O preço do bom jornalismo – Jornal A Gazeta

O preço do bom jornalismo

Trinta anos de jornalismo é uma missão árdua, cheia de histórias de lutas e conflitos. (Fotos: ARQUIVO A GAZETA)
Trinta anos de jornalismo é uma missão árdua, cheia de histórias de lutas e conflitos. (Fotos: ARQUIVO A GAZETA)

Jornalismo é uma das profissões mais apaixonantes que existem. Quem escreve o faz por paixão. Até porque, já diz o velho ditado, não dá para ganhar nenhuma fortuna com isso. Só que toda paixão tem seus riscos. E neste ofício é preciso ter coragem para encarar todos os dias muitos ‘leões ferozes para matar’. No meio de todos os lados e de todos os interesses envolvidos em um fato, há sempre o jornalista. E certamente a sua reportagem não vai agradar a todos.

Em 30 anos de história, A GAZETA sabe bem o que é isso. Na sua origem, o jornal descende de um projeto de resistência, que foi o Varadouro. Na sua proposta jornalística, A GAZETA prima pelo compromisso com a verdade. E com tais prerrogativas, várias vezes o jornal afrontou os interesses de poderosas figuras públicas. Leia a seguir alguns destes embates:

“O passarinho já tá na gaiola”

Elson conta sobre a ‘voltinha’ que foi obrigado a dar
Elson conta sobre a ‘voltinha’ que foi obrigado a dar

Um dos fundadores de A GAZETA, o jornalista Elson Martins é um ‘Google vivo’ de histórias. Ele sempre tem uma boa para contar. Na fase inicial do jornal, ele viveu dias difíceis, em tempos em que fazer jornalismo no Acre era uma missão perigosa. Certa vez, Elson escreveu um artigo crítico sobre um figurão do alto escalão da Polícia Militar. E a reação veio de forma rápida.

No dia seguinte, o jornalista recorda que ia levar suas filhas para a escola, de manhã bem cedo, quando foi surpreendido. Chegaram à sua casa dois policiais falando que o coronel estava lhe chamando para ter uma ‘conversa’, em um ‘café da manhã’. Elson se recusou e disse que não tinha tempo, pois estava atrasado para levar as filhas para a aula. Em tom autoritário, os guardas insistiram: “O senhor não entendeu? Nós temos que levá-lo até o coronel”.

Elson conta que concordou, porém, disse que tinha que pegar algo. Esperto, foi o que ele fez… pegou a sua máquina Telex e enviou na hora mensagens ao seu editor fora do Estado (Elson era correspondente aqui) para dizer que não ia poder trabalhar porque estava sendo raptado por policiais. Algo apavorante, especialmente em tempos como os da ditadura. E assim ele foi acompanhado até a viatura policial. Ao ser posto no carro, ele ouviu algo que o assustou ainda mais. Um dos policiais comunicou pelo rádio a frase: “O passarinho já tá na gaiola”.

Dali, Elson lembra que eles deram várias voltas de carro. Cada minuto, sua apreensão crescia. O sequestro dele ganhou repercussão rápida, graças a sua mensagem, e graças ao amigo Silvio Martinello, que era correspondente do Jornal do Brasil, e também fez alarde sobre o caso.

Depois das voltas e voltas, os policiais receberam ordem de abandonar a missão devido à exposição do ato e deixaram o jornalista ir embora. O ‘passarinho saiu da gaiola’. Não passou de um grande susto que Elson recorda com um sorriso no rosto hoje. Ele recebeu desculpas do comandante da PM, que tentou justificar que era apenas um ‘café da manhã’. Tá certo!

Sete pragas do Egito e o assunto de Segurança Nacional

Brincar com comparações às pragas do Egito não foi uma boa ideia, há duas  décadas atrás
Brincar com comparações às pragas do Egito não foi uma boa ideia, há duas décadas atrás

Poucos sabem, mas A GAZETA já foi ‘assunto’ de Segurança Nacional. Ainda na fase A GAZETA do Acre, o jornalista Silvio Martinello conta que uma vez chegou uma carta desaforada de um leitor. Ele afirmava que o Acre estava passando por 7 das 10 pragas do Egito. “Na verdade, ele fazia uma referência das pragas aos sete últimos governadores que o Estado teve”.

Abusada como sempre, A GAZETA publicou o texto e deixou o governador da época (cuja identidade não será revelada) furioso. Tão furioso a ponto de processar o jornal. Até aí tudo bem! O mais inusitado veio no tipo de processo. O jornal foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional para revelar sua fonte. Silvio conta que ele e todos os jornalistas foram intimados pela Polícia Federal.

“Eu, o Elson [Martins], todos fomos chamados. Até a mulher do cafezinho. Fomos indiciados e tivemos que sujar os dedos [expressão comum na época] para deixar nossas digitais na polícia. Engraçado que quando fomos depor, até os policiais riam da situação. Anos depois, o processo foi para Manaus e nós fomos absolvidos. A grande verdade mesmo é que ninguém sabia quem era o autor da carta. Chegou de forma anônima. Não tínhamos nem ideia”, revelou Silvio.

‘Você não mataria uma pessoa que passa a vida te incomodando?’

Darly falou do presídio. (Foto: ARQUIVO A GAZETA)
Darly falou do presídio. (Foto: ARQUIVO A GAZETA)

No caso de Chico Mendes, A GAZETA deu ampla repercussão não só ao líder seringueiro, como também na busca pelos acusados do assassinato dele. Elson Martins lembra que, antes de qualquer fama local, regional ou internacional, Chico era uma pessoa bem humilde e que, inicialmente, passaria despercebido a qualquer um. Mas, quando começava a falar sobre as injustiças que eles e seus companheiros sofriam, de repente ele se tornava uma fonte jornalística valiosa.

“Na Redação, nós temos muitas pessoas tidas como chatas. Que tomam muito do nosso tempo sempre com o mesmo assunto. Para alguns lugares, o Chico era essa pessoa. Conheci ele ainda no Varadouro, e, às vezes, quando ele chegava, as pessoas da Redação diziam: ‘vixi, lá vem aquele homem de novo falar dos seringueiros”, brincou Elson Martins, em conversa descontraída. Com o tempo, Elson conta que Chico Mendes conquistou mais o respeito de todos. No dia da morte dele, o jornalista já não estava mais em A GAZETA, mas ele recorda que foi uma grande tragédia.

Quem estava no jornal era Silvio Martinello. E ele se lembra de tudo. Inclusive, que a maior preocupação do jornal foi ir atrás dos acusados pelo assassinato. Quando mataram o Chico, o filho, Darcy Alves, foi preso logo. Era o acusado que todos sabiam que teria executado o Chico. Só que ele se recusou de todas as formas a entregar o pai, Darly Alves. Como a polícia suspeitou de Darly, foram atrás dele, mas o fazendeiro sumiu. Darly passou cerca de 15 dias foragido até se entregar. E quando ele foi levado à penal, Silvio conta que o acompanhou e fez a primeira entrevista de Darly, que ganhou ampla repercussão nacional no Jornal do Brasil. Foi capa.

“Quando ele foi preso, não queria confessar nada sobre ser mandante do crime. Negou de todas as formas. Mas fui fazendo a entrevista e apertando, apertando, até que ele deixou escapar: ‘se você tem alguém que passa a vida inteira te incomodando, você não mataria esta pessoa?”. Foi, de certa forma, uma confissão indireta. A primeira de Darly sobre a morte de Chico Mendes.

A repórter que NÃO engoliu o jornal, mas foi por pouco

Além do telefone e do jornal, ainda teve o lance das cartas. (Foto: ARQUIVO A GAZETA)
Além do telefone e do jornal, ainda teve o lance das cartas. (Foto: ARQUIVO A GAZETA)

Sobre o ex-coronel da PM, Hildebrando Pascoal, existe um tipo de ‘lenda urbana’ de que uma vez ele teria feito uma jornalista comer o jornal no qual ela falara mal dele. Bom, este jornal seria A GAZETA. E não foi bem isso o que aconteceu, mas foi algo parecido. No final da década de 1990, logo após ser eleito deputado federal, o jornal fez uma matéria com o perfil de todos os eleitos. No texto de Hildebrando, a repórter Kátia Chaves escreveu em mais ou menos 5 linhas que o então coronel seria acusado de chefiar o tão temido ‘Esquadrão da Morte’ no Acre.

Aquelas poucas linhas ganharam uma enorme repercussão por terem sido uma das primeiras a afrontar publicamente o tão temido coronel. Silvio Martinello lembra que, logo em seguida à publicação da matéria, Hildebrando foi até a sede da GAZETA, ainda no prédio ao lado do clube Juventus. Ele teria chutado a porta de Silvio algumas vezes até forçar sua entrada.

Silvio narra como foi o encontro: “Ele chegou com o jornal dobrado debaixo do braço, pegou no meu braço e disse que daquela vez ia deixar passar porque ele sabia que não tinha sido eu quem escrevera. Falou que sabia quem tinha sido e que sabia onde ela estava. E que ia fazer ela engolir o jornal. E me fez ameaças caso o jornal seguisse fazendo matérias com o desembargador Gercino Filho [um dos magistrados que mais ‘pegou no pé de Hildebrando’] e deixasse passar algo contra ele novamente. Depois foi embora. Quando ele saiu, nós ligamos para a Kátia, que trabalhava à tarde na prefeitura, e a avisamos para ela sair de lá e se esconder”.

‘Ahã’ no Jornal Nacional
Além deste episódio, Hildebrando Pascoal teve outra tentativa de intimidação a Silvio Martinello. Quando o escândalo do esquadrão da morte ganhou os holofotes nacionais, o Jornal Nacional divulgou uma matéria sobre o caso, com uma ligação grampeada na qual Hildebrando faz várias perguntas retóricas e exclamações ao jornalista. Algo do tipo ‘eu sei que você gosta do Acre’; ‘você tem mulher e filhas aqui não tem?’. Assustado, Silvio disse que só conseguia responder “Ahã”. No final da gravação exibida, Fátima Bernardes comentou: “essa ameaça deve ter sido contra algum jornalista lá do Acre”.

Apesar destas intimidações, A GAZETA cedeu material que ajudou o Ministério Público Federal e outros órgãos a montar o dossiê contra Hildebrando Pascoal na época. Várias edições com matérias reportando supostos crimes com o mesmo modus operandi (forma de atuação) do Esquadrão da Morte foram levadas e serviram para enriquecer provas contra a quadrilha.

A ameaça de demissão do informante anônimo
Há uns 10 anos, o jornal recebeu denúncia de um funcionário de um órgão público. Não vamos citar nomes, por motivos de resguardar fontes. A denúncia é que tal local tinha documentos históricos importantes (papéis antigos) e que estavam jogados em uma sala com infiltrações e outras condições inadequadas. Isso estava deteriorando aquele acervo. A GAZETA foi atrás da denúncia e falou com o funcionário. Após o repórter colher as informações, ele foi ouvir o outro lado: a do órgão. O repórter entrevistou o responsável, que ficou meio sem resposta.

No mesmo dia, este responsável ligou para a Direção do jornal avisando que sabia quem tinha feito a denúncia e que, se a matéria saísse, o informante seria demitido. Para não comprometer o emprego desta pessoa, o jornal preferiu deixar de publicar a matéria. Mas fica aqui o registro de que coisas assim realmente acontecem.

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