Lei de Murphy II – um resultado da física de desastres – Jornal A Gazeta

Lei de Murphy II – um resultado da física de desastres

No dia 9 de dezembro do ano  passado publicamos um artigo  com o título ‘A Lei de Murphy e redundância em sistemas de alertas para desastres”.  Agora vamos continuar a discussão usando eventos recentes de inundação que assolaram o Rio Acre e continuam fazendo estragos.

Uma versão desta lei é “o que pode dar errado, vai dar errado no momento mais problemático”. Em dezembro citamos o caso de Assis Brasil, onde as plataformas de coleta de dados deram errado no ano passado  e precisávamos usar réguas colocadas no Rio Acre para determinar se ia inundar ou não Assis Brasil, Iñapari (Peru) e Bolpebra (Bolívia) na fronteira trinacional. Mas não abordamos naquele artigo o porquê da lei.

Existe uma razão lógica ligando a lei de Murphy e desastres via a física de energia. Quase todos os desastres naturais nesta parte de Amazônia Sul-Ocidental são oriundos de eventos extremos de muita energia, seja o fluxo enorme d´água nos rios, seja o calor e combustão de serrapilheira e matéria orgânica seca em incêndios em áreas abertas ou nas florestas.

No caso de uma inundação, a informação chave para alertas é a altura do rio e a velocidade da sua subida. Se fazem medidas destas informações tradicionalmente com réguas montadas em estacas inseridas nas margens do rio. Em alguns lugares esta informação é disponibilizada via plataformas de coleta de dados (PCDs) que medem a altura do rio via um cabo submerso e um sensor de pressão da água ou via  um radar que mede a distância vertical de uma ponte até a superficie da água. Qualquer medidor pode quebrar, mas por quê a tendência “…no momento mais problemático…”?

Primeiro, as régras e PCDs de pressão são normalmente colocadas num barranco ingreme do rio para facilitar a leitura. Mas o barranco é ingreme exatamente porque representa uma área de erosão ativa do rio.  E a erosão mais rápida acontece quando o rio está alto, cheio de energia cinêtica, como dizem os fisicos. Durante a época de chuvas e de inundações é comum a descida de barrancos por esta razão. Mas como colocamos no artigo anterior, redundância é essencial e tivemos PCDs montadas na ponte Brasil-Peru.  As leituras destas PCDs podem ser acessadas via o sitio da Agencia Nacional das Águas (www.ana.gov.br/telemetria).

Durante o início da inundação deste ano, nos dias 18 e 19 de feveiro, estávamos monitorando o nível do Rio Acre, usando estas PCDs, comunicando a nossa análise por telefone às defesas civis em Iñapari, Assis Brasil e Cobija.  Mas PCDs são complexas, suscetíveis às problemas de calibração e de estabilidade eletrônica. As leituras estavam oscilando e fomos a Assis Brasil e Iñapari para entender o problema.

O rio começou a subir novamente no dia 21 e a lei de Murphy se aplicou: as leituras das PCDs oscillavam demais e decidimos usar as leituras das réguas, como no ano passado. Porém, um desmoronamento do barranco tinha deslocado as estacas com as réguas, como se vê na foto. Com a ajuda de moradores locais, confeccionamos réguas de tubos de PVC, com marcações de um pincel, de 5 em 5 cm, e colocamos no barranco da colônia de pescadores em Assis Brasil.  Graças a Deus o rio parou de subir e não foi necessário usá-las durante uma segunda inundação. Mais uma vez, a lei de Murphy se aplicou, facilitada pela alta energia de um rio transbordando.

No caso de secas e incêndios a situação é semelhante.  No momento que se precisa mais de monitoramento de queimadas via imagens de satélite e sobrevoos é quando as queimadas estão liberando mais energia, produzindo mais fumaça, dificultando o monitoramento.

A lei de Murphy funciona também com o abastecimento de água numa seca.  Uma parte significativa de abastecimento de várias cidades na região vêm de poços, ou seja de água subterrânea, a outra parte vem de captura de água dos rios via sistemas municipais. Quando o baixo nível do rio limita o acesso de água do rio para o sistema municipal, a água subterrânea baixa também, secando muitos poços. As pessoas que não têm mais água de poço procuram água do sistema municipal.  A consequência perversa é a demanda de água aumenta no momento que o sistema municipal está com problemas que poderiam levar a um colapso de abastecimento (…no momento mais problemático…).

Esperamos que este discussão ajude a explicar porque o Murphy vem para visitar a nossa região nos momentos menos apropriados.  Para ter antifragilidade, como notamos no artigo do dia 14jul2015, precisamos aprender da nossa história recente de eventos extremos e ter sistemas robustos de monitoramento e abastecimento “nos momentos mais problemáticos”. As alternativas são sofrer as consequências previsíveis da lei de Murphy ou se adaptar, antecipando os problemas.

* Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Risco de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).

* Lincoln Schwarzbach, Biólogo, Analista Ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), gestor da Estação Ecológica Rio Acre.

James Gomes,  Tenente Coronel,  Corpo de Bombeiros Militar do Acre – Coordenador da Rede Hidrometeorológica do Estado do Acre/Sema.

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