DIVINA ELIZETH – Jornal A Gazeta

DIVINA ELIZETH

Das janelas mais queridas da minha saudade, acena-me esta lembrança: a morada da minha infância nas manhãs de domingo.

O sol muitas vezes vinha agraciar a cidade curitibana e então todas as vistas eram abertas, assim que as cortinas esvoaçavam ao leve rumor do vento.

Papai enfim estava em casa e a gente ficava tão contente! Ele descansava da semana cheia, mais ainda da vida de labuta desde cedo. E, satisfeito, saboreava suas conquistas.

Ao toca-discos frequentemente levava o LP daquela que ia se tornando, por influência dele e por seu próprio brilho, uma gema preciosa em meu coração: Elizeth Cardoso. Eu me comprazia em deixar seu timbre grave de seda brilhante deslizar pelos meus ouvidos. Que elegância! Que afinação! Que repertório!

Até hoje gosto de ouvir. Quando cuido que não, lá vem uma lágrima me surpreender, a me lembrar daqueles dias. E talvez a minha canção preferida em sua voz seja “Sei lá, Mangueira”, samba antológico de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola – que dupla!

O arranjo é um deslumbre, a letra é só primor: “Vista assim do alto, mais parece um céu no chão! Sei lá, em Mangueira a poesia, feito o mar, se alastrou. E a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber, e as mãos não ousam tocar, e os pés recusam pisar. Sei lá, não sei; não sei se toda beleza de que lhes falo sai tão somente do meu coração. Em Mangueira a poesia, num sobe e desce constante, anda descalça ensinando um modo novo da gente viver. De sonhar, de pensar e sofrer… Sei lá, não sei; a Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação.”

Revisitando a composição, gravada em 1969 com o Zimbo Trio, fico aqui a imaginar, quem sabe meu pai estivesse constatando que “a vida é um pouco mais” quando, entre uma baforada e outra em seu cachimbo, sorrindo reverenciava a grande dama como se ela estivesse em nossa sala:

– Divina, maravilhosa!

Onides Bonaccorsi Queiroz

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