ponto insidioso ou capcioso, digamos assim. Se não bastasse a seda e o linho, ainda há que comprar amor como se compra o vinho, quando, na busca da mais cristalina verdade,...

  • Monólogo para loucos que mordem

     Não vejo nenhuma utilidade em um errante extremado, reincidente há milênios, como tu, ó poeta bestial, ficar se atormentando com aquilo de ruim que já fez. O que de melhor pode acontecer é a emenda ficar bem pior que o soneto. Tudo poderá entortar de...

  • Lama poética descalça e nua

     Pela rua de pedrinhas de diamante para o meu amor passar, triste traste que vês em andança, coberto de andrajos rotos e amarfanhados, não demonstra de que mal sofre, nem que o torturem com avalanches de verdades sobre a cabeça torta de pedra…  Eu te...

  • Cá co’s seus botões já desabotoados…

      Conversar com a minha Penélope Despudorada é sempre uma forma de rir da vida que é, ao mesmo tempo, tão transitória e tão cheia de surpresas e esquisitices provocadas exatamente pelos humanos que, como a minha heroína, chutam o balde, botam o pai na forca, escorregam...

  • Bem pobre, bem feliz…

     Observei há muito tempo, ainda lá em Xapuri, que algumas pessoas, apesar de pobres, se fazem passar porpedantes, arrogantes, orgulhosas, talvez, dos andrajos espirituais nos quais a alma encolhida se veste. Então, fui mais além e vi que delas a pobreza não gosta, isto porque ser...

  • O lado trágico da distância

    São homens que vivem ao sabor das águas do grande Rio Amazonas. Cada qual carrega sobre si o peso da distância das famílias. Há mais tragédia que tango, não exatamente como no espetáculo. A viagem por esta vida é longa, se assim tu o mereces....