Dos diplomas e das salsichas

Postado em 12/08/2016 04:54:52 Raimundo Angelim

Na última década assistimos a um grande aumento da oferta de vagas no ensino superior em nosso País, graças às facilidades advindas de políticas governamentais de financiamento aos estudantes, que permitiram aos jovens de baixa renda um acesso mais facilitado à universidade, aliadas ao incremento das universidades públicas federais e de políticas afirmativas, como é o caso das cotas raciais. Isto tudo permitiu que centenas de milhares de brasileiros pudessem cursar uma faculdade, inclusive nas cidades médias do interior do País.São inegáveis os benefícios que esta grande mudança no paradigma de acesso ao ensino superior trouxe para os brasileiros, entretanto, trouxe também alguns efeitos negativos e, talvez, o pior deles seja um preocupante processo de concentração econômica no setor da educação superior privada no Brasil.

Vejo com preocupação que a maior empresa do setor educacional privado no Brasil, a Kroton Educacional, depois de uma incrível sequência de aquisições de faculdades, dentre as quais destacamos as marcas Anhanguera e Unopar, está comprando a Estácio, empresa com unidades espalhadas por todas as regiões do Brasil. Com a incorporação da Estácio, a Kroton terá 1,6 milhão de alunos e receitas anuais que ultrapassam R$ 8 bilhões. No ano passado, os lucros das duas empresas somados chegaram a quase R$ 2,5 bilhões.Por representar uma fusão de enormes proporções e pelo grau de concentração econômica que acarreta para o setor, esta operação terá que passar ainda pelo Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica e espero que a análise do Conselho seja feita dentro da boa técnica, a fim de proteger os interesses públicos.

Esta operação poderá trazer graves consequências para o ensino superior no Brasil, a começar pelos professores, pois sabemos que as primeiras e principais vítimas destas fusões e concentrações de mercado são os trabalhadores, que perdem seus empregos ou tem seus salários achatados pela brutal redução da concorrência no setor. Se esta fusão das gigantes do ensino no Brasil for para elevaros preços das mensalidades, agravar a já enorme desvalorização profissional dos professores e demais trabalhadores da educação, reduziros investimentos no ensino presencial e piorar a já baixa qualidade do ensino superior privado no Brasil, então talvez seja melhor o CADE não permitir esta fusão.

Como bem alertam os dirigentes da ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, com menos concorrênciaas faculdades privadas poderão elevar os preços das mensalidades e dos materiais didáticos que comercializam. Além disso, é largamente conhecido que as condições de trabalho e remuneração nas faculdades privadas, onde os contratos de trabalho são muitas vezes esporádicos, são bem piores que nas universidades federais e estaduais. Com o aumento da concentração econômica no setor, este quadro tende a piorar ainda mais.
Outro aspecto que me preocupa bastante é que praticamente não há pesquisa nas faculdades e centros universitários privados, ao passo que nas poucas universidades privadas, que são obrigadas a pesquisar, temos muito pouca pesquisa na área de tecnologia, que é fundamental para a criação das inovações que irão promover o desenvolvimento do país e os empregos que tanto precisamos. Estamos diante de uma ameaça de grandes proporções para o futuro de nossos jovens e precisaremos fazer uma dura escolha: queremos uma universidade do tipo “fábrica de salsichas”, onde não interessa a qualidade do que entra, tampouco do que sai, desde que seja barato e todo mundo curta? Ou estamos dispostos a lutar por um ensino de qualidade que forme não só bons profissionais, mas também os cientistas de que tanto precisamos para o nosso progresso?

De minha parte, reafirmo meu compromisso com a universidade pública de qualidade e com a construção de um ensino superior privado que seja capaz de estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo, de formar pessoas aptas para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileirae de incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura.

Raimundo Angelim é deputado federal (PT-AC)
Facebook: www.facebook.com/angelim.acre
Email: dep.angelim@camara.leg.br

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