Doces rios – Jornal A Gazeta

Doces rios

Como disse o extraordinário  poeta/músico Milton Nascimento “O grito dessas pessoas no fundo dos seringais, devia ser escutado em Beléns e Manaus. Corre nas veias remar e seguir a viagem, viver só carece coragem; esperança que a paz reine na floresta.”

Foi fantástico subir aos céus pelas asas do bimotor e viver aquele longo dia de aprendizado. De Rio Branco a Santa Rosa, Jordão e Marechal Thaumaturgo. Voar, andar, subir, descer, por esse velho/novo Acre é fenomenal. Aquele Acre que os homens das grandes cidades conhecem muito pouco ou quase nada.

Passamos alguns dias convivendo com as pessoas dos municípios mais isolados. Vendo, ouvindo, conversando, tocando, sentindo a brisa do rio, subindo e descendo barrancos, comendo peixe e se reconstruindo. Isso é rejuvenescedor pra qualquer alma penada que se disponha a tanto.

Os formadores de opinião, os intelectuais, os teóricos do que se sente e vive, os explicadores do inconsciente coletivo, certamente se machucariam facilmente ao tentar mergulhar nesses “doces rios” que são as almas simples dos povos das florestas do Acre.

Pode parecer clichê. Mas, viajar pelos rios do Acre ainda é a melhor maneira de se mergulhar n’alma acreana. Aqui e ali, ou acolá, se pode encontrar um espírito leve, simples, mas firme, que nos ensina que: pra sermos felizes precisamos de tão pouco, tão somente daquilo que encontramos e cuidamos no lugar em que vivemos. São pessoas que vivem às margens de nossos doces rios motivadas pela alegria e não pelo medo. Homens, mulheres, crianças, idosos, índios e brancos que tem uma forte tendência a praticarem todos os dias a compaixão com a natureza e com os outros.

Numa terça-feira bem cedo, antes mesmo do galo cantar, o senador Jorge Viana, acompanhado do deputado federal César Messias e alguns colaboradores entraram numa canoa com motor de rabeta e se aventuraram numa verdadeira imersão pelos rios e comunidades ribeirinhas do Juruá.

As comunidades de Mississipi, Oriente, Triunfo, Grajaú e Natal foram as paradas técnicas para travar uma boa conversa, trocar abraços fraternos, despedir-se com o desejo de que o reencontro seja em breve e a conclusão inevitável de que a luta continua. E precisa mesmo continuar por entender que essas pessoas são portadoras de sonhos e devem ser ouvidas e compreendidas em suas carências e necessidades.

A maratona por nossos doces rios teve sequência na quarta-feira onde as visitas, encontros e reencontros continuaram às margens do Rio Crôa. E o sentimento que nos conduzia já foi magistralmente contado por nosso eterno poeta Cacá: “Nas águas escuras do Rio Crôa mergulhei. Não sei de sua profundidade, mas sei de suas margens e do fluxo de suas aguas à procura do Juruá”.

A extensão do sentimento humano ninguém pode conhecer, nem medir. As bacias dos rios e dos igarapés e os limites entre os territórios foram caprichosamente marcados dentro da floresta. E essas e outras histórias serão contadas e recontadas no assoalho de paxiúba, no pé da fogueira, no alto dos barrancos, nas curvas dos rios, nas varandas, nos varadouros da floresta, nas cidades. É uma história verdadeira de sentimento e simplicidade do povo do Acre. Doces rios que carregam em seus leitos profundos nossa alegria e nossa força de vida.

* José Alicio – Professor e assistente parlamentar do senador Jorge Viana.

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