Dias em que a paz acenou ao largo – Jornal A Gazeta

Dias em que a paz acenou ao largo

Muitos já escreveram por aí que os fatos ocorridos nos nossos primeiros tempos, como a infância e a adolescência, são iguais à água que desce da biqueira e nunca mais retorna. Lembram ainda o rio da senhora Úrsula, que nunca olha para trás. E o Heráclito queria dizer que ninguém pinoteia duas vezes no mesmo igarapé. Mas não é preciso ficar desesperançado. A fonte da juventude se esvaiu, sim, mas, agora, já aprendemos a dar o devido valor ao que dela fluiu. Amadurecemos, pois, saudáveis e inteligentes, em boa parte dos casos. E isso é maravilhoso.
A amada província incrustada na floresta guarda no menino ainda muito mais de mil lembranças enraizadas desde o âmago tutano teimoso, magro e moreno retinto. Bom lembrar que tudo era tão igual e ao mesmo tempo tão diferente dos outros recantos do vale. No colégio mesmo, meninas pulavam corda e meninos jogavam peteca, ou trocavam sopapos – coisas de machinhos descendentes de nordestinos – quando os olhos atentos das freiras eram desviados por qualquer motivo.
Transcorriam as férias de julho. O menino mais velho da família contava dezesseis anos e um pouco. Era magro, mas gostava de atitudes. A mãe o deixara botando atenção no feijão. Ali perto, ele lia alguma coisa parecida com O pequeno príncipe, do Saint-Exupéry. O fogão era de lenha. Bastava, às dez, colocar uma tanto de sal e um pouco d’água. Já havia uma colher maior com a banha de porco recomendada. Ela fora lavar roupa no igarapé, ali bem próximo. O arroz já estava pronto e o cozido com couve também.
De repente, um grito:
– Um homem quer bater no teu irmão!
Ele largou tudo e saiu correndo no rumo da rua do comércio, onde um irmão menor estava acossado num canto de parede, sob a ameaça de um moleque bem maior dizendo que ia lhe dar uns cocorotes para ele aprender a jogar peteca direito.
O menino mais velho, vendo o irmão naquela situação, querendo revolver a parada na hora e percebendo ser difícil enfrentar o oponente no mano a mano, apossou-se de uma ripa de cerca e desceu-lhe três ripadas, duas das quais na cabeça. As pancadas foram tão fortes que o grandão desmaiou. Ele levou o irmão para casa e alguém levou o ferido para o hospital não tão longe.
A tarde se passou dentro da maior normalidade. A noite também.
No outro dia, manhãzinha, o soldado moreno queimado chegou à casa da rua das castanholas com um papel na mão. Segundo o documento, o menino mais velho deveria comparecer à delegacia de polícia. A mãe do grandão havia prestado queixa ao delegado.
Na chegada à delegacia, a autoridade competente não estava. Havia ido almoçar às dez e só voltaria lá pelas catorze. O soldado, então, trancou-o numa cela, de onde só saiu mais tarde, porque o pai interveio e o delegado, sabendo das razões reais das ripadas, o colocou em liberdade.
Passados alguns meses das ripadas didáticas, num Domingo à tardinha, sem muito o que fazer, uma vez que já havia ido à Missa, o rapazola observador e atento resolveu participar de uma pelada que corria solta na quadra de esportes do grupo escolar, onde ele sequer era aluno. Jogava algum futebol, mas nada que enchesse os olhos de quem quer que fosse. Veio, pois, o suor e o cansaço. Ele foi para casa.
No outro dia, lá estava, na janela da casa, o soldado moreno queimado, sorridente, malicioso, insolente, com um novo papel na mão. Aí, ele já tinha dezessete e pensava saber ou poder responder direitinho tudo o que o delegado rabicó lhe perguntasse. (Sim, o homem da lei tinha a cara de um porco em vista da careca trepada em cima de uma cabeça gorda.)
De novo, ele foi esperar o delegado, junto com os outros meninos da pelada, no xilindró. (Menores, naquele tempo, podiam ser tratados de qualquer jeito.) Era sábado e tudo se repetiu quase da mesma forma que na ocasião anterior. Ele era inocente.
Apurado ficou que, depois que ele foi pra casa, cansado de jogar futebol tão pífio, um dos meninos adentrou uma sala de aula da escola e defecou na gaveta da mesa do professor. Pela manhã, a revolta na escola era geral.
Por outro lado, os outros quatro meninos, feito imbecis, subiram uma escadinha e foram tomar banho dentro da caixa d’água que servia toda a escola.
Um senhor que se encarregava da limpeza do prédio, de passagem por ali, como que prevendo alguma patifaria, observou bem e, depois, entregou o nome de todos à Diretora; e esta passou a pequena relação dos que estavam jogando bola ao delegado rabicó.
Os próprios meninos afirmaram ao delegado que o filho do estivador nada tinha a ver com aquilo tudo. Ele foi inocentado, mas, uma vez mais, esteve atrás das grades.
Aos dezoito e alguns meses, transcorriam as férias do meio do ano de 1975. O garoto observador e anotador, além de dançar e de se vestir mais ou menos, ainda gostava de ingerir a água que passarinho não bebe.
Numa sexta qualquer, a boate do caboco fechara à meia-noite por falta de movimento. Apenas alguns rapazes estavam por ali bebendo pouco e fazendo muito barulho, uma vez que a maioria era composta por filhos de ricos, ou quase, alguns, inclusive, em férias na cidadezinha. Eram uns dez ou onze ao todo, contando com os pobres enfiados no meio daquela coorte de arruaceiros juvenis.
Já na praça, alguém deu a ideia de ir buscar um toca-fitas, o que foi feito rapidamente, em vista do tamanho de Xapuri à época. (Hoje ainda não é grande coisa, a não ser pelo brilhantismo de alguns dos seus e pela violência urbana que tenta vicejar.)
Muitas eram as moças bonitas de então, como volta a acontecer nos dias atuais. Um roteiro-trajeto foi traçado, mas, na hora de colocar o plano da serenata em execução, faltou pilha no aparelhozinho sem vergonha.
Uma mente genial deu a ideia de as benditas pilhas serem compradas no comércio de um senhor bastante humilde e bacana. Muito provavelmente ele atenderia àquela hora.
Mas o homem não abriu o comércio e um dos pândegos, bêbado, houve por bem atirar uma banda de tijolo na vidraça da lojinha acanhada. Todos fugiram em desabalada carreira.
Na segunda-feira, dia da prova de História do professor Galo, lá estavam seis rapazolas na cadeia. Trancaram o filho da lavadeira, o da costureira, o do pedreiro, o do vigia, o do músico e o do estivador, lógico. Para aquele ambiente, esqueceram de convidar o filho da Rainha Vitória, o do Abraham Lincoln, o do médico, o do vereador, o do dono da farmácia, o do homem do banco e o do próprio delegado, que já era outro, e não o rabicó.
Mais uma vez, ele foi inocentado. Quem jogou a banda de tijolo foi o filho do delegado. A prova de História foi feita no outro dia, e ele tirou dez, como já era praxe. Do pai estivador, o menino ouviu uma máxima que lhe zune nos ouvidos até hoje:
– Presta atenção, caba safado! Passarinho que se acompanha com morcego amanhece o dia de cu pra cima. Tome jeito, seu fidumaégua!
Já-já que o delegado prenderia o próprio filho ou os filhos dos grandões. Ele apanharia da esposa e perderia o emprego num piscar de olhos. O homem era mais frouxo que as arruelas da bicicleta do padre.
Era preciso mesmo respirar outros ares. Ele partiu.

*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mailclaudioxapuri@hotmail.com

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