Entrevista com a monalisa desnuda – Jornal A Gazeta

Entrevista com a monalisa desnuda

Apanhara de furto umas anotações feitas pela musa, há alguns anos. Foram encontradas em meio ao emaranhado que são as gavetas da memória e as dobras do raciocínio. Ela vinha de um período letárgico e infeliz. Coitada. Já de início, havia uma afirmação contundente segundo a qual não se sabe porque tantas mulheres se aventuram em certos relacionamentos, mesmo sabendo que podem ter mais prejuízos que orgasmos. Ficou atônito, bestificado mesmo. A realidade estava pulsante, viva, como a quase implorar por livrar-se de algumas amarras estúpidas impostas pelo destino.
Dá para perceber então que, a partir da constatação inicial relativa aos dissabores amorosos do gênero das beldades, todos os comentários giram em torno da temática. Parece até que são respostas emitidas por outras moças que, como ela, exalam perfumes envolventes de todo o corpo, pensam muito além das adjacências do próprio clitóris e já giram em torno das quarenta e tantas voltas ao redor do astro rei. Uns amores.
– Amiga. Tem muita mulher idiota nesses cafundós do mundo. A vizinha aqui do prédio não relutou e adotou um príncipe desocupado que acorda ao meio-dia, bebe vinho italiano com queijo camembert durante a tarde e, à noite, some por rumos ignorados. Ah, sim. Eu tenho tudo a ver com isso, certamente, porque ela está a lamentar a maldita hora em que o acolheu em sua casa e ele já me fez abordagens comprometedoras por umas cinco ou seis vezes. – Escreveu ela num momento de rebeldia contra todas as mulheres tolas do mundo. Ao que a interlocutora deitou falação que deixaria a Simone de Beauvoir aos pulos no sepulcro:
– Infelizmente, no mundo feminino, a porcentagem das incultas é muito grande. Mulher idiota se faz deveras abundante, principalmente, nas periferias sociais dessa nossa civilização judaico-cristã. Ainda há as que pensam que maridos são eternos. Que casamentos são insolúveis, ou como empregos por tempo indeterminado. Que os homens são maduros antes dos cinquenta. Que, depois do matrimônio, o bacana irá trabalhar e ela acordará às dez e ficará engordando em casa. Que barrigas de surpresa seguram os indomáveis. Que as pensões alimentícias podem ser a tábua de salvação para quem não quer alcançar emancipação através dos estudos e do trabalho real. São estas que caem na lábia e nos sorrisos marotos de certos pilantras e, depois, como se diz em Portugal, a Inês já é morta. É importante que verdades fortes como estas sejam ditas e compartilhadas, a plenos pulmões, pelas feministas ao redor do mundo.
Daí em diante, através de algo como uma longa carta, ou uma correspondência eletrônica imensa e eivada de psicologismos consequentes, a monalisa desnuda faz críticas deveras razoáveis relativas aos orgasmos comprados a alto custo ou a peso de ouro. Segundo palavras dela mesma, há uma infinidade de idiotas carentes que, no desespero, apelam para os anjos dos céus e da terra. Os de lá podem ser muito bonzinhos, mas os arcanjos de cá só pensam com a cabeça de baixo. E é aí que a vaca vai pro brejo e a jiripoca deixa de piar por absoluto desuso do instrumental que faz a vida ser melhor vivida entre um gozo e outro, ou em meio àqueles fingidos que sequer existem.
A monalisa desnuda lembrou, então, a mãe do poeta triste segundo quem ele pensa entender de mulher, quando nem as próprias mulheres evoluíram a tal ponto.
É cômico, mas também é trágico. As duas coisas, certamente. Unhas são armas às vezes letais. Em verdade, as mais afoitas, que são quase todas, deixam de lado a diplomacia, a discrição, o tato. Muitas usam mãos, braços e pernas, arrancam os cabelos umas das outras e brigam entre si não exatamente por causa de homem, mas em vista da lingerie que se ajusta e se adequa melhor às ancas espetaculares ou ao busto avantajado da fortinha mais fofa e linda do mundo. Não. A diva e perua da minha rua pacata, como aquela beldade cuja passagem ornamenta o seu condomínio, não veste umHerchcovitch para se parecer bela aos olhos do parceiro, mas para mostrar para a amiga que é poderosíssima desde sempre. Coisa de Deus. Assim Ele as fez.
Segundo a nossa sempre amada e provocante heroína, fazer uma avaliação dos fatores que permeiam os possíveis prejuízos e os presumíveis orgasmos de quem quer que seja é algo bastante insondável, posto que etéreo. Conhecem-se poucos que dizem não haver gozado e gostado imensamente da voluptuosidade do ferro com ferro. Uns e umas mentem. Outros e outras reviram os olhinhos e veem estrelas cadentes e ascendentes mesmo, na real.
Na hora agá, pois, ninguém está exatamente em si. Viaja-se folgadamente em meio ao turbilhão de emoções advindas do estado de elevação além da carne. Daí, o que primeiro entra em rota de fuga é a transparência plena das faculdades mentais. No emaranhado das sensações, resplandece a insanidade por minutos indizíveis. A lucidez foge pela porta e a timidez se atira pela janela do décimo andar. Lascou-se.
Está anotado nos alfarrábios do cronista tosco e indiscreto o palavreado as vezes chulo da monalisa estonteante:
– Pra ter um macho do lado, mulher faz qualquer merda. Até se casa com uns trolhas que prometem mundos e fundos, de mentirinha. Ninguém disse a ela que a libido leva o humano a estados terríveis, e enganar passa a ser parte do cotidiano de alguns. A ela, falta amor próprio, a auto estima se acovarda e se esconde, as carências materiais e psicológicas se sobrepõem a muitos princípios antes tão rígidos. Penso que a maioria nunca aprendeu a se amar. Quando a pessoa se ama, jamais cairá nessas armadilhas toscas colocadas em meio ao caminho de muitas delas em fuga e em busca de uma liberdade sem sentido, uma vez que, hodiernamente, casamento não é a solução para nada, a não ser quando se é rico e se quer que o patrimônio dobre ou quintuplique. Mas aí já são outros quinhentos, porque existe a tão decantada bala na agulha, o vil metal que corrompe à maioria dos humanos.
O cronista segue vasculhando a vida alheia, como lhe é de ofício. Em seguida, há uma correspondência eletrônica bem recente, talvez do ano passado, em meio aos itens excluídos da caixa de mensagens da musa. A monalisa descalça agora se veste de analista xucra e comete uma resposta cheia de verdades e sentidos pelo lado avesso:
– Homens e mulheres são eternos aventureiros. As buscas são mesmo incessantes, eternas, com ou sem prejuízo. Tudo isso é muito próprio do ser. O humano já percebeu, desde antes do tempo da arca, que os relacionamentos arriscados e perigosos são os que dão mais prazer. Os orgasmos a qualquer custo sugerem fantasias delirantes. Deve ser por isso que estou só. Jamais me arriscaria com qualquer um. Já passei por isso. E há ainda aquele medo de ficar só que apavora e leva ao desespero. Elas não suportam admitir, para o raio social, a sua aptidão quando o objetivo não é arranjar maridos imbecis. Mas é com o tempo e com a cara quebrada que vamos aprendendo. Por outro lado, vejo que a maioria das mulheres olha para qualquer relação com o coração. Por isso são sempre enganadas pelos cafajestes. Mesmo as que são doutoradas na vida podem esquecer o tirocínio e pisar no freio já na entrada da curva. Aí, danou-se.
A resposta da monalisa desnuda revela que ela própria se considera um exemplar bem acabado da atual situação. É muitíssimo inteligente. Todos a veem com olhos cobiçosos, mas nenhum deles cai nos seus encantos e cá está a beldade ao redor da quadragésima volta. Exuberantemente linda de viver.

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