De lá pra cá, ou daqui pra lá, de avião tá de lascar – Jornal A Gazeta

De lá pra cá, ou daqui pra lá, de avião tá de lascar

Recentemente fiz uma viagem   com minha esposa e filha de  um aninho de idade. E, tanto na ida quanto na volta, a realidade com que nos deparamos foi a mesma: voos lotados e extremamente desconfortáveis no trecho entre o Acre e Brasília.

O voo da volta, então, foi uma verdadeira tortura. Avião lotado, quente, tumultuado. Me senti dentro de um ônibus, daqueles antigos, ao invés de um avião. E, nem preciso dizer que o incomodo pra minha pequena Manuela foi grande. O que significou um incômodo ainda maior pra gente que queria vê-la descansando com tranquilidade durante as três longas horas (que até pareceram seis) que passamos voando.

O curioso é que nos outros trechos, a partir de Brasília, os aviões eram novos, mais confortáveis e nunca estavam tão lotados como os daqui. Como fui por uma empresa aérea e voltei por outra deu pra comparar e afirmar que voar pela TAM é ruim, mas os serviços oferecidos pela GOL são ainda pior.

Ainda assim, uma rápida consulta aos sites das próprias empresas aéreas ou de outras agências de viagem, só confirmam aquilo que todos nós aqui no Acre já sabemos: os preços das passagens aéreas pra cá são exorbitantes e, curiosamente, muito similares entre as duas companhias acima citadas. Não há como não sentir certo cheiro de cartel circulando no ar. Ora bolas, até onde sei, a pratica de cartel, combinar preços entre empresas que deveriam concorrer entre si, é considerado crime aqui nesse país.

Lembro que há uns dois anos atrás (talvez mais um pouco) a TRIP, se não me engano, colocou um voo diário entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Num horário bem mais adequado do que os voos da madrugada oferecidos pela Gol e com preços mais acessíveis. Imediatamente a Gol começou a oferecer passagens cada vez mais baratas, abaixo até dos custos de operação, com o objetivo de inviabilizar a TRIP. E não deu outra, em pouco tempo esta desistiu de operar nesse trecho e voltamos a ficar reféns do monopólio da Gol com seus horários absurdos, péssimos serviços, etc, etc, etc… Não tenho muita certeza, mas acho que, no jargão jurídico, isso se chama concorrência desleal.

Assim fica óbvio o motivo pelo qual as duas empresas oferecem serviços muito semelhantes entre si. Um voo noturno por dia e aviões sempre lotados. É a típica operação de pouquíssimo risco pras empresas, já que ficam garantidos assim voos com o máximo de ocupação e demanda sempre acima da oferta, mantendo os preços muito altos. Não faria mais sentido pras próprias empresas colocarem outros voos, baratear os preços e assim duplicar ou triplicar o numero de passagens vendidas? Achei que era assim que o capitalismo se expandia em um mercado de livre concorrência. Mas parece que isso não se aplica ao nosso caso. Aqui vale o regime de monopólio e cartelização de preços, garantindo o máximo lucro com mínimos custos e crescimento impedido pela eterna deficiência de oferta.

O problema é que, para além das questões simplesmente econômicas, o transporte aéreo na Amazônia é uma questão eminentemente social. Trata-se de uma necessidade para centenas de milhares de pessoas do Acre e outras tantas de cada um dos estados amazônicos. E é essa queda de braço entre os interesses econômicos de poucos e a necessidade de muitas pessoas comuns que tem levado o senador Jorge Viana a um longo embate pela melhoria dos serviços aéreos e o barateamento dos preços das passagens para o Acre.

Já foram inúmeras conversas feitas diretamente com as companhias aéreas e com as agencias reguladoras. Desde o início de seu mandato, Jorge tem travado o bom combate para mudar essa situação absurda. Mas, mil justificativas sobre os preços dos combustíveis, sobre dificuldades operacionais e blá, blá, blá, tem conseguido impedir qualquer mudança nesse setor que traga uma melhora significativa em nossas vidas.

Pois essa semana a Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública para debater essa questão, que teve o deputado Alan Rick como um de seus propositores, e tanto as companhias aéreas, quanto a ANAC não demonstraram muito respeito pela gravidade da situação e nem pelo papel constitucional do Congresso Nacional na defesa dos cidadãos brasileiros, enviando representantes secundários para prestar informações aos parlamentares.

O senador Jorge Viana indignado já avisou que não vai aceitar comportamento semelhante na audiência que será realizada sobre esse mesmo tema no Senado Federal por indicação dele. Tá na hora dos presidentes das companhias aéreas e da ANAC se explicarem e serem obrigados a buscar alternativas concretas para mudar esse quadro que está posto. Do jeito que está é que não dá pra ficar.

* Marcos Vinicius Neves

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