O fio da vida: falar é a melhor forma de prevenção ao suicídio – Jornal A Gazeta

O fio da vida: falar é a melhor forma de prevenção ao suicídio

 

O artigo de hoje é dedicado a um tema tão difícil quanto urgente de ser abordado, quando a sociedade tem discutido e se mobilizado em torno dessa questão: o suicídio. No Acre houveram alguns episódios recentes que ganharam repercussão e causaram comoção e é oportuno tratarmos sobre o tema especialmente em setembro, quando, no Brasil e no mundo, o mês é marcado por diversas ações que buscam a valorização da vida, o amparo às pessoas que sofrem de depressão e, sobretudo, a prevenção ao suicídio. O dia 10 de setembro em especial é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Além disso, instituiu-se a campanha Setembro Amarelo, que visa a conscientização sobre a prevenção ao suicídio, alertando a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e divulgando as medidas de prevenção adotadas em todo o mundo.

Existem diferentes explicações para os motivos que levam as pessoas a ceifarem suas próprias vidas. Para uns, o ato seria decorrente de uma doença mental. Outros atribuem o suicídio a causas sociais, não sendo um fenômeno meramente individual, mas com origem no coletivo. Em termos conceituais, o suicídio é hoje definido em três dimensões: o pensamento (pensamentos de suicídio e planos de realização), a tentativa (quando se deve avaliar a letalidade, o tipo, a intenção e número de tentativas) e o suicídio, que é todo ato executado pelo próprio indivíduo, com intenção de causar sua própria morte, usando um meio que acredita levar a tal fim.

Em Rio Branco, o mês de julho foi marcado por tristes notícias de comoção social sobre suicídio. Uma jovem estudante de 19 anos de idade transmitiu o ato de suicídio ao vivo por meio de sua rede social. Dois dias depois, os pais da jovem foram encontrados sem vida, com indícios de que também teriam cometido suicídio. Não se sabe ao certo a motivação para tal ação, mas os suicídios resultam de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociológicos, culturais e ambientais.

O suicídio é um fenômeno complexo e requer um olhar cuidadoso e acolhedor de todos os amigos, familiares e profissionais de saúde. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa de suicídio no Brasil cresceu 10,4%, aumento que representa um número em torno de 11 a 12 mil mortes por suicídio ao ano. No Acre, segundo o levantamento de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, no ano de 2013 foram oficialmente registrados 43 óbitos. Entre os anos de 2013 e 2014, foram registradas 215 ocorrências de tentativa de suicídio no hospital de urgência e emergência de Rio Branco (HUERB). No entanto, o Instituto Médico Legal (IML) registrou no mesmo período, 66 óbitos. São números que preocupam e nos inquietam sobre quais os caminhos para a prevenção.

Muitos estudos demonstram que a prevenção ao suicídio se faz com uma série de atividades, que vão desde proporcionar melhores condições de vida para a população, passando por tratamentos eficazes de saúde mental, até o controle ambiental de fatores de risco. Uma equipe capacitada, aliada a disseminação de informação qualificada são elementos essenciais para o sucesso de programas que visam estimular a prevenção. O HUERB mantém, desde 2012, um Núcleo de Prevenção ao Suicídio, que tem atuado para identificar casos de tentativa de suicídio. Muitas vezes os pacientes que tentaram suicídio registram outras causas ao dar entrada no hospital, o que dificulta a prevenção de novas tentativas. Precisamos investir ainda mais no fortalecimento dessas ações e da rede de atendimento psicossocial, para que tenha capacidade de evitar novas ocorrências.

Outros fatores, não menos importantes, que podem colaborar com a prevenção de atos suicidas, são a observação e o acolhimento, com respeito e amor. Se você tem um amigo que está passando por alguma dificuldade, sente-se ao lado dele, escute, reconforte, seja atencioso, solidarize-se, coloque-se na situação da outra pessoa para ver as coisas do seu ponto de vista, seja empático. É bem verdade que casos de sofrimento psíquico precisam de atendimento especializado. Faz parte desse carinho com quem nos cerca, a divulgação da importância de buscar ajuda especializada. Uma boa notícia recente é a chegada do serviço do Centro de Valorização da Vida (CVV) ao Acre. O CVV atua desde os anos 1960 em vários estados do Brasil no acolhimento a pessoas em sofrimento e prevenção do suicídio. Com uma ligação gratuita para o número 188 é possível receber um atendimento em um momento de sofrimento.

Em tempos difíceis marcados pelo egoísmo e individualismo, é importante que sejamos movidos por valores humanitários, com o sofrimento de alguns sendo considerado um desafio para todos. Fortalecendo políticas públicas e as relações cotidianas, podemos começar a dar alguns passos no enfrentamento deste grande problema social.

*Raimundo Angelim é professor, economista, ex-prefeito de Rio Branco e deputado federal (PT-AC)
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