Consultório sentimental – Jornal A Gazeta

Consultório sentimental

Então a paixão vai ficando desconfortável. Aquele sentimento que já foi de alegria, arejamento, descoberta e bem querer se torna sombrio, opressivo, monótono, triste e ressentido. Logo, inconveniente. Pior que estéril, venenoso.

Mas o enamorado irredutível, tenha em algum momento sido bem sucedido ou não em seu intento de buscar reciprocidade, nega-se a abrir mão da paixão que sofregamente carrega.

Meu amigo mineirinho filosofa sobre o fenômeno com lentes de humor: “Ocê já botô reparo qui tem uns tipo qui num é paxonado, é incutido?” Verdade. Por quê, haverão de perguntar ao portador da doída afeição, se ela lhe faz tão mal?

Para responder, ele elencará razões às dezenas, especialmente para se manter no papel que escolheu executar. Mas é bem provável que nem a si permita averiguar suas motivações mais profundas, que de fato o prendem.

Embora o acometimento de paixão em si seja legítimo, belo e respeitável, o apego a ela tem outro propósito e origem. Que nunca se localiza fora do apaixonado. Antes, nos seus registros primeiros de vínculos afetivos, acolhedores ou hostis, nas primeiras histórias vivenciadas, nas suas carências, medos e desejos.

É, portanto, na harmonização desse campo que o candidato à emancipação emocional deve projetar seu foco, em vez de atribuir ao outro a culpa pela sua infelicidade. Assim, permitir que a paixão se vá quando já não produz bons frutos é uma decisão adulta, que exige entendimento, disposição e coragem.

Porque se é verdade que a paixão coloca lentes cor-de-rosa entre a nossa percepção e o mundo que nos cerca, abrir mão desse anteparo é certamente assustador. É ser lançado de novo à vida comum, àquela senda que já parecia tão desprovida de atrativos.

O apaixonado contumaz não quer voltar a esse lugar, que lhe parece de uma crueza e de um naturalismo insuportáveis. Por isso resiste.

Entretanto, esse singelo âmbito que tanto se evita é a nossa verdadeira casa. Somos nós mesmos. É a nossa vida, nossa instância de direito – por tempo determinado: eis um detalhe a não ser esquecido.

Ser humano é aceitar a responsabilidade de tornar o universo pessoal significativo, fecundo e… apaixonante! Serviço para a vida inteira. Mas é bem remunerado.

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