Cláudio Porfiro – Página: 5 – Jornal A Gazeta
  • À noite todos os gatos são pardos, ou escurinhos

    Ele rabiscara em guardanapo branco os dois primeiros versos de uma melodia de Noel. Logo, então, chegou o homem da gravata preta, colocou o lembrete na bandeja por entre as garrafas e copos sujos e o levou ao moço do instrumento de cordas. Os acordes...

  • Lama poética descalça e nua

    Pela rua de pedrinhas de diamante para o meu amor passar, triste traste que vês em andança, coberto de andrajos rotos e amarfanhados, não demonstra de que mal sofre, nem que o torturem com avalanches de verdades sobre a cabeça torta de pedra. Eu te...

  • Dentro de mim se esconde um anjo insano

    Os meus mundos eram iluminados, sim. Havia uma tonalidade ocre ou rosácea muito leve, bem tênue, no alvorecer e no crepúsculo de fogo brando, pois fazia um friozinho. Algumas árvores por ali não sei onde existentes faziam o contraponto e tingiam-se de escuro. No decorrer...

  • Essa famigerada nau dos abandonados

    Em um aposento acanhado, vivia a analista de dois mundos, entre um e outro, tentando enxergar as anomalias de cá e de lá. Tocava um clarinete soturno, melodioso, à boca da noite, no dizer das gentes pernambucanas. Era uma bela solteirona. Estava no sangue não...

  • Navegando em meio a desilusões

    Como a afogar-se embriagado em um mar de alegorias e outras metáforas redondas, que se estendem a partir da vida do humano rumo ao infinito, estava o saltimbanco perambulante num daqueles gloriosos sábados à tarde enquanto participante de um folguedo regado a champanhe e uns...

  • Ilusões torpes, esperanças frustradas

    Os encontros nossos de cada dia por esta vida afora vão acontecendo, sucessivamente, consequentemente, e em acordo ou desacordo com as pegadas leves do destino que nos domina e nos perverte a alma quando nos nutre de tantas quantas esperanças, às vezes tão aprazíveis, mas...

  • Em tua memória, oh meu santo poetinha!

    Ao nosso querido versejador do além. Como bem recomendado por todos os santos e orixás, também tem ele chegado lá, aqui ou acolá, sempre e à mercê dos melhores presságios, passando por mil estágios, a cada instante, mesmo sem tanta pressa, mas esforçando-se à beça,...

  • Já habitando o campo dos sonhos

    As pessoas aparecem nas nossas vidas, passam um tempo fazendo parte do quotidiano, colaboram, se tornam as melhores amigas, fazem-se felizes juntas aos demais que lhes são caros, mas, surpreendentemente, de uma hora para a outra, sem sobreaviso, deixam de existir na terra dos homens...

  • Um tantinho de amor a preço qualquer

    Sol a pino em brilho que relaxa, que apraz, que traz alegria, que refestela, que fala mansinho de vida bem vivida em idade iniciais. Ah, bela é essa juventude que respira brisa amena e levemente adocicada vinda do canal marinho em frente. Barcos de recreio...

  • Andaimes de gente em curvas sinuosas

    As épocas antecedentes foram de alegrias intensas. Redemoinhos de felicidade e contentamento. A maré alta fazia regurgitarem as finanças. Fluía a riqueza naquelas paragens abençoadas. O ruído do ouro a encher as bolsas era música aos ouvidos dos abastados. Festas muito dispendiosas davam brilho maior...