Já habitando o campo dos sonhos

Postado em 22/10/2016 19:58:28 CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO

As pessoas aparecem nas nossas vidas, passam um tempo fazendo parte do quotidiano, colaboram, se tornam as melhores amigas, fazem-se felizes juntas aos demais que lhes são caros, mas, surpreendentemente, de uma hora para a outra, sem sobreaviso, deixam de existir na terra dos homens e das mulheres, vão-se embora para outras galáxias a cumprir tarefas designadas por Deus, e aqui deixam saudades a perder de vista para os que ainda ficam em devaneio e em sonho dolorido e suportando as densas dores próprias dos que peregrinam por este vale de lágrimas. Quantas boas lembranças agora passam a nos assaltar.

Um dia, pois, Deus houve por bem fazê-la desaparecer do convívio entre nós humanos. Foi acometida de um mal qualquer e nem houve tanto tempo para a mim dizer adeus. Nem podia se despedir. Estava eu passando uma longa temporada lá pelos lados do planalto central, a trabalho. Nunca mais a vi e talvez não tornarei a vê-la, uma vez que as vias galácticas são sempre muito congestionadas, mesmo incomunicáveis e distantes umas das outras. As passagens aéreas tornar-se-iam impraticáveis, talvez, em vista das condições climáticas desvirtuadas do universo e dos planetas entre si. E tudo é muito lamentável. Por isto vêm as lágrimas mornas tardias que até inspiram uma tal prosa poética cheia de amor para dar. Amar significa compartilhar o que quer que seja, inclusive amizades. Recordar é viver, como nos carnavais do meu tempo de folião cinquenta graus.

Fico pensando no que me disse um dia o Pirandello, isso há um tempão, no início do século passado, anos vinte talvez. O dramaturgo italiano imortalizado faz-nos pensar sobre o que significa amar a humanidade. É simples como as vidas mais cheias de sentido. Se eu estou satisfeito comigo mesmo, o meu amor para com os humanos de todos os gêneros e naipes aumenta a níveis diários estonteantes. Vim, vi e venci, como um César, e estou certo de que a felicidade não deve ser privilégio de poucos, mas de todos. O convívio humano deve ser prenhe das trocas mais saudáveis possíveis, porque tal fator dá muito mais deleite à vida de quem sabe conviver. Sigamos felizes, pois.

Então. Ao chegar do interior, como o poeta baiano morto deixou musicado, passei a residir em nova moradia, é claro. Adquiri novos hábitos como o de fazer novas amizades. Afinal, viera para morar em bairro tradicional na parte norte da cidade escolhida pelos pais e pelo irmão mais velho. Eles ditavam as normas da prosperidade familiar e tudo deu muito certo, com as bênçãos de Deus.

Não tardou e os tempos ditosos logo vieram. Alguns falaram que por sorte. Os amigos disseram que foi por competência. Fiz progressos a olhos vistos, arranjei emprego federal e as mocinhas do lugar passaram a olhar para mim com olhos cobiçosos. Para um qualquer sem origem, como eu, era bem sucedido, já, aos vinte e pouquinhos anos.

Os bons eflúvios trazidos pelo dinheiro apontaram para rotinas antes não usuais. Um carro fazia as coisas todas ficarem mais fáceis e as eternas sextas-feiras noturnas em boemia passaram a ter outro gosto e um outro tom sob os acordes de um violão qualquer ou mais.

Como de praxe, o dia seguinte, desde que o mundo é mundo, já tinha o nome de sábado e este, geralmente, amanhecia, como ainda hoje, esturricado e com uma sede de matar camelo. Para o combate à esta secura medonha na garganta, o primeiro estágio do dia autorizava a mim ficar no bar da melhor amiga, por horas a fio, sorvendo uma boa cerveja e apreciando os manjares que vinham da cozinha exercida sempre com muito carinho e uma competência demonstrada a partir da elaboração dos acepipes mais simples, como a carne bife escondida em meio a um monte de cebolas, ou o peixe frito na banha do porco. Dos céus.

O hábito do cigarrinho nunca passou da sexta em altas horas e das tardes noites de sábado. E lá na prateleira já estava a marca predileta que também era a preferida dela.

Hoje o hábito fala da boa procedência, inclusive cultural e intelectual de quem o pratica, mas, naquela época, ao contrário, era coisa de gente sem formação, sem noção e sem critério. O consumo mínimo da maconha, então, foi logo deixado ao largo, a conselho dessa tia maravilhosa que dizia ser aquilo extremamente fedorento e que não haveria mulher que se encostasse em mim, dada a catinga enjoativa e repugnante muito própria do tal basilar, no dizer do Sérgio Buarque de Holanda. Larguei logo nas primeiras baforadas, afinal, sempre o belo gênero foi o meu forte e o meu fraco. Tenho certeza.

Junto com uma turma de bons camaradas e algumas das suas pretendentes, empreendíamos viagens de férias ao Rio de Janeiro. Todos eles, ao meu convite, também perambulavam pelo bar da tia aos sábados. Passávamos um mês em tais viagens. Lá, entre um chope e outro, sempre saudávamos a nossa querida dona do boteco mais precioso da cadeia velha, segundo avalio com muito conhecimento de causa.

Depois, quando cá chegávamos de volta, as malas iam para casa levadas pelos que nos apanhavam no aeroporto. A saudade do convívio era tanta que, uma vez mais, nos reuníamos naquele local aprazível, à beira do Rio Acre, para saudar a queridinha e tomar umas louras suadas a mais. Éramos, sim, jovens e felizes ao lado de uma tia postiça que tinha certeza dos nossos gostos às vezes tão apurados e às vezes tão simples.

Verto lágrimas de saudade, enfim.

Um dia, na porta de um colégio da cidade, eu, que buscava um filho ali estudante, houve por bem indagar a uma netinha dela sobre como ia a saúde da Dona Rita. Ela, entre lágrimas e com uma voz dulcíssima e soluçante, disse:

– O senhor é que é o Seu Zé Cláudio, não é? Pois bem. A minha avó veio a falecer na semana passada e, no leito de morte, ela, naquele ínterim em que os moribundos têm a melhora que dá esperanças aos que ficam, perguntou como era que o senhor estava, se a sua família estava bem e disse para todos nós que gostava muito do senhor.

Incrível. Ontem à noite sonhei com ela que estava a me oferecer uma xícara grande com alguma coisa muito parecida com o tacacá. Acordei pensando nas amizades que vêm e logo se vão, como foi o caso aqui retratado.

Por aí têm dito de mim receber dons espirituais de algum recanto do universo que me iluminam. A letra da palma da mão fala de anjos ao meu redor, como no caso da amiga querida aqui lembrada. Em verdade, apenas um canto da minha casa faz brotar uma inspiração extremamente substanciosa, inclusive, na vida acadêmica, quando eu tinha uma. Hoje manhãzinha, então, acordei cogitando a possibilidade de haver aí alguma verdade. Realmente, a inspiração vem do céu transportada no lombo de querubins sequiosos por um bom passeio na Terra.

Eis, pois, que a tia postiça se foi. Deus a ela encomendou algumas dúzias de rosas e uns favos de mel. Ela foi fazer a entrega e cumprir o seu desiderato em outros mundos e de lá nunca mais voltará. Foi entregar flores e doçura a uma alma merecida qualquer em outros mundos de outras galáxias.
Tudo isto faz parte da vida das estrelas. Podemos ter certeza.

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO, Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero.

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