Decepção – Jornal A Gazeta

Decepção

Nunca achei que viveria este dia. Nunca achei que poderíamos chegar aos tempos em que veneraríamos assassinos e criminosos. Mas, nesta semana descobri que a irresponsabilidade social de certas pessoas subjugou a capacidade de ter bom senso. Ainda parece surreal uma realidade onde os acreanos, milhares de nós, clamam pela liberdade de um dos maiores vilões da nossa história recente: Hildebrando Pascoal. E, mais do que exigir que ele seja livre, anseiam também para que ele nos lidere. Seja nosso ‘governador’ e combata o mal do nosso Estado.

Isso tudo é ridículo. Humilhante para quem nos vê de fora.

Tais ideias já deixaram de ser uma afronta ao Acre, às vítimas daquele grupo de extermínio. Já ultrapassaram os limites dos interesses políticos que se escondem nos bastidores de quem pensa assim.  A grande verdade por trás destes projetos de ideologias é um desejo popular insaciável por justiça a qualquer preço. Uma vontade sem limites de punir criminosos.

Além da família e antigos amigos dele, ninguém se importa realmente se o Hildebrando de hoje (idoso, já meio doente, com certas dificuldades de locomoção, sem o poderio de coronel da PM) vai sair da prisão. Ficou bem claro na maioria de manifestações em redes sociais para que ele seja livre que querem de volta aquele velho chefe do esquadrão da morte. O homem da motosserra. O líder imponente de uma quadrilha que matava gente e depois arrancava os dedos, arcadas dentárias e até a cabeça de suas vítimas para não deixar digitais.

O desejo de seus defensores não é só que ele saía da prisão. O verdadeiro anseio mascarado dos 5 mil likers é que ele tome o Acre de novo para um tipo doentio de ‘limpeza social’. Que resgate a terra onde se resolvia tudo na bala. Que ele vire novamente o ‘chefão do submundo do crime’ que decida o bandido bom que deve viver e o bandido ruim que deve morrer.

Já não querem mais as leis. Forças policiais. Não confiam mais nelas. Não acreditam que sejam severas ou seguras o suficiente. Querem um carrasco que aja punindo à margem do sistema. E o mais triste é que ninguém se dá conta que isso só esconde uma ambição irracional de anarquia e até de pena de morte. Pena de morte sim, porque acreditar que ‘bandido bom é bandido morto’ e confiar em loucos para garantir a execução disso mostra que queremos nos sentir superior. Só revela a pretensão humana de roubar a divina missão de escolher quem vive e quem morre.

São por mentes assim que eu rezo para que Jesus Cristo desça à terra de novo. Nossos maiores valores em mais de 2 mil anos de civilização às vezes parecem não valer mais nada.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: sdmartinello@gmail.com

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