O LADO FOLCLÓRICO DA FUNDAÇÃO DE BRASILÉIA*

Postado em 20/06/2017 00:19:08 Evandro Ferreira

“Tudo começou com um incidente que resultou na expulsão do juiz e do escrivão da comarca de Xapuri. Sem sede, a comarca foi transferida para um “jamaxi” e de lá perambulou pelos seringais do alto rio Acre até encontrar guarida em…Cobija, Bolívia”.

Sobre a fundação de Brasiléia, conta-se que a ideia surgiu em consequência de um incidente que ocorreu entre o juiz do 3° Termo Judiciário da Comarca de Xapuri, sediado no seringal Nazaré, Fulgêncio de Paiva, e o arrendatário do mesmo seringal, Sr. João Pereira de Pinho.
O juiz havia protestado contra as condições dos alojamentos que lhes foram oferecidos, considerando-os indignos do judiciário. Desse desentendimento resultou a expulsão do juiz e do escrivão das dependências do Seringal Nazaré.
Diante da situação, o juiz e o escrivão subiram o rio Acre em busca de acolhimento em outros seringais. Não se sabe se o juiz era muito exigente ou de difícil trato, mas o certo é que não encontrou acolhida junto aos outros seringalistas e terminou tendo que se dirigir para a cidade boliviana de Cobija, onde foi hospedado por brasileiros ali residentes.

Comarca sem sede andava em um “jamaxi”
Conduzindo às costas todo o material e arquivo do juizado, os dois funcionários causaram hilaridade às pessoas que os viram atravessar as ruas da cidade boliviana. Dizia-se em satírico dito da região que a justiça do 3° Termo andava em um “jamaxi”, de seringal em seringal, esmolando hospedagem.

Vários brasileiros residentes em Cobija, feridos no seu amor pátrio, não puderam ficar indiferentes a esse acontecimento e reuniram-se na residência de José Cordeiro Barbosa e concordaram em conseguir uma instalação condigna e apropriada para a ‘justiça ambulante’.

Organizou-se então uma comissão integrada por Luís Barreto Correia de Menezes, Reinaldo Melo, José Cordeiro Barbosa e Fulgêncio de Paiva, com o fim de adquirir o local para fundação de uma vila onde se construiria um prédio destinado à instalação desejada pelo representante do poder judiciário.

Finalmente, e apesar de não encontrarem a mínima boa vontade por parte dos proprietários dos seringais ao longo do rio Acre, escolheram uma faixa de terra do seringal Carmem, que ficava localizado à margem esquerda do rio Acre, oposto à cidade de Cobija.

A ideia foi propalada entre os brasileiros que mourejavam às margens do rio, acima de Cobija e os residentes nesta cidade, apelando para o concurso pessoal e financeiro de cada um. Ultimados os preparativos, no domingo de 3 de julho de 1910, às 7 horas, cerca de 100 pessoas, entre homens e mulheres, deram início à derrubada da mata sob ardoroso entusiasmo.

Às 17 horas foram suspensos e dados por concluídos os trabalhos, constatando-se o desflorestamento de um hectare de área. Após o trabalho de derrubada e limpeza do terreno, tendo a comissão arrecadado a importância de vinte e dois contos de réis, teve início a construção de um amplo prédio, que se chamaria “Palácio da Justiça”. Neste local surgiria Brasília, o primeiro nome pelo qual Brasiléia foi batizada.

Será que compraram e não pagaram o terreno?
Decorridos seis meses, quando as obras já se encontravam em acabamento, aparece, inopinadamente, o gerente do seringal Carmem, João Gomes Teixeira, à frente da marinhagem do navio “Braga Sobrinho”, e ataca a indefesa vila, destruindo totalmente o prédio.

Esse episódio passa a impressão de que o valor arrecadado para a aquisição do terreno para a instalação da sede do judiciário não era suficiente e de todo acordado pelo proprietário da área escolhida, ou de alguma forma, o prometido não foi pago. Isto talvez explique a reação ‘destruidora’ do preposto do dono do seringal Carmem.

Em consequência do conflito instalou-se rigoroso inquérito, ficando a firma insurgente obrigada a doar a área em questão e em 30 de maio de 1911 foi realizada a doação, por escritura pública, em Rio Branco, capital do território. Nesse mesmo ano, por determinação do Prefeito do Departamento do Alto Acre, Deocleciano Coelho de Souza, verificou-se o levantamento da planta-projeto da nova vila e, no ano seguinte, foram nomeadas as primeiras autoridades.

Brasília manteve o status de Vila até o ano de 1938, quando foi elevada à condição de município. Em 1943, por força do Decreto-Lei Federal n°. 6.163, de 31 de dezembro de 1943, e que deu nova organização judiciária ao então Território do Acre, o topônimo Brasília foi alterado para Brasiléia. A necessidade de mudança se deu em razão dos planos que o Governo Federal tinha de instalar a futura capital do país no Brasil Central e do fato de o nome da nova capital coincidir com o que tinha sido adotado pela pequena cidade acreana. O novo nome adotado consiste em uma junção das palavras ‘Brasil’ (Bras) e ‘Hileia’ (floresta amazônica).

*O texto acima é uma reprodução com algumas modificações do texto contido no documento ‘Brasiléia’ disponível online na Biblioteca do IBGE (Monografia 344, publicada originalmente em 1966). Pequenas inserções de texto foram feitas para contextualizar melhor as situações descritas no texto original.

A imagem que ilustra este artigo foi tomada em 1907 pelo aventureiro inglês Percy Fawcett, que havia sido contratado pelo governo boliviano para realizar a demarcação da fronteira entre o Brasil e a Bolívia, definida em 1903 pelo Tratado de Petrópolis. A imagem mostra que em frente à cidade de Cobija predominava uma densa floresta.

Para saber mais: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/113/col_mono_n334_brasileia.pdf

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