Os bons e velhos produtos da floresta ganham novo espaço na economia acreana – Jornal A Gazeta

Os bons e velhos produtos da floresta ganham novo espaço na economia acreana

A riqueza da floresta amazônica é reconhecida há muito tempo. Nossa região é conhecida mundo afora por sua rica biodiversidade e pelo potencial que a floresta guarda. Nos últimos anos, têm chamado a atenção uma nova dinâmica socioeconômica em alguns setores têm vivenciado a partir de incentivos feitos pelo governador Tião Viana no plantio, processamento e comercialização.

Um bom exemplo é a seringueira, uma árvore emblemática para todos nós acreanos, que foi responsável por períodos de grande prosperidade econômica na Amazônia. Não seria exagerado dizer que o Acre hoje é parte do Brasil principalmente porque aqui os seringueiros migrantes encontraram uma das maiores concentrações desta valiosa espécie. Todo o valor que a borracha tem para muitas indústrias atraiu desde cedo a atenção das grandes potências mundiais, que levaram a seringueira ainda no final do século XIX para suas colônias asiáticas. A concorrência das plantações de lá trouxe períodos de declínio econômico para o extrativismo da borracha, que soube se reinventar ao longo da história. Foi em defesa desta atividade que o movimento dos seringueiros lutou nos anos 1980 pela manutenção da floresta em pé e por sua autonomia, o que deu origem às Reservas Extrativistas (RESEXs).

Esta história é bem conhecida dos acreanos. Mas hoje quero falar um pouco sobre novos seringais que têm surgido em nosso estado, em novos formatos e combinações. São pequenas plantações de seringueiras e de frutíferas. Desde 2009 o governo do estado tem investido em plantios de seringueira e outras espécies florestais, no chamado Programa Florestas Plantadas, que têm aberto novas caminhos para a renovação da economia da borracha.

A ideia de plantar seringueiras não é nova. Nos anos 1970 e 80 o governo federal investiu muito em toda Amazônia em um programa de desenvolvimento da heveicultura, o PROBOR, coordenado pela antiga Superintendência da Borracha – SUDHEVEA. Diversos problemas, como a não aplicação dos recursos nos plantios e os ataques de um fungo, o chamado mal-das-folhas, impediram o programa de obter êxito.

O Programa Florestas Plantadas buscou aprender as lições destas experiências anteriores. O programa passou a investir em novos clones com maior resistência ao mal-das-folhas. Investe-se também em pequenos plantios, priorizando os pequenos produtores e seringueiros que vão agregar estas áreas a suas economias familiares. Estas novas plantações de seringueira têm um apelo ecológico. São uma forma de dar nova destinação a áreas já degradadas, desmatadas. Aumenta-se a área florestal com uma espécie nativa da Amazônia, em pequenos cultivos adensados cuidados por seringueiros e assentados.

Mas estas florestas plantadas não são apenas de seringueiras. O governo tem incentivado também o plantio consorciado de frutíferas diversas, como banana, abacaxi, açaí e outras, para gerar uma renda durante a fase de crescimento da seringueira, que é mais longo. Além das frutíferas, que dão um retorno mais rápido, a própria castanha tem sido plantada nestes consórcios, em uma visão de produção de longo prazo, pois a espécie demora no mínimo dez anos para dar frutos.

Um destaque das frutíferas é o Açaí, espécie nativa da nossa região, que tem sido plantada nestes sistemas agroflorestais com a seringueira, mas não somente. O governo tem investido bastante também na cadeia produtiva do Açaí, desde a produção de mudas ao processamento industrial. Já há uma parceria com o Instituto de Administração Penitenciária (IAPEN) para que os reeducandos possam ter uma oportunidade de trabalho na produção de mudas. Desde 2011 o governo já estimulou o plantio de açaí em mais de dois mil hectares, e o plano é atingir cinco mil até 2018.

Toda esta produção de borracha, açaí e outros produtos, que tende a crescer cada vez mais, já tem onde ser processada industrialmenteaqui mesmo em nosso estado. Há alguns anos a fábrica de camisinhas em Xapuri vem dando novo ânimo à produção do látex. A ela se agregou recentemente uma nova indústria de processamento da borracha coagulada, em Sena Madureira, cujo moderno maquinário industrial produz menor impacto ambiental.

A Cooperativa Central de Comercialização de Extrativista do Acre – Cooperacre, que já é a maior indústria beneficiadora de castanha no Brasil, produzindo também polpa de frutas como o açaí, assumiu a administração desta indústria de borracha em Sena. Lá se inicia a produção do chamado Granulado Escuro Brasileiro (GEB). O GEB é a borrachatriturada, lavadae aglomerada em blocos que servirão de matéria prima para várias indústrias, como a de pneus.

Mesmo com todos estes novos caminhos que diversificam nossa economia, o extrativismo florestal continua vivo, apostando em novas tecnologias de processamento na própria comunidade,comoa Folha Defumada Líquida – FDL, que possibilita maior renda em novos nichos de mercado sustentáveis. Seringueiros da RESEX Chico Mendes já fornecem FDL a uma fábrica francesa de calçados.

Isso sem mencionar outros produtos da floresta com grande potencial, como o bambu. O Acre tem a maior floresta nativa de bambu do mundo, uma matéria prima para diversas atividades econômicas, como construção civil, móveis e cosméticos. Instituições como Embrapa, UFAC, IFAC e SEBRAE tem trabalhado junto ao governo para estruturar uma nova cadeia produtiva em nosso estado.

Com tudo isso, vemos com bons olhos estes caminhos se abrindo para a economia dos bons e velhos produtos da floresta acreana. Caminhos que se abrem com a diversificação de nossa economia agroflorestal, tendo sempre como base a tecnologia, a agregação de valor e a geração de emprego e renda para os povos da floresta e pequenos agricultores. O extrativismo se renova e ganha novos mercados. Mas novas técnicas de plantio e cultivo que surgem, possibilitam que nossos tradicionais produtos da floresta sejam também comercializados em novas escalas.

Raimundo Angelim é professor, economista, ex-prefeito de Rio Branco e deputado federal (PT-AC)
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