O Acre tem muita floresta? Exemplo do leste do Acre

Postado em 15/05/2017 23:25:47 Foster Brown e Sonaira Souza da Silva

O Acre tem muita ou pouca floresta? Quase dez anos atrás foi publicado no Jornal A Gazeta um artigo fazendo uma pergunta semelhante (7dez07). A resposta continua tendo implicações para os serviços ambientais, as políticas públicas e a nossa vida cotidiana na região.

A resposta depende se estamos avaliando o estado como um todo ou no nível de municípios. A área do desmatamento no Acre cobre somente 13% do seu território até 2015, segundo o Projeto Prodes do Inpe. Este valor só se refere ao corte raso da floresta e exclui atividade de degradação florestal coma extração seletiva de madeira e incêndios florestais.

Neste caso, parece que o Acre está abençoado com florestas abundantes que fornecem uma série de serviços ambientais – o regulamento do ciclo hidrológico, a manutenção da fertilidade do solo, a manutenção da biodiversidade e estoques de carbono.

As florestas também servem como barreiras contra fogo, com a exeção de secas prolongadas como as dos anos 2005, 2010 e 2016 quando incêndios atingiram extensas áreas de floresta. De fato, há áreas no centro e no oeste do estado onde o desmatamento é quase zero e as florestas dominam a paisagem.

A perspectiva muda quando avaliamos o desmatamento no Vale do Acre. Nesta região vive 65% da população acreana até 2010 segundo o IBGE e concentra 64% do desmatamento do estado, segundo dados do Prodes até 2015. Se considerarmos esta região como uma propriedade rural, já teria ultrapassado em quase o dobro do limite de desmatamento previsto em lei, tendo 37% de seu território sem vegetação nativa original.

Quando observamos o desmatamento por município, a situação se agrava: dez municípios têm mais de 20% de sua área desmatada: Plácido de Castro com 73%, Senador Guiomard com 71%, Acrelândia 61%, Epitaciolândia com 51%, Capixaba com 51%, Porto Acre com 48%, Bujari com 40%, Brasiléia com 34%, Rio Branco com 29% e Xapuri com 25%.

A taxa de desmatamento desde 2007, se for continuado, acabariam as florestas nestes municipios em 50 anos (Acrelandia) a 300 anos (Xapuri). Em outras palavras, estamos no caminho no leste do Acre para a situação da Mata Atlântica.

Pode até argumentar que levariam décadas antes de desmatar totalmente estes municipios, mas de qualquer maneira estamos no caminho. E a situação é pior se considerarmos a saúde das florestas remanescentes nestes municipios.

Quando analisamos o histórico de incêndios florestais por município desde 1984, observamos que o impacto do fogo, principalmente em 2005, 2010 e 2016, foi muito severo na saúde das florestas. Os municípios de Plácido de Castro, Senador Guiomard e Acrelândia tiveram 77%, 74% e 55%, respectivamente, das suas florestas remanescentes afetadas pelo fogo. Os municípios de Porto Acre, Rio Branco, Capixaba, Epitaciolândia, Bujari e Xapuri, tiveram entre 13 a 20% das suas florestas remanescentes afetadas. Estas florestas remanescentes têm um alto nível de degradação. Dr. Josh Barlow e colegas mostraram que florestas degradadas perdem em torno de 46-61% do seu valor de conservação.

Se continuar o padrão de desmatamento e degradação no leste do Acre, teremos implicações sérias nas políticas públicas de serviços ambientais, assim como não cumprimento da meta voluntaria de redução do desmatamento até 2020 estabelecida pelo Governo do Estado na última Conferência das Partes (COP) em Paris que ocorreu no final de 2015. Segundo dados do Inpe, o estado do Acre aumentou seu desmatamento em 47% em 2016 em comparação com 2015.

O leste do Acre abrange a maioria da população acreana, a maior parte da atividade agropecuária do estado e a maior demanda para recursos hídricos. A região tem centenas de propriedades com 50% a 100% das suas áreas desmatadas, uma situação ilegal independente se o limite é 20 ou 50%.

As suas florestas remanescentes são fragmentadas em vários municípios e ausentes nas margens de muitos igarapés, reduzindo os serviços ambientais que as florestas fornecem para a região. A continuação das tendências atuais resultaria em mais vulnerabilidade da sociedade regional à variabilidade do clima. Basta ver a disponibilidade de água nestes municípios para entender a situação.

Como foi notado no artigo de dez anos atrás, alguns passos podem ajudar a reduzir esta vulnerabilidade e recuperar parcialmente os serviços ambientais perdidos.

O primeiro é um programa de intercâmbio de informações com diversos segmentos da sociedade que ajudaria a refinar estas informações e a capacitar estes segmentos no uso das mesmas. Um componente deste programa poderia ser a inclusão destas informações no ensino básico do estado, especialmente em escolas rurais de 1a a 8a série.

O segundo é que os segmentos da sociedade, especialmente os mais afetados por decisões de póliticas públicas nesta situação – os produtores rurais e as populações urbanas – precisam fazer parte efetiva da formulação de soluções que inevitavelmente afetarão a trajetória de desenvolvimento e conservação no Acre nas próximas décadas.

O terceiro é analisar se a ideia de rejardinar a biosfera, como colocada pelo Dr. Antônio Nobre, possa ser iniciada em estes municipios, tanto para ajudar no desenvolvimento quanto para conservar os sistemas de vida dos quais dependemos.

A taxa de desflorestamento vai chegar a zero, seja via uma decisão consciente ou quando não existir mais floresta original para desmatar. A Mata Atlântica é prova disso. A sociedade acreana tem que decidir se ela quer parar o desflorestamento e a degradação florestal enquanto ainda existem floresta s no leste do Acre.

Sonaira Souza da Silva, Foster BrownSonaira Souza da Silva, Professora da Universidade Federal do Acre (Campus Cruzeiro do Sul), Doutoranda do DINTER UFAC-INPA e Pesquisadora do Setem/PZ/UFAC.

Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) e do Curso de Mestrado em Ciências Florestais (CiFlor) da UFAC. Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT Servamb e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).

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