Dia mundial da água – Jornal A Gazeta

Dia mundial da água

Celebramos no dia 22 de março o Dia Mundial da Água, data criada com o objetivo de alertar a população internacional sobre a importância da preservação da água para a sobrevivência de todos os ecossistemas do planeta.
Todos sabem que a superfície do nosso planeta é majoritariamente constituída de água, o problema é que apenas 0,7% de toda esta água é apropriada para o consumo humano, sendo que uma grande parte está no subsolo e nas geleiras, restando uma pequena parcela disponível para uso imediato. Então, quando olhamos do lado da oferta de água, percebemos que não temos tanta abundância como o senso comum faria pensar. O conceito econômico de escassez nos diz que um bem é escasso não apenas porque temos pouco dele, mas principalmente porque ele não está disponível na forma e no momento em que precisamos. É o caso da água, um bem aparentemente abundante, mas escasso na prática. Se, por outro lado, olharmos para os usos da água, então perceberemos a real extensão e gravidade do problema dos recursos hídricos no nosso planeta, especialmente no Brasil, pois as estatísticas mostram que cerca de 80% da água potável do planeta (que como vimos acima não é muita) é usada na agricultura, o que coloca estes mananciais à mercê de fertilizantes químicos e de defensivos agrícolas venenosos. E a água envenenada na lavoura escorre para os rios, e destes para os oceanos, impactando todos os ecossistemas terrestres e marinhos. Dos restantes 20% de água potável que temos disponível na natureza, cerca de 15% são usados na indústria, também à mercê de agentes poluentes e patogênicos, ficando os 5% restantes para os chamados outros usos, incluída aí a água que sai das nossa torneiras.
É fácil perceber, a partir destes números, a real dimensão do problema, sendo mais fácil entender porque um País como o nosso, que detém cerca de 16% de toda a água doce do planeta, vem sofrendo com racionamento de água em grandes cidades como São Paulo e Brasília. Os recursos necessários para a transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados e o equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada.
Neste ano de 2018 as comemorações do Dia Mundial da Água integram a programação do 8º Fórum Mundial da Água, que acontece em Brasília, de 18 a 23 de março, com o tema “Compartilhando Água”. Criado em 1996, pelo Conselho Mundial da Água, o fórum é o maior evento mundial sobre o assunto “água” e foi idealizado para estabelecer compromissos políticos acerca dos recursos hídricos. É uma ótima oportunidade para encetarmos um diálogo aberto e democrático, a partir de um ponto de vista do hemisfério sul, visando estabelecer compromissos políticos de caráter global com vistas à proteção dos nossos mananciais. Esperamos que este importante evento seja capaz de incentivar o uso racional dos recursos hídricos, buscando a conservação e a proteção das águas, assim como estimular investimentos em planejamento e gestão destes recursos em todos os níveis. Com a participação de autoridades governamentais, parlamentares e representantes de alguns setores da sociedade, especialmente empresariais, o Fórum debate as implicações, para a conservação dos recursos hídricos, da geração e uso da energia, da produção de alimentos, da gestão urbana e da gestão dos ecossistemas, dentre outros assuntos. De ponto de vista político, mais de uma centena de parlamentares de vários países estarão discutindo o papel do Parlamento e o direito à água, na esperança de se encontrar caminhos para a construção de melhores políticas públicas, legislação e boas práticas em cada país. Esperamos um compromisso dos parlamentos com a segurança hídrica, com alocação de recursos orçamentários e com a transferência de tecnologia na direção de acordos internacionais que protejam de fato os mananciais de água doce, lamentando a ausência marcante dos principais chefes de Estado do mundo, o que compromete seriamente a legitimidade do Fórum.
Legitimidade esta que é contestada pelo Fórum Alternativo Mundial da Água – FAMA 2018, que acontece também em Brasília no mesmo período, constituindo um espaço político para promoção da discussão sobre os problemas relacionados ao tema em escala global, envolvendo a sociedade civil. O FAMA é um evento internacional, democrático e que pretende reunir mundialmente organizações e movimentos sociais que lutam em defesa da água como direito elementar à vida. Este Fórum pretende unificar a luta contra a tentativa das grandes corporações em transformar a água em uma mercadoria, privatizando as reservas e fontes naturais de água, tentando transformar este direito em um recurso inalcançável para muitas populações, que, com isso, sofrem exclusão social, pobreza e se vêm envolvidas em conflitos e guerras de todo o tipo. Espero sinceramente que de todo este esforço de mobilização e debate surja propostas e iniciativas práticas capazes de melhorar a proteção e a gestão dos recursos hídricos em nível global, mas muito especialmente na nossa tão grandiosa e ao mesmo tempo frágil Amazônia. O Brasil parece que ainda não entendeu que a nossa floresta não é só um imenso depósito de água doce, ela também impacta diretamente o regime de chuvas no país ao longo do ano, através do fenômeno da evapotranspiração, em que a floresta emite para a atmosfera, em forma de umidade, enormes quantidades de água, gerando as chuvas que vão garantir as águas no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Então não basta apenas discutirmos a questão hídrica sob a ótica das chuvas e dos reservatórios de água, precisamos olhar o todo, olhar para o planejamento urbano e para a impermeabilização do solo nas nossas grandes cidades, olhar para o tipo de agricultura que estamos praticando e olhar para as nossas florestas, por que sem elas a água vai embora e não teremos a necessária renovação dos recursos hídricos para as gerações futuras.

 

*Raimundo Angelim é professor, economista, ex-prefeito de Rio Branco e deputado federal (PT-AC)
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