PARTE1: Nova cheia do Rio Madeira preocupa autoridades e especialistas apontam como causa a ação humana – Jornal A Gazeta

PARTE1: Nova cheia do Rio Madeira preocupa autoridades e especialistas apontam como causa a ação humana

Na cheia histórica do Rio Madeira, em 2014, o nível das águas chegou a 19,74 metros, deixando o Acre isolado do restante do país
Na cheia histórica do Rio Madeira, em 2014, o nível das águas chegou a 19,74 metros, deixando o Acre isolado do restante do país

Um grande volume de  chuvas nos estados de Rondônia, Acre e Bolívia associado à construção das usinas hidrelétricas no entorno de Porto Velho, foram os motivos que levaram o Rio Madeira a atingir a marca de 19,74 metros, no ano passado, apontaram alguns especialistas na época do desastre natural. Já no primeiro mês de 2015, o rio apresenta sinais de uma nova enchente, tão potente quanto a de 2014.

O Rio Madeira já atingiu a marca dos 15 metros de acordo com a última medição, realizada neste sábado, 24. A cota de alerta é de 16,69 metros. Para atingir a BR-364, nos trechos entre Rio Branco e Porto Velho, é necessário que o nível das águas ultrapasse 17 metros de profundidade.

As previsões meteorológicas apontam que o período das chuvas ainda não chegou ao seu ápice, e, portanto, ainda vem muita água nos meses de fevereiro e março, considerados pela Defesa Civil do Acre e de Rondônia os mais chuvosos.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Rondônia, cel. José Pimentel, o nível do Rio Madeira continua subindo, inclusive famílias em Porto Velho já estão sendo levadas para abrigos. “Nosso termômetro para a força dessa enchente é na Vila do Abunã, distante 215 km da capital. Nesse local o nível da água já está dois metros acima do registrado em 2014. Isso é bastante preocupante”.

No Acre, a Defesa Civil realiza um monitoramento in loco para garantir a trafegabilidade da BR-364.

Segundo o pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac), Alejandro Fonseca Duarte, caso realmente ocorra uma nova enchente, abalará o pressuposto de alguns pesquisadores que previam outro evento desse porte daqui a 180 anos ou, mais ainda, 300 anos.

Sobre os impactos sociais e ambientais das construções hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, o tempo e os estudos mostrarão o certo e o errado. “Tais construções em redes de energia elétrica são sistemas complexos pela sua integração de partes e múltiplas interligações entre elas e o ambiente”, afirmou Alejandro.

O doutor em Ciências Ambientais e pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC), Foster Brown, apontou que a queima de combustíveis fósseis, a fonte principal do aumento de gás carbônico, acelera o acúmulo de energia, principalmente nos oceanos, mas também na atmosfera, amplificando ciclos naturais, criando secas e inundações mais fortes.

Por isso, os governos e a sociedade, de forma geral, devem produzir energia e produtos com menos impacto ao clima. E se preparar no curto prazo para os impactos crescentes de eventos extremos climáticos como, por exemplo, as frequentes cheias e cada vez mais potentes cheias do Rio Madeira, Rio Amazonas e Rio Acre.

O Rio Madeira é um dos rios mais velozes e o 3º com maior carga sedimentar do mundo. Em 2014, a cheia do Rio Madeira desabrigou 30 mil pessoas, mas estima-se que cerca de 100 mil pessoas foram afetadas. Além disso, 80% de Porto Velho foi inundada, provocando o isolamento de Guajará-Mirim, Nova Mamoré e até mesmo Acre por dois meses e meio, devido ao bloqueio da BR-364. O isolamento forçou o governo e empresários acreanos a buscarem alternativas para garantir o abastecimento dos artigos de primeira necessidade.

(Foto: Odair Leal/ A GAZETA)

Especialistas apontam que período severo das chuvas ainda está por vir
Uma nova cheia deve atingir Rondônia em 2015, mas o nível do Rio Madeira não chegará à marca histórica registrada no ano passado, quando cerca de 100 mil pessoas foram afetadas em Rondônia, aponta o sistema de Proteção da Amazônia (Sipam). A previsão é que a enchente atinja o nível máximo no período entre os dias 13 de fevereiro a 15 de março, quando o Madeira deve superar os 17 metros.

O pesquisador da Ufac, Alejandro Fonseca Duarte, explica que nesse período chove praticamente todos dos dias. “Em toda a região, do Acre, Rondônia e Bolívia esperamos pelo menos 22 a 23 dias de chuva no mês de janeiro e fevereiro. Isso é o normal. Sobre outra enchente de grandes proporções do Rio Madeira, se ocorreu uma vez, pode sim ocorrer de novo. A natureza é imprevisível!”, destaca o pesquisador.

Além disso, Alejandro declara que a chuva em grande proporção associada com a ação humana pode, sim, causar fenômenos cada vez mais potentes. Sobre um novo possível isolamento do Acre por terra, Alejandro alega que enquanto a ponte sobre o Rio Madeira não seja concluída, os acreanos irão com as consequências da interrupção do tráfego responsável pelo abastecimento de combustível e alimentos.

O pesquisador Foster Brown concorda com o Alejandro sobre a frequência e intensidade dos eventos extremos. O desmatamento e a liberação de carbono são alguns dos principais fatores para a instabilidade climática que, segundo o especialista, fica cada vez mais evidente.

“É uma combinação de invariabilidade natural, amplificada por dois fatores. Estamos mexendo com a cobertura da terra, que é o desmatamento. Dentro de uma bacia isso pode gerar respostas mais rápidas, mas o desmatamento em bacias longes também afeta a nossa região. A segunda parte é que a  humanidade está liberando muito carbono para a atmosfera”, explica.

Foster desafia a sociedade a avaliar o comportamento da natureza nos últimos 20 anos. “Há 20 anos, quem imaginaria que a BR-364 ficaria intrafegável por conta das águas do Rio Madeira?”, questiona.

Nesse contexto, a sociedade surge como o divisor de águas nas decisões de qual futuro quer alcançar quando o assunto é desastre e a redução de seus riscos. “O envolvimento da comunidade no desenvolvimento de uma cultura de resiliência pode significar o sucesso ou o fracasso. Nossas ações ou omissões enquanto cidadãos nos direcionarão para um desses caminhos. Devemos nos preparar para esses eventos. A natureza pode fazer grandes estragos sozinha, a ação humana está amplificando esse tipo de tipo de ocorrência”, explica o pesquisador.

Governador Tião Viana diz que o Acre está mais preparado para uma crise de isolamento

Autoridades do Acre e de Rondônia trabalham para evitar o desabastecimento
Autoridades do Acre e de Rondônia trabalham para evitar o desabastecimento

“Sim, devemos ter cheia no Rio Madeira”. A confirmação partiu do governador Tião Viana. Mas ele garantiu que não há motivo para pânico. Pela experiência do ano passado, o Estado aprendeu bastante. E, neste ano, saberá lidar melhor com a situação.

O governador contou algumas das ações para remediar a crise do isolamento iminente. Para o abastecimento do Acre, Tião Viana contou que já conversou bastante com os empresários do ramo de supermercado. Deles, o governador recebeu a garantia de que eles estão estocando produtos para os próximos 30 dias. Seria pouco. Em 2014, o Madeira deixou a BR-364 encoberta por quase dois meses e meio. Portanto, é necessário fazer um estoque maior.

Só que o setor não tinha recursos para estocar mercadorias (os principais produtos não perecíveis: arroz, feijão, óleo, açúcar, sal, etc) por mais tempo.

Atento a isso, o governador se reuniu com representantes de bancos no final da tarde da última quinta-feira, dia 22. O objetivo do encontro foi garantir financiamento para os supermercados. Com isso, eles vão ter dinheiro para pedir um estoque de mais 60 dias. Ou seja, os empresários, por conta própria, tinham recursos para 30 dias. E agora devem receber financiamento para ter um estoque de mais 60 dias. No total, haverá produtos estocados para 90 dias.

Além disso, Tião Viana assegurou que, no âmbito federal, os ministérios estão facilitando toda a burocracia necessária para agilizar verbas para o Acre lidar melhor com esta situação. Nesta semana, ele vai viajar para acompanhar isso. “Também já recebemos uma posição do Dnit, que se comprometeu a jogar brita na margem da estrada, para que, depois que passar a enchente do Madeira, a BR-364 não fique tão prejudicada”, enfatizou Tião.

O governador também confirmou que já há um esquema montado para importar combustível do Peru. Tudo para garantir que não vai faltar o produto nas bombas dos postos locais. Sobre a situação dos imigrantes, o chefe do Palácio Rio Branco contou que apressaram a regularização deles para que não fiquem presos aqui contra a sua vontade, como aconteceu em 2014.

(Foto: Odair Leal/ A GAZETA)

Autoridades do Acre e Rondônia se preparam para o pior

Técnicos da Defesa Civil realizam vistorias nos trechos mais críticos da BR-364
Técnicos da Defesa Civil realizam vistorias nos trechos mais críticos da BR-364

Mesmo com a previsão de uma enchente menor do que a de 2014, a Defesa Civil de Rondônia garante que trabalhará com a situação de calamidade para evitar maiores danos e garantir a segurança das famílias em áreas de risco de alagamento. O decreto de estado de emergência em Abunã deverá ser publicado no Diário Oficial em breve.

“O transbordamento de Abunã se dará antes do que aconteceu no ano passado, devido ao assoreamento do rio. Ano passado não estava assim. Agora, com a camada de sedimentos no fundo, fica mais raso e aumenta a cota. Nos preparamos sempre para o pior”, explica Pimentel.

Em Porto Velho, a situação na área central também é preocupante, segundo o secretário adjunto da Secretaria Municipal de Programas Especiais e Defesa Civil (Sempedec), José Pimentel, os locais estão com os acessos ainda mais impedidos depois da cheia passada. “Os riscos são maiores hoje, porque os sedimentos que restaram impedem a entrada das embarcações e o trânsito livre nas áreas. A situação é mais difícil agora do que no ano passado”, explicou.

No Acre, o coordenador da Defesa Civil, coronel Carlos Batista, afirma que a situação neste sábado, 24, na BR-364 era de tráfego normal. “A água está a 80 cm da pista. Ao longo dos últimos 15 dias, o nível variou bastante. Mas dentro da normalidade”.

Sobre a veiculação de fotos mostrando a BR alagada nas redes sociais, o coronel Carlos Batista, nega que a situação esteja fora do controle. “Isso é uma irresponsabilidade! O trânsito na BR está normal. Na pista não tem água”, repreende.

A previsão para os próximos dias é de chuvas em dias alternados na bacia do Rio Madeira. “Ficaríamos preocupados se chovesse todos os dias e em volumes consideráveis. A situação está dentro do esperado neste final de semana”, apontou o coordenador.

(Foto: Secom)

Situação é tranquila na BR-364, diz PRF

De acordo com a Defesa Civil do Acre, as águas do Madeira estão a 80 cm da pista
De acordo com a Defesa Civil do Acre, as águas do Madeira estão a 80 cm da pista

Mesmo com as fortes chuvas que atingiram a região Norte nas últimas semanas, a situação na BR-364 é de extrema tranquilidade e, até o momento, não oferece perigo aos motoristas que trafegam pela rodovia.

De acordo com informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Porto Velho, Rondônia, o tráfego na rodovia está dentro da normalidade, mesmo com a água margeando a estrada.

“A situação na BR-364 está dentro do controle. O trecho que no ano passado ficou submerso e se tornou o ponto mais crítico da inundação, está normal e o trânsito no local é de tranquilidade. Em alguns pontos, a água está perto da rodovia, mas não há previsão de inundação. Caso isso ocorra, a PRF está preparada para tomar as medidas emergenciais”, comunicou a PRF de Rondônia.

Motoristas que passaram pela BR-364, entre Rio Branco e Porto Velho confirmaram a versão de normalidade passada pela PRF.

“Acho muito difícil que tenhamos outra alagação das proporções de 2014. Se acontecer das águas chegar à rodovia, não será tão grave. Passei hoje neste trecho e a situação está normal, pelo que vi não é preocupante”, disse o motorista Gabriel Oliveira.

(Foto: Secom)

DNIT garante ações preventivas para BR-364
Em recente visita ao Acre, o superintendente regional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) nos estados de Rondônia e Acre, Fabiano Cunha, se reuniu com o governador Tião Viana, para tratar das medidas preventivas e definitivas para os trechos da BR-364, entre os estados Rondônia e Acre, em caso de possível cheia do Rio Madeira.

Na ocasião, o superintendente do Dnit disse que existe, por parte dos órgãos competentes de supervisão, uma previsão de elevação no nível do rio, mas, fora de proporções alarmantes, ocorridas no ano passado. Desta forma, ele informou que o órgão trabalha medidas paliativas e definitivas para atuar em casos emergenciais de transbordamento ou possíveis erosões de solo.

“Diferente do ano passado, já temos de imediato uma empresa à nossa disposição para atuar com um plano de sinalização que irá garantir o direcionamento eficiente de veículos, e outras duas no processo de restauração das rodovias”, destacou Fabiano.

O superintendente contou ainda, que em relação às medidas definitivas do órgão, foi proposta junto ao Ministério dos Transportes a construção de um novo seguimento de rodovia anexo às áreas propícias às inundações.

“A proposta é manter a rodovia e construir uma vai alternativa ao lado, apropriada e na cota ideal – conforme estabelecido pelos órgãos que fazem o controle hidrológico da região”, contou Fabiano. Segundo ele, a proposta está em processo de análise, pois envolve custos orçamentários.

População começa a estocar alimentos e produtos de primeira necessidade
O medo de uma nova enchente do Rio Madeira, e consequente isolamento do Acre das demais regiões do país, tem feito com que os rio-branquenses adotem medidas preventivas e comecem a estocar alimentos e produtos de primeira necessidade. Com a prevenção da população, os mercados localizados, nas centenas de bairros da capital acreana, estão recendo um volume maior de clientes.

Algumas pessoas acreditam que, mesmo com uma nova cheia do Rio Madeira, o Acre não será tão afetado, pois os órgãos governamentais e o empresariado local estão prevenido e já estão se organizando, caso necessite de medidas alternativas para o transporte de produtos até o Estado, como é o caso do operador de máquinas pesadas, Francisco das Chagas.

Mais prevenida, a auxiliar administrativa Lândia Alencar afirmou que mesmo que não falte produtos nos supermercados, ela já começou a reforçar o estoque de alimentos e de gás de cozinha. Segundo ela, nesta semana comprou mais duas botijas de gás e fez mais uma feira, só com alimentos de primeiras necessidades, como feijão, arroz e macarrão.

Atitude igual a da auxiliar administrativa tomou a microempresária Michele Souza, que já reforçou a dispensa de casa, não só como forma preventiva para a falta de produtos no mercado, mas também para fugir do aumento dos preços dos produtos, em caso de novo isolamento.

MICHELE SOUZA
Michele Souza – microempresária
“Pela quantidade de chuvas e pelo que se vê pelos noticiários, acho que teremos nova alagação do Rio Madeira. Portanto, já comecei a fazer um estoque de itens. Nas compras que faço estou aumentando a quantidade de produtos, como alimentos básicos e material de higiene pessoal e limpeza. A medida não é só por conta da falta desses produtos nos mercados, mas também por conta da alta dos preços, que geralmente acontece em uma situação dessas”.

FRANCISCO DAS CHAGAS
Francisco das Chagas – operador de máquinas pesadas
“Acho que não há necessidade de se estocar alimentos, ou qualquer outro produto. No ano passado, a falta de alguns itens nos supermercados aconteceu porque ninguém esperava uma cheia como aquela. Este ano é diferente, o governo e os comerciantes já estão prevenidos e se organizando, caso ocorra uma nova cheia. Creio que todo esse alarde, feito em torno de uma nova cheia do Rio Madeira é totalmente desnecessário”.

LÂNDIA ALENCAR
Lândia Alencar – auxiliar administrativa
“O ano passado foi um sufoco grande por conta do isolamento, por isso eu já comprei mais duas botijas de gás e fiz umas compras extras. Comprei mais arroz, feijão e macarrão, entre outros produtos. Infelizmente, não se pode estocar combustível. Se fosse permitido, eu compraria, só para não ter que passar por aquele sufoco novamente. Enfrentar racionamento de combustível e ainda ser obrigada a enfrentar aquelas enormes filas”.

(Fotos: Odair Leal/ A GAZETA)

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