De tanto amar – Jornal A Gazeta

De tanto amar

Ele me mostrou o poema que compôs para a antiga namorada. No soneto confessou: ainda a amava.Eu lhe disse:

– A gente nunca esquece um grande amor, não é?

– Só se ama uma vez – ele me respondeu.

Então comecei a pensar um pensamento longo: sim, meu amigo, só se ama uma vez. Eu mesma só amei uma vez. Desde que conheci o amor.

Eu amei quando me senti confortada no ventre de minha mãe. Amei quando tive medo e fome e ela me acolheu em seu peito nutridor. E amei quando senti que meu pai me amava também.

Amei pessoas da família, amigos, professores. Amei, ainda na infância, aquele menino.
Amei o moço que me deu o primeiro beijo. E amei aquele com quem descortinei um mundo novo, para além do beijo.Amei meus namorados, amei o pai do meu filho e o filho que ele me deu. E também amei aqueles que não me amaram.
Segui amando, pensando que amava um de cada vez. Até que o amor me pregou uma peça e me ocorreu aquilo de que eu duvidava: amei dois de uma vez. Como é possível?,eu me perguntava enquanto amava.
Assim: um me sabia – era prosa. Outro me encantava – era poesia.
Enfimentendi que o amor é muito maior do que as nossas suposições. Se vivermos de peito aberto,ele nos põe de joelhos diante da sua largueza. E por isso sei que é descabido julgar o amor de alguém.
Amo este, amo essas, amo aqueles. Amo todos que amei. E, a bem da verdade amorosa, estou neste mundo para aprender que não há eu ou tu. Há, quando o encontro se faz possível, nós.
“Amo tanto e de tanto amar” – amo Chico também – descobri que o amor é que ama em mim.
Então, meu amigo, sim, só se ama uma vez. Porque, ao ser conhecido, experimentado, ao se transformar, expandir-se, transmutar-se e multiplicar-se, o amor é sempre outro e é sempre o amor.

Assuntos desta notícia