Jornal A Gazeta

Os nomes dados às coisas são incompletos e inexatos

A curiosidade informativa é própria das pessoas. O desejo de saber é intrínseco à natureza do ser humano. Não há pessoa alguma completamente desprovida de curiosidade. Tanto é assim que sentimos prazer na ativi­dade dos sentidos, independentemente da sua utilidade. As pessoas gostam de ver, de ouvir, cheirar, degustar, tocar, tão só pelo fato de fazer isso. Pois, assim o presente texto trata da curiosidade humana pelos nomes e a relação entre as palavras e as coisas do mundo. Tudo interessa à linguagem, na sua relação com o pensamento ou com a realidade. E isso não é recente, tem a idade de Platão (Crátilo) ou de Santo Agostinho (O Mestre), para referir apenas dois nomes sonantes. Um e outro tomaram a linguagem como objeto de reflexão, ainda que em momentos diferentes e com propósitos diversos.
Desde o Crátilo, de Platão, se discute sobre a propriedade ou impropriedade das palavras. A História e a Linguística indicam que o significado das palavras é mera convenção e que a língua segue o seu curso, indiferente aos ensinamentos dos filólogos e às normas estabelecidas. Como instrumento de comunicação e expressão, a língua vai se adaptando às necessidades de cada época, de cada país, de cada profissão ou atividade humana, criando palavras novas ou conferindo novas acepções às já existentes, ampliando ou restringindo o seu significado. Por isso os dicionários devem ser revistos e ampliados periodicamente.
As especialidades na área médica, por exemplo, surgiram em função da evolução da medicina e passaram a exigir a criação de novos nomes. Nem sempre as denominações escolhidas são as mais apropriadas, mas uma vez aceitas, pela sociedade, desvinculam-se de suas origens, de suas raízes etimológicas, adquirem autonomia semântica e se revestem de uma conotação que lhes garante a sobrevivência, como se podem ver nos nomes de algumas especialidades médicas.
Ortopedia – (do grego orthós, reto + paidós, criança + sufixo –ia) nome criado e empregado, pela primeira vez, por Andry, em 1741, em um livro intitulado: L’orthopedie ou l’art de prévenir et de corriger dans les enfants les difformités du corps. Referia-se, portanto, à correção das deformidades em crianças e não em adultos. A “arte” estendeu-se aos adultos, mas o nome ficou, apesar das tentativas de mudança para Orthomorphie (Delpec) ou Orthopraxie.
Enfermagem – passou a designar a profissão de enfermeiro somente no início do século XX, sem que se saiba ao certo como surgiu o nome. O sufixo -agem, em português, designa ação, estado, coleção, mas não ocupação ou atividade profissional. Pedro Pinto, em seu Dicionário de termos médicos define enfermagem como “ato de enfermar, de tornar-se enfermo” e propõe para a profissão de enfermeiro o termo nosocomia.
Gastroenterologia – especialidade que não se restringe ao estômago e ao intestino, como o nome sugere. Abrange outros órgãos do aparelho digestivo, como o esôfago, fígado, pâncreas, vias biliares.
Cardiologia – não cuida apenas do coração; do contrário os cardiologistas não poderiam tratar a hipertensão arterial.
Otorrinolaringologistas – apesar da extensão quilométrica do nome de sua especialidade, costumam acrescentar um subtítulo explicativo: “Doenças do nariz, ouvido e garganta”, como a dizer que lárygx, em grego, além de laringe, quer dizer também garganta.
Ginecologistas – em sua maioria também fazem partos e preferem manter acopladas as denominações de ginecologia e obstetrícia, como uma fruta inconha. Alguns abreviam para gineco-obstetrícia, de muito mau gosto.
Nefrologia, urologia – o sistema urinário deu origem a uma curiosa dicotomia: quando a abordagem é clínica, a especialidade se chama nefrologia; quando exercida por cirurgião, urologia, como se o clínico não tratasse uma cistite ou o cirurgião não operasse o rim.
Anestesista – designa simplesmente aquele que aplica a anestesia. Para elevar o status da especialidade e do especialista ao nível dos demais, foi necessário acrescentar o lógos grego, com sua magia – anestesiologia e, consequentemente, anestesiologista.
Oculistas – especialistas que cuidam dos olhos, mas que trocaram a palavra latina pela grega oftalmologistas, para maior status garantido pela magia do “logos”.
Pediatras e psiquiatras – esses especialistas dispensam a marca da erudição e preferem ser chamados de iatrós, no sentido clássico da práxis médica: aquele que trata, que cuida, que medica.
Geriatras – seguem o exemplo dos pediatras (afinal são os dois extremos da vida) e deixaram gerontologia para o ramo das ciências médicas que estuda o envelhecimento, embora em alguns países só se empregue gerontologia em ambos os sentidos.
Nota-se que a língua, como instrumento de comunicação e expressão, vai se adaptando às necessidades de cada época, de cada país, de cada profissão ou atividade humana, criando palavras novas ou conferindo novas acepções às já existentes, ampliando ou restringindo o seu significado. Por isso os dicionários devem ser revistos periodicamente, para atualização do uso da língua nos mais diversos campos do conhecimento, pois é certo que a linguagem está a serviço da sociedade que lhe dá a verdadeira dimensão de mudança, conservantismo e inovação.

 

DICAS DE GRAMÁTICA

MACÉRRIMO / MAGÉRRIMO / MAGRÍSSIMO
– Macérrimo é um dos superlativos de “magro”. Uma pessoa macérrima é apenas uma pessoa muito magra. “Magro” vem do latim (“macer”) e pertence à mesma família de “macerar”, “macerado”, “maceração”, “macérrimo”, etc. Em todas essas palavras, existe a noção de “amolecer”, “enfraquecer”, “debilitar”, etc. Por se apoiar na raiz latina, “macérrimo” é considerada a forma erudita do superlativo absoluto sintético de “magro”. Outra flexão possível é “magríssimo”, que se apóia na forma portuguesa do adjetivo. No Brasil, é muito comum o emprego de “magérrimo”. O “Aurélio” diz que essa forma é “anormal (…), apesar de muito comum”; o “Houaiss” diz que essa forma “vem sendo usada como se o étimo fosse mager, magris, e não macer, macris, macre, sendo, pois, menos recomendável”. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da ABL, registra somente duas formas: magérrimo e macérrimo.
ANTEONTEM ou ANTES DE ONTEM
– Ambas as formas estão corretas do ponto de vista linguístico. Contudo, quando nos queremos referir rigorosamente ao dia anterior a ontem, será preferível optar pelo advérbio de tempo, anteontem. Isto porque a expressão “antes de ontem” pode não transmitir com precisão a idéia de “dia anterior a ontem”. Observe-se o exemplo: «Até antes de ontem, eu julgava não saber fazer aquilo.Concluindo, embora ambas as expressões possam ser usadas com o mesmo sentido, a forma “anteontem” traduz com mais rigor a ideia do dia anterior ao de ontem.
ESTÓRIA ou HISTÓRIA
– A palavra estória surgiu para distinguir a ficção de fatos reais. Assim, vimos aparecer a estória da Carochinha. Estória era uma forma antiga de escrever a palavra história e agora parece ter sido recuperada. A razão do seu reaparecimento na nossa linguagem escrita ainda não reúne o consenso dos estudiosos destas questões da língua. Uns pensam tratar-se de uma influência do português do Brasil, outros uma tentativa de copiar a distinção inglesa story/history. Independentemente do modo como apareceu, importa dizer que não aparece na maioria dos dicionários de língua portuguesa. Quanto a mim, parece-me que se trata de uma moda, pois não vejo a necessidade de usar uma outra palavra já que sempre distinguimos a história (fatos ficcionais) da História (fatos históricos). E até me dizerem o contrário, vou continuar a falar da história da Carochinha.

Luísa Karlberg – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Presidente da Academia Acreana de Letras; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro perene da IWA; Professora aposentada da UFAC; Embaixadora da Poesia pela Casa Casimiro de Abreu; Pesquisadora DCR – CNPq/FAPAC; Poeta, Escritora.