Nada parceiros – Jornal A Gazeta

Nada parceiros

Dizem que o cão é o melhor amigo do homem. Mas será que o papel do homem é igual na vida dos cachorros? O companheirismo para com os animais não é o forte do ser humano, sempre dominante, sempre egoísta. Pelo menos é isso que fica claro nestas situações de enchentes.

Todo ano é a mesma história. Pessoas saem às pressas de suas casas (de teimosas que são, porque o rio anuncia sua subida muito antes de acontecer, mas quem mora nas áreas de risco sempre quer se iludir achando que o rio não vai chegar ao seu cafofo). Deixam muita coisa que julgam não ser ‘valiosas’ para trás. Mais especificamente, levam seus bens materiais. Só que os bichinhos de estimação, na maioria das vezes, são largados à própria sorte. Abandonados.

Gatos e cachorros são, como se possa chamar, territorialistas. Quando têm o que eles acreditam ser um lar, eles o protegem. Não o deixam. Ao contrário das pessoas, eles não têm consciência que o rio vai subir ou descer. Até pressentem isso, por força de instinto selvagem. No entanto, ficam nas casas alagadas, mesmo quando os seus donos saem, para cumprir sua missão de vida de proteção e na iminência do dono voltar e dizer: ‘bom garoto’. São leais até o fim.

O grande problema é que as pessoas decidem ter animais de estimação sem se dar conta da responsabilidade desta ‘posse’ sobre eles. Acham que é só dar um pouco de comida e água, e pronto. Os deveres de humano estão cumpridos. Também não percebem o poder que exercem em fazer o animal conflitar com a sua natureza, até mesmo com o seu instinto de sobrevivência. E o mais triste é vê-los perdidos diante desta calamidade. Um drama desnecessário.

Se não fossem condicionados ao convívio humano, esta situação de cheia pra cães e gatos não seria nada demais. A água começaria a subir. Eles veriam que seria perigoso ficar perto do rio e simplesmente sairiam de perto. ‘Fugiriam para as colinas’. Sem arrependimentos por quebrar o elo com seus donos. Mas quando alguém decide adotá-los, tudo se complica. O cão pensa que está numa matilha. E jamais vai abandoná-la. O gato acredita que está num local seguro, e que lá ele é intocável. E não vai trocar esta vida segura por nada. Já o ser humano não liga pra nada disso.

Portanto, pensem bem antes de sair de casa e deixar seus bichinhos pra trás. Nas horas boas, ele sempre foi seu companheiro. Por que é tão difícil retribuir a gentileza? O tempo de duração de uma enchente é imprevisível. Pode durar dias ou semanas. Seu animalzinho pode não conseguir sobreviver tanto tempo. É seu o dever de guiá-lo para a vida.

Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: sdmartinello@gmail.com

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