O Acre em tempos de cólera – Jornal A Gazeta

O Acre em tempos de cólera

Como diria o outro: “muita calma nessa hora”. Ou, como dizem os outros: “Keep Calm”. Penso que essa é a única coisa sensata que nós, cidadãos comuns, podemos fazer diante dos atos de violência que tomaram conta das ruas das cidades acreanas nos últimos três dias.

E foi bastante interessante acompanhar a evolução do comportamento da sociedade em geral durante esses acontecimentos. No primeiro dia, os criminosos queimaram dois ônibus e houve muito pouca repercussão e preocupação por parte da população. Como se a coisa não fosse séria e nem tivesse possibilidade de vir a ser.

No segundo dia aconteceram incêndios de alguns ônibus e de carros, não só em Rio Branco, mas em outras cidades também, o que mostrava já claramente a gravidade do que estava acontecendo. Mas, apesar disso, a noite de terça-feira foi de uma intensa e inusual atividade nas redes sociais. Falando em português claro: o whatsapp e o face bombaram! E tinha de tudo. Desde notícias sobre ocorrências verdadeiras (como o incêndio dos veículos acima citados), passando por boatos que se espalhavam como rastilho de pólvora (como no caso do pretenso incêndio ao colégio CERB), até memes ironizando tudo e todos. Uma festa, perigosa é verdade, mas engraçada também.

O contrário de ontem, a terceira noite de distúrbios pelas ruas de Rio Branco e em outras cidades, quando as redes sociais praticamente silenciaram e deixaram claro que a ficha tinha caído: o assunto é sério e precisa ser encarado de forma responsável. Ficou claro, inclusive, que as brincadeiras que haviam tomado conta das redes sociais foram responsáveis por uma série de problemas para as forças da segurança pública que estavam empenhadas em controlar a situação.

E, o que talvez seja mais complicado de tudo, ninguém sabe como vai ser hoje à noite. O que se sabe é que as ações dos órgãos de segurança foram bastante ágeis e efetivas nestes últimos dias. Mas, até que ponto essas facções criminosas, que têm sido mencionadas como responsáveis pelos atentados criminosos, têm folego e organização para continuar realizando outras ações, ninguém sabe de fato.

A mim, no meio disso tudo, tem incomodado bastante o recrudescimento e a disseminação do mesmo tipo de pensamento que parece dominar o Congresso Nacional em tempos de Cunhas e Bolsonaros da vida. Coisas tipo: “bandido bom é bandido morto” ou campanha para o rearmamento da população. Não custa lembrar como foi difícil para a sociedade brasileira construir a transição de um estado autoritário – desde os tempos da Ditadura Militar em que o general declara em alto e bom som “Eu prendo e arrebento” – para um estado democrático de direito em que todo cidadão tem direito à ampla defesa e à uma justiça equânime.

Ou seja, mal começamos a sair de uma condição em que os mais ricos e poderosos podiam tudo e nada acontecia, para nos tornarmos um país em que todos são iguais perante a lei e precisam responder e pagar por atos criminosos que, porventura, tenham cometido. Muito embora, a absoluta maioria dos detentos empilhados nos presídios brasileiros ainda seja constituída por jovens negros e pobres e a situação do sistema prisional como um todo não seja exatamente um exemplo de direitos humanos. Enfim, num momento como esse, a atual onda conservadora que assola o país se torna extremamente perigosa.

Porque, em última instancia, em caso de recrudescimento da violência no Acre – seja por parte dos bandidos, seja por parte da polícia, seja por parte da própria população – os mais prejudicados serão os cidadãos comuns, as famílias acreanas, enfim, como já acontece em São Paulo e outras grandes cidades. Afinal, até onde sei, na chacina de Osasco, uma situação de guerra entre a polícia e a bandidagem, a maioria dos que morreram eram trabalhadores que não tinham nada a ver com a história. Ou, como no caso da mulher que foi linchada e morta depois de ter sido confundida com uma pretensa responsável pelo sacrifício de crianças em rituais de magia negra e que era completamente inocente. Ou, ainda, no caso dos muitos inocentes mortos por balas perdidas em confrontos entre policiais e traficantes.

Ou seja, nessas horas de crise e dificuldade não podemos esquecer que violência sempre gera mais violência e que o bom mesmo é viver em paz…

* Marcos Vinicius Neves

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