O ponto de virada: 30 anos do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros – Jornal A Gazeta

O ponto de virada: 30 anos do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros

1985 foi, por assim dizer, o ano da  virada do movimento dos seringueiros que se encontravam em meio a uma luta acirrada contra fazendeiros, grileiros, madeireiros e, o que era mais grave, contra o próprio Estado que sempre, via de regra, estava ao lado destes e contra aqueles. Na verdade, era uma luta múltipla. Lutava-se pelo direito à terra, lutava-se em defesa da floresta como modo de garantir a existência dos “povos da floresta”, lutava-se por justiça social. Mas, principalmente, os seringueiros lutavam pra sair da condição de invisibilidade em que viviam desde que o 1º Ciclo da Borracha (1870-1912) inseriu a Amazônia no capitalismo industrial que precisava daquela matéria prima tão valiosa como preciosa: a borracha.

É isso que emerge da fala de pessoas que estavam na Universidade de Brasília, naquele já longínquo 1985, e que estavam novamente na mesma UnB nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2015, como o Raimundão.

“Eu vou falar do seringueiro de ontem e o de hoje. O de ontem era um seringueiro explorado. Não tinha oportunidade de ser reconhecido pelas autoridades do Estado, da federação e, muitas vezes, nem pelo próprio município. O único que o reconhecia era o patrão. Até o momento em que ele estava produzindo para ele e comprando mercadoria dele. Mas, no momento em que ele adoecia, o patrão também deixava de dar importância a ele. O seringueiro de ontem e seus filhos não tinham acesso à educação, a nenhum benefício do Estado e do município. Era um verdadeiro escravo.

Eu nasci nessas condições, Chico Mendes, que foi nossa liderança maior na região do Acre, também nasceu nessas condições. Assim como milhares de outros seringueiros que nasceram na floresta. Noventa e oito por cento deles sequer foram registrados. Nasceram, criaram, produziram riqueza, morreram e sequer ficaram registrados nas estatísticas. Essa história é muito maior, mas vou ficar por aqui em relação ao seringueiro de ontem.

O seringueiro de hoje é liberto, autônomo (não tem mais a figura do patrão), é organizado em associações e cooperativas, seu produto é valorizado, as distâncias percorridas há 40, 50 anos que eram de quase 5 dias, agora se faz em poucas horas porque existem ramais que possibilitam andar de moto, carro. Seus produtos ainda recebem subsídios do Estado. O quilo da nossa borracha chega a R$ 10, a lata de castanha é R$ 30, nossos filhos estudam e se nós, pais, também quisermos estudar é possível porque tem escolas em todos os seringais. Hoje, estado, município e federação estão presentes no seringal”.

Essa fala do Raimundão é ainda mais importante porque pra ele o seringal ainda existe. Porque ele mesmo mora lá ainda: no “seringal”. Mas, se formos recorrer a qualquer um dos doutos senhores da academia, eles vão logo apontar uma suposta idiossincrasia e provavelmente vão dizer: Isso é um absurdo, porque não existem mais seringais.

Mas, como procurei mostrar em outro artigo publicado aqui há duas semanas intitulado “Quem é da floresta não se Espalha”, ainda existem sim seringais como ainda existem seringueiros. Ambos, seringais e seringueiros, muito diferentes do que eram há trinta anos atrás, felizmente. Mudança essa que foi promovida por eles próprios e não pelos doutos senhores da academia. Por isso, pra todos os efeitos, ainda prefiro as categorias e classificações criadas na floresta e não nas propugnadas nas academias isoladas da vida real no fim dos ramais e varadouros dessa Amazônia.

O fato é que – depois de trinta anos do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros a partir do qual surgiram a proposta das reservas extrativistas, a Aliança dos Povos da Floresta e o Conselho Nacional dos Seringueiros – muita coisa mudou. Como fez questão de enfatizar, em sua fala, o atual presidente do CNS, Joaquim Belo.

“O CNS nasce com o perfil muito próprio que é trabalhar com floresta, com comunidade extrativista, com o modo de vida real e garantir a economia que é muito forte, apesar de ser marginal, de não ser contabilizada. Por exemplo, em qualquer lugar do mundo que você chega tem açaí sendo vendido, porém continua uma economia informal, assim como a castanha, a borracha e os óleos. Nossa economia é muito forte. Contribui com o PIB brasileiro, mas na informalidade. Então o CNS nasce para defender território e modo de vida coletivo, o que conserva a floresta, a biodiversidade, mas também para defender as pessoas que cuidam dela. E o saldo hoje é 443 territórios destinados, o equivalente a 40 milhões de hectares. É muita coisa, envolvendo mais de 160 mil famílias. E a cartografia social mostra que somos uma média de 4,5 milhões de famílias”.

Esses trinta anos do ENS, bem merece ainda artigos que aprofundem mais outros aspectos dessa história, como a própria história daquele encontro. Mas, para encerrar esse artigo gostaria de colocar apenas mais uma das muitas mudanças geradas por aquele acontecimento, que foi a capacidade de modificar a trajetória pessoal de muitas pessoas e assim mudar a história daquele movimento. E isso fica muito evidente na fala que o senador Jorge Viana fez nesse novo encontro para lembrar daquele outro de trinta anos atrás.

“Dificilmente eu teria seguido o caminho que segui se não tivesse estado naquela aula que foi o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros. Foi a aula da minha vida, a aula que mudou minha vida, que me deu as melhores oportunidades. Quem diria que alguém como eu viraria vice-presidente do Senado. Estou contando isso porque acho que é importante que quem está desanimado, se anime. Tenha esperança de novo. Tenha fé. Porque momentos mais difíceis nós já vivemos e superamos. A perda do Chico Mendes foi um golpe para nós. Achávamos que tudo estava perdido. E foi chorando a morte dele que a gente encontrou forças para fazer algo em memória dele”.

Enfim, aquele histórico encontro foi, ao mesmo tempo, um e muitos pontos de virada, porque seus resultados cresceram para muito além daqueles seringueiros que lutavam por seus direitos. Hoje, o revolucionário modelo de reservas extrativistas é aplicado até para comunidades de pescadores do litoral brasileiro, a muitos milhares de quilômetros de distância do Acre. Assim como muitos outros segmentos da sociedade brasileira saíram daquela condição de invisibilidade que tanto maltratava secularmente os seringueiros. Porque, atualmente, quando falamos de povos da floresta estamos falando não só dos seringueiros, mas também dos coletores de castanha, de açaí, de cupuaçu, quebradeiras de coco babaçu, balateiros, piaçabeiros, integrantes de projetos agroflorestais, extratores de óleo e plantas medicinais, entre muitos outros. Além de estarmos falando também dos muitos povos indígenas que ainda insistem em existir em nosso país, mesmo que em diferentes condições históricas e sociais, muitas vezes, totalmente adversas a sua existência. Ou seja, outros pontos de virada ainda precisam acontecer no Brasil.

* Marcos Vinicius Neves

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