O início dos 111 anos de Sena – Jornal A Gazeta

O início dos 111 anos de Sena

As cidades são como os homens: nascem, crescem, envelhecem  e morrem. A história da humanidade conheceu grandes metrópoles que reinaram por séculos e desapareceram no pó, consumidas por seu próprio poder e arrogância. Outras nasceram pequenas e assim, como pequenas aldeias, se mantiveram por milênios abrigando sucessivas gerações de famílias e homens e mulheres que não deixaram nenhum vestígio de sua breve existência.

Aqui no Acre, às margens do Rio Iaco, um taperi no aceiro da mata testemunhou o desafio de fundar uma cidade. Casas, ruas, esquinas, praças, vidas… Um século depois Sena Madureira continua sendo construída diante das águas do Iaco que passam… Este é apenas um pequeno pedaço dessa grande história.

Até setembro de 1904 o Acre só existia pela vontade de seus povoadores. Nenhum governo havia chegado até aqui. Até que, na confluencia dos rios Caeté e Iaco, Sena Madureira foi fundada em terras do antigo seringal Santa Fé, no dia 25 de setembro de 1904, pelo General Siqueira de Menezes, sendo seu nome uma homenagem a um general brasileiro que lutou na Guerra do Paraguai.

A Ata de Instalação do Departamento do Alto Purus é, em sua simplicidade, um dos documentos mais importantes da história acreana porque é ao mesmo tempo a certidão de nascimento da Cidade de “Senna Madureira” e o marco inaugural da presença do governo brasileiro no alto Rio Purus. Nele podemos ler o nome de alguns homens que só passaram por aquelas margens do Iaco e de muitos outros que ali permaneceram o resto de seus dias como Avelino Chaves e João Câncio Fernandes. Nele deixamos de ler também o nome de muitos outros que não foram registrados, mas que ali estavam e viram.

José Candido Mariano foi o verdadeiro construtor da cidade de Sena Madureira. Esteve presente na solenidade de fundação em 1904, mas não permaneceu na região. Quando retornou – já nomeado como Prefeito Departamental, em junho de1905 – o que deveria ser uma cidade era uma simples clareira na mata ocupada somente pelos militares do 36º Batalhão de Infantaria. Coube a ele traçar as ruas, construir os primeiros prédios e atrair seus primeiros moradores graças à doação de terrenos.

A opulência da borracha faz com que Sena Madureira tome ares de uma cidade de fato. Diferente dos seringais, que eram espaços privados sujeitos a vontade dos seringalistas, o espaço urbano é público e possibilita a expressão de necessidades antes reprimidas. Como a simples possibilidade de brincar o carnaval, construir uma igreja ou ter um mercado onde comprar e vender.

Suas casas são construídas na sua maioria, em madeira. Mas, depois de algum tempo, Cândido Mariano trás para Sena uma maquinaria para fabricação de tijolos. Várias instituições públicas são instaladas no Departamento, escolas são construídas, diminuindo o índice de analfabetismo, começa a circular o primeiro jornal, se instala a Comissão da Defesa da Borracha, os Correios, uma Estação Geral dos Telégrafos, o Tribunal de Apelação, Usina de energia elétrica e até bondes com tração animal começam a circular pelas ruas da cidade.

Mas, infelizmente, o regime de Território Federal a que o Acre estava submetido deu origem a governos autoritários que centralizavam nas mãos dos Prefeitos Departamentais todo o poder, sem nenhuma forma de participação social. O título do jornal “Estado do Acre” não deixava dúvida sobre o que os acreanos queriam para a região, já em 1908. A autonomia política do Acre era indispensável para se alcançar também à autonomia econômica e por fim à exploração federal sobre a fortuna da borracha acreana.

A Revolta Autonomista do Juruá (em 1910) foi a primeira tentativa prática de se transformar o Território Federal em Estado. O autoritarismo dos prefeitos departamentais, a falta de solução para os problemas locais e os primeiros sinais da próxima decadência da borracha fez com que os clamores autonomistas se espalhassem por todos os vales: o Acre precisa ser governado pelos seus.

Um povo não pode ser oprimido para sempre. Além disso, o germe revolucionário esteve presente na identidade acreana desde seu início. A memória das violências cometidas por peruanos no Purus e no Juruá e por bolivianos no Acre estava viva demais. Bem como estavam vivos os ideais que haviam guiado os primeiros revolucionários do Acre durante a resistência à dominação estrangeira.

Dois anos depois da revolta autonomista de Cruzeiro do Sul, havia chegado a vez do povo de Sena Madureira soltar seu grito de liberdade, proclamar a autonomia do Acre e a cidadania plena de todos os acreanos. A revolta começou pouco depois do Coronel Tristão de Araripe, ter assumido a prefeitura departamental de Sena Madureira, em 1912.

A administração de Tristão Araripe foi completamente insensata. Ele suspendeu os serviços de manutenção da cidade e fechou algumas repartições públicas. E quando questionado respondia simplesmente que para ele a cidade tendia ao desaparecimento.

A população decidiu então não mais aceitar seu autoritarismo ameaçando expulsá-lo com armas na mão. E diante de sua recusa em deixar o governo, foi o que realmente aconteceu. Centenas de populares aderiram ao movimento, junto com seringalistas e membros do Partido Progressista que havia se formado na cidade.

Por volta de nove e meia da noite, do dia 05 de maio de 1912, ocorreram os primeiros tiros dos rebeldes. Quando o dia clareou a cidade havia se transformado em um centro de guerra. Mas, só depois de 72 horas a prefeitura da cidade foi tomada, finalizando com a fuga do prefeito e o aprisionamento da tropa federal.

O Comitê Revolucionário se reuniu na Prefeitura, deliberando sobre aclamação de uma junta Governativa, o seguinte boletim à população:

“O Comitê Revolucionário desta cidade, em nome do povo, proclama o Território do Acre em Estado Autônomo da República dos Estados Unidos do Brazil…”.

Poucos dias depois, Sena Madureira foi duramente bombardeada por tropas federais, os autonomistas envolvidos na revolta foram mortos ou presos e o governo brasileiro retomou o controle da cidade. Mas, estava dada a contribuição dos senamadureirenses para o sentimento de autonomia e liberdade que até hoje caracteriza o povo acreano.

* Marcos Vinicius Neves

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