Para muito além da luz do fim do túnel – Jornal A Gazeta

Para muito além da luz do fim do túnel

A noite viria logo em seguida, naturalmente. Naquele momento, ao cair da tarde do sábado iluminado, ainda cintilavam alguns últimos e tênues raios de sol. Os fios de gelo, remanescentes do inverno, nas montanhas ao longe, se vestiam de uma tonalidade azul clarinha brilhante e amarelo dourado. O lugarejo era muito simpático e quase a sentir os ventos cortantes do Atacama.
Tomada de uma certa dose de felicidade, ela fazia anotações para a elaboração de um livro que, muito provavelmente, seria intitulado coisas do brasil, em letras minúsculas mesmo. Os chilenos o leriam, aplaudiriam entusiasticamente e, sobre a obra, escreveriam ensaios e resenhas, com certeza, mas os brasileiros dele sequer jamais tomariam conhecimento. A mensagem transmitida pela incrível professorinha, de tantas qualidades e, por isso, perseguida e execrada, não teria eco no Brasil. No Chile, muitos dizem e garantem que os brasileiros mais pobres sempre detestaram os seus irmãos mais inteligentes, como Chico, Milton, Gil e Caetano, que vêm a realidade dos fatos de uma forma holística, mais geral e mais aprofundada. Segundo os de lá, a nossa gente vive uma ordem e um progresso irrisórios e medíocres a partir da origem colonial portuguesa.
Nascida e criada na zona da mata mineira, lia tudo o que lhe caía nas mãos. Um dia, um escritor deixou gravado na mente da menina que as guerras e confrontos vencidos pelos pobres não podem ser difundidos entre estes, justamente, para que eles não tomem conhecimento da sua capacidade de indignar-se, rebelar-se e obter vitórias a partir do confronto com os poderosos, como ocorreu no Chile, quando da queda do sanguinário Pinochet.
No Brasil, então, segundo a professora, memórias e feitos verdadeiramente heroicos foram apagados da mente dos brasileiros exatamente porque os poderosos foram derrotados. Eles não querem que certos exemplos sejam seguidos. É por isto que poucos sabem a realidade dos fatos a respeito de Lampião, que não era tão somente um cangaceiro. Hoje, ninguém sabe que Antônio Conselheiro, em Canudos, derrotou o exército dos ricos em várias batalhas. Pouco noticiaram que os cabanos, gente miserável do Pará, venceram as forças do governo por cinco anos a fio. Os jornais dos donos do poder se encarregaram de minimizar o heroísmo real de Zumbi dos Palmares. Desconhecem que Emiliano Zapata, no México, derrotou a ditadura de Díaz. Ninguém fala que Sandino, na Nicarágua, enfrentou o poderio dos americanos. Não se tem mais conhecimento dos Panteras Negras, o partido negro que, nos Estados Unidos, iniciou a revolução contra os brancos ricos e escravocratas. Mesmo agora por último, a ação ecológica de Chico Mendes foi mascarada pelos fazendeiros que não queriam o seu exemplo copiado.
E a professorinha rebelde vai mais longe:
– Pior de tudo é que as memórias desses caudilhos pobres, hoje, são vilipendiadas, quando campanhas de difamação se erguem e os seus feitos são relegados a nada. As pessoas humildes passam a vê-los apenas como bandidos, porque assim os patrões o querem. Os heróis tão diminuídos levaram muitos prejuízos aos ricos em favor dos direitos dos menos favorecidos. Por isso, as imagens deles devem ser denegridas. As futuras gerações de desassistidos não podem saber que a força do dinheiro dos patrões pode ser vencida, se houver união de ações e propósitos por parte dos que sempre levam a pior na partilha dos resultados de um progresso que pertence a uma parcela minúscula de ricos que estão acima do bem e do mal.
Carmem, a bela professora, fizera graduação em Antropologia, numa grande universidade do leste do Brasil. Depois, os estudos avançados de pós-graduação foram feitos e orientados por ícones do pensamento brasileiro, como Paulo Freire, Joel Martins e Marconi Montezuma. Karl Marx e Friedrich Engels, além de Gramsci e Sartre, dentre muitos outros, estavam na ponta da língua dos maiores estudiosos de então. Era preciso pensar a felicidade de todos e não a de uns poucos que se deliciam em pagar salários cada vez menores.
Segundo depoimento anotado e a ser publicado em livro por Carmem, um pequeno milagre aconteceu:
– Naquela época, fins dos anos sessenta e início dos setenta, a ilhota de excelência do interior paulista estava salvaguardada pelo reitor Zeferino Vaz. Médico conceituadíssimo em todo o Estado de São Paulo, fazia irradiar a sua competência pelo Brasil afora. O brilho da estrela era tanto que os militares, incluindo Costa e Silva e Médici, lhe faziam reverência. Em síntese, tratava-se de um intelectual de direita que conseguia dar as cartas a partir do seu feudo denominado Unicamp. Em contrapartida e em reconhecimento ao grande feito que foi a criação daquela Universidade, os generais houveram por bem deixar quietos os comunistas sob a proteção do Doutor em Parasitologia. Ficou célebre a frase de Geisel que autorizava aos carrascos da ditaduradeixarem os meninos do Zeferino em paz.
Então, depois de defendidas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, a bela professora teve que voltar para as origens, levando as verdades apreendidas a partir do contato com os grandes mestres do pensamento nacional. Juiz de Fora, cidade mineira de vasta cultura, passaria, agora, a contar com mais uma colaboradora. Só que não.
Em dois meses, os militares fecharam o cerco e a bela teve que evadir-se levando consigo alguns alforjes cheios de revolta e a decepção por perceber que os seus irmãos de infortúnio ficariam entregues aos desmandos de poderosos que buscam tudo para si e muito pouco ou nada para os que precisam do básico, como comer, beber, vestir-se e residir condignamente. Em realidade, como ela anotou, os menos favorecidos índios, favelados, sertanejos e seringueiros jamais seriam citados, especificamente, nos programas político-partidários de nenhum grupo que diz os representar. Tudo falácia.
De posse de muitos diplomas e uma prática exemplar, a fuga se fez, inicialmente, até a fronteira do Paraguai, em lombo de mula e, depois, numa segunda fase, agora de ônibus, até Valdívia, onde um grupo de intelectuais banidos do Brasil a esperava. Em poucos dias, era designada a trabalhar como professora secundária em São Pedro de Atacama.
Logo de início, ela percebeu que o Chile tem vinte vezes mais livrarias que o Brasil, apesar de a população chilena ser vinte vezes menor que a brasileira. Eles leem muito e, por isso, não mais são enganados.
Carmem também anotou que a grande mídia, nas periferias ocidentais, como é o caso do Brasil, faz da arte apenas um veículo através do qual chegam apenas as verdades manipuladas que eles querem. Daí, a novela estupidifica, a mentira reverbera, a desinformação se alastra e a alienação produz o atraso das mentalidades.
Depois do período chileno, Carmem voltou à terra natal e houve por bem escrever um texto semelhante a estes escritos. Sofreu represálias, foi duramente ameaçada e, por castigo, voltou a viver no Chile, com o marido, de onde nunca mais saiu.
São eles apenas alguns dentre os muitos brasileiros expatriados e hoje tornados chilenos em vista dos filhos e netos proeminentes. Em verdade, para muito além da luz do fim do túnel, buscam-se e verdadeiramente são encontrados os raios do sol da felicidade, mesmo que estes se façam brilhar em lugares tão distantes da terra natal, infelizmente.

*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL
POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero.

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