QUANDO ENFRENTEI MEU PAI – Jornal A Gazeta

QUANDO ENFRENTEI MEU PAI

Ainda me recordo de como surgi, desafiadora, de cabelos bem tosados, ao final da adolescência, diante de meu conservador pai, para quem a ordem era simples e incontestável: homem devia usar cabelos curtos e mulher, compridos.

Assim, cortar a longa cabeleira era meu protesto. Minha afirmação, meu grito de insubordinação. Queria que ele reagisse, que ficasse bravo. Mal me aguentava na ansiedade de lhe dar uma mostra da minha audácia recém-conquistada. Anos reunindo coragem, estava mesmo decidida a enfrentá-lo. E olha que o meu pai não era fácil.

Nem eu, que já lia Simone de Beauvoir. Estava com o discurso ensaiado – e as pernas trêmulas. E, como quem se lança à batalha, apresentei-me à mesa do almoço muito bem tosquiada, fingindo casualidade. Nos segundos que se seguiram ao registro da minha nova imagem, pude ler a sequência de emoções em seu olhar: primeiro arregalou-se de susto, depois crispou-se, furioso.

A seguir, aconteceu algo que eu não poderia supor. De repente, ele perdeu toda a animosidade. Era um homem inteligente e, com presença de espírito notável, constatava: sua filha crescera, já não podia mais dominá-la como antes. Então, o gesto inédito em seu comportamento: com tristeza, ele capitulava. Observada pelos olhares atentos – e tensos – da família, comemorei intimamente meu êxito.

Mas aí a vitória me doeu. Porque meu pai era também meu herói muito amado. E se ele se retirava desse lugar de poder na minha vida, então eu estava livre sim, mas… Por conta. Desconcertada, percebi que meu porto seguro acabara de se desintegrar.

Que sentimento novo e perturbador era aquele? Em segundos, o mundo virava de ponta-cabeça para mim. Cheguei a me arrepender por ter crescido. Mas já era tarde. Aquela era a nossa despedida – e não apenas simbólica. Pois meu pai morreria dali a alguns meses.

Mais de 30 anos depois, relembro. Já não lamento nada. Acho tudo natural e humano: a luta pelo poder, a rebeldia do novo, o reacionarismo do velho, o medo da responsabilidade. E reverencio o que extraímos das lições, sobretudo o respeito mútuo e a manutenção do afeto, soberano.

E quem me dera, ah, quem me dera, de mãos entrelaçadas, conversar hoje com o meu velho pai sobre tudo isso.

 

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