Pimenta no Cunha dos outros é refresco

Postado em 11/12/2015 16:17:38

Que me perdoem as Joanas,  mas a Câmara dos Deputados, essa semana, se revelou uma verdadeira “Casa da Mãe Joana”. Eu achando que ia ter que esperar até sábado pra assistir as lutas do UFC, me surpreendi com as cenas de pugilato do Congresso Nacional e senti vergonha. Afinal no UFC tem regras. Não vale cabeçada, por exemplo. Mas nas deprimentes imagens veiculadas pela imprensa ficou claro que, hoje, vale tudo na arena de golpes baixos e rasteiros que se tornou a Câmara sob a liderança de Eduardo Cunha.

Infelizmente, tenho que admitir que a culpa, em última instância, nem é do Cunha. Afinal, ele não é o criador dessa situação toda que vivemos. Ele, na verdade, é criatura de um processo político distorcido e corrompido que nos acompanha há muito.

Me lembro, como se fosse ontem, quando o então presidente Collor, diante da denuncia de desvio de milhões através do esquema do PC Farias, com a maior naturalidade disse que tudo não passava de “sobras de campanha”. Como se o desvio de dinheiro público para campanhas políticas fosse menos crime do que desviar dinheiro público pra por no próprio bolso. Eu não percebia ainda, mas, naquele momento, Collor estava criando uma nova modalidade de corrupção: a corrupção com justificativa.

De lá pra cá, tem sido sempre a mesma ladainha. Político que é pego com a mão na massa repete o mesmo mantra milagroso: não foi roubo, isso é verba pra campanha política. Naturalizou-se tanto a possibilidade de justificar o desvio de dinheiro público através desse mantra, que aconteceu o inevitável: os caras se sentiram a vontade pra meter a mão “di cum força”, como se diz por aqui, porque sempre havia a possibilidade de escapar dizendo que era “doação de campanha”.

Dai não ser nenhuma surpresa ver o Cunha, com sua invencível cara de pau, dizer que não tinha conta nenhuma na Suíça. As contas eram de Trusts, ele era apenas o beneficiário das contas. Seria cômico, se não fosse trágico. Mas, é impossível não se perguntar: o que falta mesmo pro Supremo mandar prender esse homem? Talvez falte acharem uma gravação dele dizendo que conversou com o ministro tal ou qual do Supremo e que tá tudo tranquilo e sob controle, como aconteceu com o Delcídio. Porque já não resta nenhuma duvida que o Supremo agiu com tanta rapidez e decisão no caso do Delcídio, não por ele ter tentado obstruir o andamento da Operação Lava Jato, ou pelo desvio de tantos milhões, mas porque cometeu o erro de citar nominalmente alguns dos ministros de nossa suprema corte.

O duro é que diante da incapacidade do Congresso de defenestrar o Cunha da presidência da Câmara e de seu mandato, e a falta de interesse do Judiciário em impedir o show de maus exemplos com que a Câmara tem nos brindado, a vida tá ficando cada vez mais complicada. Porque também não há dúvida que a “briga de foice no escuro” do processo eleitoral passado e da crise política instalada desde então estão levando o país à bancarrota.

Seria mesmo demais esperar dos senhores deputados que, ao perceber a gravidade da situação econômica que atravessamos, tivessem uma atitude republicana e parassem de se engalfinhar para tentar contribuir com soluções para a crise que nos assola.

Mas, antes que alguém me acuse do que eu não disse (em tempos de delação premiada tudo é possível), é importante reiterar que, como disse no início, não estou aqui tentando dizer que a culpa de tudo que está acontecendo no país é do Cunha. Afinal, a última coisa que gostaria de fazer na vida seria supervalorizar a importância desse senhor. Mais uma vez afirmo que ele é só um dos sintomas da doença que nos aflige. Porque se o flagelo de nossa política é como o Aedes Aegypti, ninguém consegue exterminar, o Cunha é o “Zica” que nos aterroriza, já ninguém sabe ao certo o mal que ele é capaz de nos fazer ainda.

E, pra não ser completamente pessimista nesse breve artigo, acho que é possível enxergar ao menos uma coisa boa nisso tudo. Nunca se discutiu, ironizou, criticou, desnudou tanto a política nas redes sociais como nos últimos dias. Finalmente, saímos daquela pasmaceira inócua de postagens “arrumadinhas” e “acríticas” com que todos haviam se acostumado pra chegar ao ponto em que as pessoas sintam necessidade de declarar suas posições, goste-se ou não delas.

Sinceramente, espero que isso seja sinal de que estamos próximos a assistir o fim dessa era em que a corrupção na política pareceu se “naturalizar” e os cidadãos se acostumaram a fingir que não enxergam o que acontece nos bastidores e subterrâneos do poder.

* Marcos Vinicius Neves

editorial

Sem mais condições

 

Um dos primeiros atos ontem do presidente Michel Temer foi a revogação do decreto que assinou na quarta-feira, convocando as Forças Armadas, sob o pretexto de manter a ordem pública, depois dos intensos protestos das centrais sindicais e de outras categorias contra as reformas da Previdência e das leis trabalhistas ...

Leia mais...

clima

Rio Branco - AC
agazetanofacebook